“A presença da banda dá vida, emoção e identidade às nossas tradições”
27 de out. de 2025, 10:37
— Rui Jorge Cabral
Quando foi fundada a Sociedade Filarmónica Triunfo e o
que fez com que esta banda filarmónica da Ribeira Grande sobrevivesse
para se tornar a mais antiga dos Açores?A sociedade Filarmónica
Triunfo foi fundada a 2 de Fevereiro de 1846, no coração da Ribeira
Grande, e é com muito orgulho que hoje podemos dizer que é a filarmónica
mais antiga dos Açores. O que fez com que resistisse ao tempo foi, sem dúvida, o espírito de entrega e de comunidade, que sempre a acompanhou. Foram
muitas gerações que cresceram aqui, partilhando o gosto pela música e a
vontade de manter viva uma tradição que é de todos. O segredo da
sua sobrevivência está na paixão dos seus músicos, na entrega dos seus
dirigentes e no apoio da população da Ribeira Grande que vê nesta
instituição um verdadeiro símbolo do seu património — apoio esse que se
estende também aos sócios e amigos emigrantes que, mesmo longe,
continuam a acompanhar, valorizar e contribuir para que a Triunfo
permaneça viva.O que significa para si assumir a presidência da Sociedade Filarmónica Triunfo com apenas 23 anos?Assumir a presidência da Filarmónica Triunfo aos 23 anos é, para mim, uma honra e um desafio enorme. Faço
parte desta filarmónica desde 6 de novembro de 2012, precisamente no
ano em que reabriram esta instituição, e foi aqui que construí a minha
história com a música e com esta comunidade. Hoje, liderar esta
instituição com quase dois séculos de existência é uma forma de
retribuir tudo o que aprendi, trazendo uma energia jovem e novas ideias,
mas sempre com respeito pelo legado de quem construiu a Triunfo ao
longo das gerações. Como surgiu em si o gosto pela música e o interesse pelas bandas filarmónicas?O meu gosto pela música e o interesse pelas bandas filarmónicas nasceram de uma ligação familiar muito especial. Quem
me inscreveu na Sociedade Filarmónica Triunfo foi o meu avô materno, já
falecido, que também tinha sido músico nesta mesma banda. Crescer sabendo da sua história e sentir a sua paixão pela música despertou em mim o desejo de seguir os seus passos. Desde
então, a filarmónica tornou-se não só um lugar onde aprendi música, mas
também um espaço onde a memória do meu avô e o legado de tantas
gerações continuam vivos, inspirando-me todos os dias para dar o meu
melhor e honrar a história da Triunfo. Quais são os seus principais
objetivos enquanto presidente da Sociedade Filarmónica Triunfo? Quantos
músicos tem atualmente a banda?Como presidente da Filarmónica
Triunfo o meu principal objetivo é reforçar e valorizar o papel da
filarmónica na nossa comunidade. Pretendo apostar na formação
musical dos nossos jovens, incentivar a entrada de novos elementos, e ao
mesmo tempo, motivar aqueles que já passaram pela nossa instituição a
regressar. O apoio e a colaboração de antigos músicos são fundamentais para o fortalecimento e a continuidade da nossa banda. Queremos
garantir que a tradição filarmónica se mantenha viva e dinâmica,
aumentando a visibilidade da Sociedade através de concertos, eventos e
parcerias que evidenciem o valor cultural e social da nossa música.
Atualmente, a banda conta com um número reduzido de músicos, o que
reflete os desafios enfrentados por muitas filarmónicas. No entanto,
temos um grupo muito dedicado, empenhado e com grande espírito de
união. Acreditamos que, com o apoio de todos - antigos e novos membros -
conseguiremos dar nova força e vitalidade à Sociedade Filarmónica
Triunfo, preservando o seu legado e preparando o futuro com entusiasmo.As bandas filarmónicas estão em risco nos Açores? Quais são as maiores dificuldades que as bandas enfrentam atualmente?Sim, infelizmente as bandas filarmónicas estão a atravessar uma fase difícil nos Açores. Tornou-se
cada vez mais complicado encontrar pessoas que queiram dedicar o seu
tempo e talento a uma banda apenas por gosto e paixão pela música. Hoje
em dia, há uma grande falta de músicos, e muitas bandas veem-se
obrigadas a recorrer a músicos externos remunerados para conseguirem
manter a sua atividade. Esta situação fragiliza o espírito
tradicional das filarmónicas, que sempre se baseou no voluntariado, na
entreajuda e no amor à instituição. Apesar disso, acredito que ainda
é possível inverter esta tendência, apostando na formação de jovens, na
valorização dos músicos e no reforço do sentimento de pertença que
sempre caracterizou as nossas bandas. O que pode ser feito para atrair novamente a juventude para as filarmónicas?Hoje
em dia, muitos jovens têm a ideia de que fazer parte de uma filarmónica
é algo “chato”, especialmente por estar associada às procissões e a
atos religiosos. Infelizmente, é cada vez mais raro ver jovens
interessados nesse tipo de participação. No entanto, o que muitos
não percebem é que esses momentos são precisamente as oportunidades em
que a banda sai à rua e mostra o trabalho que é feito com tanto empenho
dentro das salas de ensaio.O que podemos fazer para atrair os
jovens é mostrar o que realmente é estar numa filarmónica: mais do que
tocar música, é conviver, criar amizades e partilhar momentos únicos. Devemos
também refletir: o que seria de uma procissão sem uma banda
filarmónica? A presença da banda dá vida, emoção e identidade às nossas
tradições.Depois dos ensaios, há sempre tempo para estarmos juntos,
conversar e fortalecer o espírito de grupo — algo que torna esta
experiência ainda mais especial. Fazer parte de uma banda é pertencer a
uma verdadeira família musical que mantém viva uma das tradições mais
bonitas da nossa cultura.A Filarmónica da Matriz sempre foi o som do
nosso coração — acompanhou-nos em festas, procissões e momentos que
guardamos com carinho. Hoje, precisa de nós. Faltam músicos, mas há
muito amor pela música e pela nossa terra. A todos os que já fizeram
parte desta família, deixamos o convite: voltem a pegar no instrumento e
juntem-se novamente a nós. Vamos juntos devolver força e vida à nossa
Filarmónica!
As bandas filarmónicas devem evoluir o seu reportório no sentido de o tornar mais moderno e atraente para um público mais vasto?Sim,
penso que as bandas devem procurar atualizar o seu repertório,
tornando-o mais moderno e apelativo para um público mais amplo, sem
perder a sua essência e identidade. Incluir peças contemporâneas ou
estilos diferentes pode tornar os concertos mais dinâmicos e atrair
novas audiências, incluindo jovens músicos. Ao mesmo tempo, é
essencial manter a ligação à tradição, garantindo que a história e o
património musical da banda continuam presentes. Assim, conseguimos equilibrar inovação e legado, tornando a banda relevante hoje e no futuro. Que desafios se colocam hoje à formação de novos músicos para as bandas filarmónicas?Atualmente, a formação de novos músicos para as bandas filarmónicas enfrenta vários desafios. Um
dos principais é captar o interesse dos jovens, que muitas vezes não
conhecem a riqueza e a experiência de tocar numa banda, tanto a nível
musical como social. Outro desafio importante é a falta de recursos, especialmente financeiros. O
ideal seria que cada banda pudesse oferecer um professor para cada
instrumento, de forma a complementar bem a formação e permitir que todos
os jovens evoluam com qualidade. Investir na formação e mostrar o lado divertido e coletivo da banda é essencial para garantir a continuidade desta tradição.