A “Tragédia dos Açores” foi há 50 anos

Hoje 09:29 — Nuno Martins Neves

O terceiro maior acidente aéreo da história de Portugal fez, no passado dia 3 de setembro, 50 anos: nesse dia, em 1976, o avião C-130 da Força Aérea Venezuelana embate no solo, a 1 km da pista da Base das Lajes, vitimando as 68 pessoas que estavam a bordo, incluindo 10 tripulantes. O incidente ficou conhecido como a “Tragédia dos Açores” e a maioria das vítimas mortais pertencia ao Orfeón Universitario de La Universidad Central Venezuelana, grupo que iria tocar num festival em Barcelona, Espanha, a razão do voo.Sem recursos próprios para financiar a deslocação dos músicos, o Orfeón pediu apoio ao presidente da Venezuela, que colocou ao dispor do grupo um avião militar, o C-130. A rota levaria o avião do aerporto de Maiquetia, perto da capital venezuelana, Caracas, até Barcelona, fazendo duas escalas técnicas, em Maracay (Venezuela) e nas Bermudas.A paragem seguinte seria na ilha de Santa Maria, ponto de passagem obrigatório nos voos que cruzavam o Atlântico, de acordo com o livro “Orfeon Universitario 76 Su Voz Se Sigue”, do professor Eleazar F. Torres, editado em 2018 pela Universidad Central Venezuelana, e que resulta de um trabalho de mais de 15 anos de análise de notícias da altura e entrevistas com os familiares das vítimas.No entanto, o mau tempo, fruto da passagem das tempestades Emmy e Frances pelo arquipélago, tornou impossível a aterragem na pista mariense, tendo surgido, em alternativa, a Base das Lajes, na ilha Terceira, um aeroporto que o comandante da aeronave já conhecia, por ter aterrado lá noutras ocasiões.Mas a Terceira também estava debaixo do mau tempo provocado pelo furacão Emmy, com chuva forte e ventos na ordem dos 35 km/h e rajadas de 120 km/h, de acordo com o Centro de Furacões de Miami: segundo a mesma entidade, quando a aeronave se aproximou, o olho do furacão estava praticamente por cima da ilha Terceira.Após uma tentativa de aterragem fracassada (alguns relatos falam em duas tentativas), devido à visibilidade limitada, o C-130 da Força Aérea Venezuelana faz  uma segunda aproximação à pista, mas a aeronave embate violentamente no solo, a cerca de 1 km da pista, no lugar do Lajedo. Faltavam poucos minutos para as 22 horas.O estrondo sobressaltou os moradores daquela zona, que, juntamente com os bombeiros da Base das Lajes, dirigiram-se para o local, mas sem nada que pudesse ser feito.“Foi uma autêntica tragédia”, conta ao Açoriano Oriental Romeu Costa, 77 anos, antigo comandante dos Bombeiros Voluntários da Praia da Vitória que, há data, com 27 anos de idade, era um “maçarico”dos bombeiros da Base das Lajes.O cenário que encontrou foi desolador: um avião “em cacos”, apenas com a cauda do C-130 reconhecível, alguns focos de incêndio e corpos desfeitos. Havia de passar a noite, mais os colegas, de saco na mão a recolher os restos mortais das 86 almas que seguiam a bordo. “Infelizmente, também houve quem estivesse no local e aproveitasse para saquear o que encontrava”, lamenta.Foi a sua primeira intervenção a sério e foi, também, o momento que mais o marcou. E isto, para alguém que tinha regressado dois anos antes da Guerra do Ultramar e que, 13 anos depois, esteve em Santa Maria no desastre do Independent Air, diz muito.Romeu Costa recorda-se que, apesar do mau tempo, “a aproximação de reconhecimento que o avião fez foi em cheio. Só que, quando deu a volta, algo se passou, porque já não deu com a pista”. Todos que seguiam a bordo faleceram: os 52 estudantes do Orfeón; as esposas de três músicos; um militar, a sua esposa e o seu filho; e os 10 tripulantes. Segundo noticiou então a imprensa venezuelana, oito estudantes do Orfeón falharam o voo por motivos pessoais.Entre as causas do acidente estão as más condições climatéricas, mas o livro de Eleazar F. Torres também aponta a fraca comunicação entre a tripulação e a torre de controlo, a ausência de um radar e de luzes na pista.Contudo, os detalhes oficiais sobre o acidente, são quase inexistentes, reconhece o autor do livro. Em entrevista ao jornal El Nacional, publicada na passada quinta-feira, Eleanor F. Torres afirma que “há um mistério total. Estiveram envolvidos quatro países: a Venezuela, por ser o país de origem; a Espanha, por ser o país que convidou; Portugal, por ser onde ocorreu o acidente; e os Estados Unidos da América, por o acidente ter ocorrido numa base sua. Nenhum dos quatro países oferece um reporte oficial sobre o que aconteceu, pelo que sobram muitas especulações”.A “Tragédia dos Açores” marcou a vida do Orfeón, mas não significou o fim do grupo, que seis meses depois do acidente aéreo reergueu-se, com mais 100 jovens comparecer à chamada.O grupo regressou à Terceira por duas vezes, em 1993 e em 1996, esta última por ocasião de uma série de concertos na Europa e dos 20 anos do desastre. Eleazor F. Torres, então membro do Orfeón, esteve na ilha em 1996 e foi neste momento que decidiu escrever o livro. No local do acidente, foi erigido um monumento à memória das vítimas.Na história dos acidentes aéreos de Portugal, é o terceiro com mais vítimas, atrás do acidente do voo Independent Air 1851, em Santa Maria, e que vitimou 144 pessoas, a 8 de fevereiro de 1989; e do voo da TP 425, da TAP, no Funchal, com 131 mortes e 33 sobreviventes, quase um ano depois da Tragédia dos Açores (19 de novembro de 1977).