Abandono escolar no superior é maior entre alunos mais desfavorecidos
29 de nov. de 2021, 10:56
— Lusa/AO Online
Num país onde cada vez mais
alunos frequentam o ensino superior, os investigadores
do Edulog quiseram perceber se essa massificação do acesso tinha
conseguido combater as desigualdades na permanência ou abandono dos
estudos. Os resultados hoje divulgados
mostram que não: “Quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico do
estudante, maior é a taxa de abandono”, revela o estudo do Edulog
‘Estudantes nacionais e internacionais no acesso ao ensino superior’. O
estudo da iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo aponta vários
motivos para o problema, entre os quais o custo que representa para uma
família ter um filho a estudar no ensino superior: em Portugal, “alguns
dos fatores responsáveis pelo abandono prendem-se com as condições
socioeconómicas do país”, lê-se no documento. Alberto
Amaral, membro do Conselho Consultivo do Edulog e porta-voz do estudo,
contou à Lusa que “para as famílias portuguesas a frequência no ensino
superior representa um peso no seu orçamento superior à média da União
Europeia, uma situação que é ainda mais agravada porque os portugueses
têm rendimentos inferiores”. Para Alberto
Amaral o problema poderia ser minimizado com a atribuição de mais bolsas
de estudo: “As bolsas de estudo são atribuídas apenas a famílias
claramente desfavorecidas, que têm rendimentos extremamente baixos. Os
alunos de famílias de classe média não têm acesso”, disse à Lusa Alberto
Amaral. O ex-reitor da Universidade do
Porto nas décadas de 1980 e 1990 referiu que nos países nórdicos, “todos
os alunos têm um salário que os tornam independentes da família”. No
entanto, esta não é a solução defendida por Alberto Amaral para
Portugal – “porque seria uma despesa incomportável” – mas sim o
alargamento de acesso às bolsas a mais alunos e "o aumento substancial
do seu valor". No ano passado, o
Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior valor a subir o valor
da bolsa mínima (ficou em 871 euros), alargou o universo de bolseiros e
reforçou o complemento de alojamento para quem estava a estudar fora da
sua residência. Mas para Alberto Amaral é preciso fazer mais.O
estudo divulgado explica que para muitas famílias o ensino
superior continua a ser visto como um investimento com retornos incertos
no longo prazo e por isso muitos alunos são forçados a entrar mais cedo
no mercado de trabalho para aumentar o rendimento familiar. Mas
existem outras razões por detrás do abandono escolar precoce. O estudo
alerta para o facto de o acesso ao ensino superior ainda não ser igual
para todos: os jovens de meios mais favorecidos têm mais hipóteses de
conseguir um lugar num curso superior mais procurado e por isso com
médias de acesso mais elevadas. Os
investigadores do Edulog concluíram que os alunos que conseguem entrar
no curso que escolhem como primeira opção no momento da candidatura ao
ensino superior são os que menos abandonam os estudos. Assim como a satisfação do estudante é um fator favorável à sua decisão de se manter na escola.O
estudo indica ainda que também os subsistemas, tipos de curso e áreas
de formação influenciam a taxa de abandono no ensino superior, sendo, em
média, menor no sistema universitário do que no ensino politécnico.A
taxa de abandono é mais baixa nos cursos de mestrado integrado (3,5%) e
de licenciatura de 1º ciclo (8,8%), e mais elevada nos cursos técnicos
superiores profissionais (CTeSP) e mestrados de 2º ciclo, com 18% e
15,8%, respetivamente. Já as áreas da
Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática apresentam taxas de
abandono inferiores (5,7%), quando comparadas com as restantes (9,7%).Alberto
Amaral recorda que há cada vez mais alunos no ensino superior que são
oriundos de famílias socioeconómicas desfavorecidas, mas, regra geral,
não entram "para os melhores cursos nem para as melhores instituições".Além
da alteração das condições de atribuição de bolsas de ação social e do
seu valor, o estudo defende outras recomendações como o reforço da
oferta formativa.