A preparação por detrás das Festas que movem muitos milhares a Ponta Delgada (Com Fotos)
23 de mai. de 2025, 09:15
— Rafael Dutra
A meras horas de começar as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres
2025, ontem mais de duas dezenas de voluntários trabalhavam arduamente,
no Convento de Nossa Senhora da Esperança, a preparar as flores que
serão utilizadas na decoração do evento, mas também a finalizar outros
detalhes cruciais para as festividades.Apesar da extrema humidade
sentida em Ponta Delgada, que condiciona quem trabalha, os voluntários
inspiram-se nas muitas centenas de flores que os rodeiam, enquanto
fortalecem a sua relação com Deus. É um acto, para muitos, que nada mais
é devolver a gratidão que recebem com base na sua fé e relação com
Santo Cristo.No convento, é possível observar das mais variadas
espécies e cores de flores, que são doadas, que incandescem este
convento e tornam um dia muito nublado, num ambiente mais rico e
colorido.Ao Açoriano Oriental, Paulo Almeida, responsável pela
decoração da Igreja, refere que, este ano, serão utilizados “tons claros
e linhas direitas”, com um foco particular no branco, cor simbólica.
“Vamos optar muito pelo branco também para simbolizar a paz, uma vez que
o mundo está um pouco atribulado”, explana.O florista, que já
colabora com as Festas há cerca de duas décadas, salienta que é “sempre
um gosto” poder colaborar, e que é também uma maneira de “dar graças a
Deus”, porque recebeu “este dom de trabalhar com as flores”, frisou.Paulo
Moura, que assumiu a responsabilidade da ornamentação do coro baixo,
explica que a decoração este ano foi inspirada numa parte do Jubileu da
Esperança: as ondas do mar.Isto porque, prossegue, a explicação que
a Igreja dá à existência das ondas no símbolo do Jubileu da Esperança é
que a vida é feita de altos e baixos.“Então pensámos em fazer um
coro baixo que fosse a representação das próprias ondas e a
representação das nossas vidas”, afirmou, adiantando que as ondas irão
afastar-se em direção às paredes, “quase como se o Senhor abrisse os
caminhos no meio das tempestades e nos guiasse pelo melhor caminho para
nós seguirmos”, justificou.Para além da importância do mar, será dada, novamente, importância à cor branca.“Iremos
utilizar no coro baixo muita cor branca quase como um apelo silencioso à
paz, que é isso que todos os cristãos pretendem que haja no mundo.
Independentemente da religião, das ideologias de cada um, acho que a
promoção da paz deve ser algo universal, que todos os cristãos e todos
os seres humanos devem pretender alcançar no futuro em tempos tão
incertos como os de hoje em dia”, defendeu Paulo Moura, em declarações
ao Açoriano Oriental.Toda esta decoração é feita pelos voluntários,
alguns que repetem este ato todos anos, mas alguns que o fazem pela
primeira vez, como Elisabete Melo, que não é estranha a dar o seu
contributo às Festas, uma vez que ajuda a vestir os anjinhos que vão na
procissão.No entanto, recebeu o convite para ajudar com as flores,
que prontamente aceitou. “Estou aqui para dar o meu contributo no que
eu puder fazer. Não sou florista, não tenho muito jeito para arranjos,
mas o que me ensinaram a fazer, eu vou fazendo”, apontou.Por seu
lado, Estrela Neves, depois de ter cumprido o seu desejo em ajudar, no
ano passado, voltou porque adorou a experiência e a oportunidade por se
sentir mais aproximada e poder “conversar com Ele”.Visivelmente
emocionada, só de falar neste assunto, a açoriana natural de Santa Clara
admite que enquanto puder irá sempre se voluntariar: “É a nossa dádiva e
o agradecimento pelo bem que nos acontece”, realçou.Para a também
voluntária, Sandra Vieira, a sua vinda foi motivada com base numa
vontade de “sentir mais de perto o Senhor” e “agradecer mais um ano de
vida”.Embora tenha decidido vir com uma amiga, que por ter sido
operada, não pôde vir, Sandra Vieira diz que é com “imensa alegria” que
veio colaborar com os restantes voluntários na preparação das Festas.“Para
mim o Santo Cristo é o meu primeiro devoto e protetor. Infelizmente
fiquei doente no dia Dele, pedi a Ele mais dez anos de vida e o Senhor
deu-me mais cinco além dos dez. É sinal que mereço, por isso tudo o que
faço é por Ele”, assinalou.Para fazer este trabalho, as voluntárias
dependem das doações, que chegam consistentemente, quer de pessoas,
grupos ou até instituições, sendo que segundo Paulo Almeida, há cada vez
mais doações.Carregando dois ramos de flores na mão e acompanhado
pela sua companheira, Vítor Melo relata que faz este tipo de doação há
cerca de cinco anos. “Costumo doar porque tenho muita fé no Senhor Santo Cristo dos Milagres”, confessa.Já
Dina Raposo, que também deslocou-se ao Convento de Nossa Senhora da
Esperança, pela primeira vez, para deixar flores, destaca que fê-lo por
“vontade” e “gratidão”, e que também espera que o seu contributo torne
este dia mais bonito.Por sua vez, Margarida Rocha, que vem há quatro
anos, conta que gosta de oferecer flores e que este tipo de oferta é
algo que efetua “a qualquer pessoa”.Nesse sentido, sublinha que, de
modo geral, é uma oferta que para si é “um símbolo de amizade”, que
neste caso representa a sua ligação com Cristo.2025 será um ano especial para os anjinhos açorianosEste
ano irão participar 43 ‘anjinhos’ na procissão de domingo das Festas do
Senhor Santo Cristo dos Milagres que percorre as ruas da cidade. Porém,
este ano há algo que nunca aconteceu, isto porque, pela primeira vez, o
cortejo contará com a anjinho que é menino.Quem o indica é Odália
Silva, que este ano está responsável pelos anjinhos, e que tem estado a
gerir este processo “desde fevereiro”, momento em que começou a
contactar as mães destas crianças acerca da sua participação na
procissão.Embora haja muitas crianças que estão a repetir a
participação no cortejo, existem, de igual modo, “novas crianças, de
várias freguesias”, informa.Muitos dos trajes que irão vestir já são
antigos, mas há outros novos “que foram feitos e outros que foram
doados”, continua Odália Silva, acrescentando que os objetos
característicos que os anjinhos levam são da própria Igreja.Levam
consigo os próprios símbolos do Senhor Santo Cristo: “o dado, o cetro, a
capinha, a veste, a acorda”, por exemplo, enumera a responsável.Este
ano, há uma novidade, porque um menino irá vestido de anjo. A sua irmã
também vai, e depois do mesmo questionar se também podia ir, foi
prontamente aceite. “Acho que não temos de distinguir meninos de
meninas, os anjos também são rapazes”, assegurou Odália.Embora seja
comum serem os mais pequenos a vestirem-se de anjinhos, este ano variam
entre os quatro e os 17 anos. Não obstante, nem todos terão asas, porque
o número é insuficiente para acomodar todos.