Helena de Castro fez carreira na Alemanha e em palcos nacionais, mas é aos Açores que regressa para romper a ideia de que “o que vem de fora é melhor”, criando projetos como a Coda e produzindo óperas com músicos açorianos, numa aposta assumida na descentralização cultural e na formação de novos públicos através da educação artística.Natural da freguesia do Rosário, na Lagoa, Helena de Castro leva a música colada à memória da infância. Cresceu entre ensaios de folclore, acompanhando a mãe no grupo folclórico Grujola, onde fez o primeiro solo em público, ainda criança. Em casa, cantar era natural: “não há loiça que se lave sem uma melodia a acompanhar”, recorda, explicando como, a dada altura, já harmonizava a várias vozes com a mãe e os três irmãos.Os pais alimentaram cedo essa tendência, ao ponto de o pai lhe construir um baloiço no quintal, um pequeno refúgio onde passava tardes a brincar e a cantar. Um teclado oferecido pelo Pai Natal e as primeiras aulas de órgão com a professora Cidália André, na Lagoa, consolidaram esse percurso natural, antes da entrada no conservatório.Helena de Castro chegou ao Conservatório para estudar piano, acumulando formação musical com o Liceu, mas foi nas aulas teóricas que o canto se impôs. Nunca chegou a integrar o coro do Conservatório – a referência que tinha era o coro de capela da igreja –, mas cantava nas aulas de formação musical e foi num exame de 5.º grau, ao interpretar de rompante uma ária antiga de Scarlatti que Ana Paula Andrade fez a pergunta decisiva: “porque é que não vais para canto?”.O verdadeiro salto deu-se já na Universidade dos Açores, enquanto estudante de Relações Públicas e Comunicação. Sobrecarregada, sem tempo para preparar o exigente exame de 8.º grau de piano, decidiu anular a matrícula em piano, mas a professora Ana Paula Andrade desafiou-a a iniciar um primeiro grau de canto, sublinhando que poderia estudar no autocarro, a trabalhar respiração e técnica sem depender de um instrumento. A partir daí, o piano ficou sobretudo como ferramenta de trabalho, e o canto passou a ser o centro.Apesar de ter quase concluído o curso na Universidade dos Açores, o momento de viragem chega com a vinda aos Açores da ópera “L’elisir d’amore”, pelo Teatro Nacional de São Carlos, em 2007. Helena de Castro, que fazia teatro na Máquina do Tempo, foi selecionada como figurante e saiu da experiência com a certeza: “é mesmo isso que eu quero fazer”.Seguiu-se a Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo, no Porto, com o professor Oliveira Lopes, e depois a partida “obrigatória” para a Alemanha, aconselhada pelo próprio mestre. Em Hamburgo, apesar de ter chegado quando a professora recomendada já se reformara, encontrou em Carolyn-Grace James – recém-saída do Metropolitan Opera House – a mentora que a formou tecnicamente durante a licenciatura e o mestrado em ópera.Helena de Castro insiste numa ideia-chave: ópera é teatro cantado. “A ópera é mãe dos musicais, não é cantar uma canção, é uma peça de teatro cantada sem microfones e tocada como orquestra”, afirma, explicando que obriga a uma técnica para projetar a voz sobre dezenas de músicos e até ao fundo da sala. Daí a importância da interpretação cénica, do saber mover-se, correr, dançar e manter a linha vocal, área em que destaca o trabalho com o encenador Florian Leibrecht e que hoje considera essencial transmitir a outros.Depois de concluir a formação na Alemanha, Helena de Castro integrou o Teatro de Bremerhaven, mas entretanto percebeu as fragilidades de uma carreira construída à custa de contratos de dois anos, com a perspetiva de andar permanentemente de cidade em cidade, cenário difícil de compatibilizar com o desejo de construir família.Foi um concurso nacional de canto lírico, ligado à Fundação Rotária Portuguesa, que lhe deu a bolsa necessária para regressar a Portugal e iniciar um doutoramento em Aveiro. Ao mesmo tempo, abriu-se a porta do regresso aos Açores com um propósito claro: mostrar que os músicos açorianos têm lugar em palco, em casa. A “La serva padrona”, de Pergolesi, apresentada no Teatro Micaelense em 2012, com uma equipa de apenas oito profissionais – todos açorianos, residentes ou a estudar fora –, marcou esse ponto de viragem.A partir daí, a Sinfonietta assumiu as rédeas, sucedendo-se títulos como “Rita” (2015), “Don Pasquale” (2017) e “Don Giovanni” (2018) , abrindo um ciclo em que a ópera passou a existir com regularidade na ilha. Em 2022, num só ano, São Miguel contou com quatro produções de ópera – “La Traviata”, “Orfeo ed Euridice”, “Dido and Aeneas” e “Hänsel und Gretel” – algo que Helena de Castro contrapõe à realidade de quase todas as outras regiões do país, para lá de Lisboa. Nessa dinâmica, vê o efeito dominó do primeiro passo dado com “La serva padrona”: “sinto que aquela ‘Serva Padrona’ foi o pontapé de saída”.Este compromisso com a descentralização cultural nos Açores concretiza-se de forma ainda mais evidente com a criação da Coda – Companhia de Ópera dos Açores. Helena de Castro juntou alguns colegas, integrou o projeto numa associação já existente e começou a levar a ópera a públicos que raramente tinham contacto com o género. Um dos marcos foi a produção de “Hänsel und Gretel”, a “Casinha de Chocolate”, pensada para crianças, que incluiu apresentações em escolas e trabalho direto com alunos, ensinando-lhes pequenas árias da ópera.Depois de ter deixado o Estúdio de Ópera de Ponta Delgada para procurar mais palco no continente, onde hoje trabalha com a companhia Setúbal Voz e mantém atividade docente, Helena de Castro está a reestruturar a Coda para a transformar numa associação própria, com autonomia e continuidade.