A reinvenção do Festival de Verão em tempos de pandemia
Meia de Rock
7 de set. de 2020, 06:07
— Manuel Silva
Nunca nos cansamos de dizer – há festivais com música e festivais com
espírito. Música – melhor ou pior – há em todos os festivais. Um
festival com espírito é sempre mais difícil de encontrar. E o que é o
espírito? O espírito não é mais que um contexto. Um contexto feito de
pequenos pormenores que nos levam a experienciar momentos inesquecíveis
que vão muito para além da música. A música é essencial, sim, mas
funciona como uma liga que nos envolve num espírito de amizade,
comunidade, partilha e amor.Não é segredo que a Maré de Agosto
carrega este espírito e que até tem nome próprio. O Spirrit da Maré é
indissociável de Santa Maria, da Praia Formosa e das gentes marienses. A
tranquilidade transmitida pelo areal de águas cristalinas e a amizade
emanada por qualquer mariense que se preze são fatores chave para tonar
três dias de música numa experiência incrível. Tudo isso, a pandemia
levou.É certo que o contexto atual não nos permite beber uma fresca
no Paquete ou dar um salto ao teste de som durante a tarde, mas a
amizade e a música ninguém nos tira. A Maré fez a sua parte – deu-nos
música, levou-nos ao palco da Praia Formosa e deu-nos conversa diária
com a gente que fez, e faz, a Maré. Cabia a cada um de nós, nas nossas
casas, juntar a amizade e a boa disposição.Mesmo em formato online, a
Maré manteve o compromisso com a cultura e com a música que tanto lhe
caracteriza. Isabel Mesquita, mariense que carrega o seu incrível
“Ilhéu”, os enérgicos Santrofi, Voyagers ou Julian Marley, com o reggae
que lhe vai no sangue, foram alguns dos nomes que subiram ao palco
virtual da maré. Todos estes artistas estavam já contratados para subir a
palco da Praia Formosa em 2020, mas continuam com passagens marcadas
para a edição de 2021 – antevê-se, desde já, uma Maré 2021 memorável.Mais
destemida foi a abordagem do Azores Burning Summer, em São Miguel. Em
meia dúzia de anos, o Azores Burning Summer já conseguiu criar raízes no
Porto Formoso. O contexto de um festival numa pequena localidade, com
praia a dois passos, com uma vertente ecológica e com um alinhamento
musical diferenciado, tornou o Azores Burning Summer num caso sério
entre os festivais açorianos. A organização não abriu mão do seu Porto
Formoso e, apesar de alguma controvérsia na praça pública, optou por
trazer um festival em formato matinée.Durante quatro dias, a Praia
dos Moinhos recebeu música, artistas locais, cinema e muito boa
disposição dividida pelos 150 festivaleiros que a pandemia deixou
estarem presentes. Sara Cruz, Nordela Jazz Convention, PMDS, Tape e
Matti foram alguns dos artistas chamados a palco, numa altura em que os
palcos escasseiam. Concorde-se, mais, ou menos, o Azores Burning Summer
fez questão de manter acesa a chama da esperança num regresso à
normalidade, dando a mão aos artistas e profissionais da arte nestes
tempos de incerteza, sem nunca perder a sua alma e espírito de festival.O
contexto é o que faz um festival ser festival, mas sem festival o
contexto não é contexto. A comunidade que anseia todo o ano por um
evento que traga a música, a amizade e o desenvolvimento local ficou,
este ano, sem chão. Seja a Maré de Agosto, o Azores Burning Summer, o
Monte Verde Festival, o Jardim Fest ou qualquer outro, todos fazem
falta. Para o ano esperamos ter a possibilidade de escolher entre a
panóplia de eventos culturais de qualidade a que já estávamos habituados
– para o bem da nossa saúde mental, mas também para o bem de quem
organiza, de quem monta o palco, de quem ganha a vida da música. Para o
bem de todos.