“A música é a arte de excelência para cativar as crianças”

26 de jan. de 2025, 09:00 — Susete Rodrigues

Ensinar é muito importante para si e o que mais gosta é que lhe chamem “professora”. Por isso, Ana Paula Andrade diz que “mais do que privilegiada, sinto-me uma pessoa abençoada por tudo aquilo que tenho tido, por todas as experiências e oportunidades”. Professora de piano e análise e técnicas de composição no Conservatório Regional de Ponta Delgada, Ana Paula Andrade tem muitas recordações da sua infância, vivida intensamente: “Somos quatro irmãos e temos seis primos do lado materno, sempre nos demos muito bem e sempre vivemos muito em conjunto no verão. Íamos para a casa deles e eles para a nossa. Éramos 10 sempre a fazer folia e a conviver, com muitas brincadeiras, com muita praia”, conta para recordar as idas para os Fenais da Ajuda, onde andavam “pelos pastos, andávamos a cavalo, tirávamos leite às vacas. Essas coisas da natureza que são tão bonitas, que nos ajudam tanto a crescer e que fazem de nós pessoas diferentes, mais ricas em termos de aproveitar aquilo que nós temos”.O gosto pela música vem de casa. A mãe foi aluna da Academia Musical de Ponta Delgada e a “minha avó tinha tocado piano. Havia um piano lá em casa. O meu pai gostava muito de me levar aos concertos da Academia Musical, eram concertos fantásticos, com belíssimos músicos que passavam por aqui na altura. Eles (pai e a mãe) eram do grupo coral da Igreja da Matriz (Ponta Delgada) e sempre frequentei os ensaios do coro. Aliás, sou organista oficial da Matriz há mais de 50 anos”. No entanto, “pelo que a minha mãe conta - não me lembro muito bem – ela queria que eu entrasse no Conservatório desde cedo e eu dizia-lhe que não. Sempre fui um bocadinho reticente, mas aos nove anos, eu própria é que disse: ‘Agora está na altura. Eu é que quero ir para o Conservatório’”.No Conservatório Regional de Ponta Delgada teve a sorte ter “belíssimos professores, nomeadamente a D. Natália Silva que foi a minha professora de piano e de iniciação musical. Foi ela que me acompanhou durante todo o meu percurso enquanto aluna do Conservatório”. Confessa que quando começou no Conservatório “sempre senti que era isso que eu queria fazer. Gostava muito das outras disciplinas, mas a música sempre falou mais alto. Sempre me lembro, em toda a minha juventude, de pensar que a música é que ia ser a minha vida profissional”. Depois de ter concluído o 12º ano e as disciplinas do curso suplementar do Conservatório, para prosseguir os estudos superiores de música, Ana Paula Andrade teve de ir para Lisboa, onde ingressou no Conservatório Nacional. Conta-nos que “não era muito fácil ir estudar fora e muito menos uma rapariga ir para um curso de música. Não eram muitas as que iam nessa altura - estamos a falar do início dos anos 80”, acrescentando que “os meus pais, apesar de não terem muitas possibilidades económicas para isso, sempre me apoiaram imenso. Também tive a sorte de chegar lá e ter sempre trabalho, de conseguir sustentar-me enquanto estudava”. Em Lisboa, Ana Paula Andrade fez o curso superior de piano e o curso superior de composição. Refere que foram dois cursos “importantíssimos para mim. Tive formação em órgão de tubos, frequentei o Instituto Gregoriano de Lisboa e fiz uma formação a nível do canto gregoriano. Portanto, foram cinco anos de uma experiência riquíssima que confirmaram que a música era realmente o que eu queria fazer”. Ainda em Lisboa, deu aulas num colégio, esteve ligada à escola de música da Valentim de Carvalho, foi pianista acompanhadora da Companhia Nacional de Bailado, “o que foi uma experiência rica por ter trabalhado com aqueles grandes nomes da dança, do teatro, do bailado”. Porém, apesar de todos estes momentos muito bons, Ana Paula Andrade sempre teve presente voltar para São Miguel. “Na verdade sou muito ligada à ilha, sou muito ligada à família, porque gosto muito da nossa terra”, disse para sublinhar que “sabia que era muito importante sermos nós a dar continuidade ao Conservatório enquanto nossa grande escola de música”. Regressa em 1988 e diz que teve a sorte de chegar cá, “numa altura em que havia falta de professores e comecei logo a trabalhar, dois anos depois já estava no quadro do Conservatório”, local onde permanece nos dias de hoje e “é muito bom”.Defende que as crianças deviam ter atividades musicais e outras áreas artísticas no pré-escolar porque quanto mais experiências “lhe dermos melhor. Para mim a música é a arte de excelência para cativar as crianças”. Dá como exemplo os seus alunos da escola dos Milagres, nos Arrifes, “nem imagina o prazer que me dá chegar lá à escola e ver os meninos e as meninas virem a correr, dar-me um abraço e dizerem ‘olha a professora de música’. Para eles, eu sou a referência da música e fico muito feliz por isso”, conta-nos, para acrescentar que “eles veem-me como aquela pessoa que lhes vai dar uma coisa que eles precisam. Naquele momento em que estamos a fazer música, a cantar, a dançar, são momentos felizes para eles e sentem que é um complemento da formação deles”.Pelo Conservatório já passou um grande número de alunos “muito talentosos, com muito gosto pela música, e muitos deles já têm bem definido que querem seguir a via profissional”, mas também existem alunos que sentem-se, “às vezes, um pouco perdidos”, disse Ana Paula Andrade, para explicar que “isso não tem a ver com a música, penso que tem a ver com um problema da sociedade em geral em que os miúdos estão, cada vez mais, dispersos com as várias solicitações. Isso também acontece no ensino regular. A tecnologia até pode ajudar na música, mas a arte, sem dúvida, não tem nada a ver com a questão tecnológica, tem de ser vivida muito intensamente com o coração”. Refere que todos os anos saem “quatro ou cinco alunos nossos que vão para o ensino superior e temos muitos antigos alunos, espalhados um pouco por todo o mundo a fazer carreira musical, e isso deixa-nos muito orgulhosos ”.De todas as atuações que já fez destaca a primeira experiência que teve a tocar com uma orquestra. “Penso que foi em outubro de 1989, na Universidade de Massachusetts. Quem tinha sido convidada para tocar nesse concerto era a Margarida Magalhães - que já se sentia um pouco cansada e então convidou-me para substitui-la - claro que fiquei contentíssima com essa oportunidade”. Houve outros “momentos muito interessantes e muito importantes, como por exemplo, quando fomos a Macau com um grupo da lusofonia (…). Poder ‘beber’ daquelas raízes da música oriental e também partilhar a nossa música, foi muito interessante. Outro momento foi na Expo98 em Lisboa, em que fui convidada para fazer um concerto no Dia dos Açores com a soprano Eulália Mendes. Em 2017 quando fiz o concerto a solo a convite do Teatro Micaelense”. Um outro projeto que “também gostei imenso de fazer e completamente diferente, foi rock sinfónico com o Luís Bettencourt, nos anos 80, altura em que ele gravou o seu disco ‘Empty Space’”.Já publicou dois livros de canções infantis e “gostaria de fazer uma coleção, porque sinto que foram muito bem recebidos, especialmente por parte dos professores. Aliás, o meu objetivo era que fosse um projeto didático e de ajuda aos professores. Tenho, pelo menos mais três livros já preparados. Tenho também algumas peças escritas de uma forma mais erudita para alguns grupos instrumentais e gostaria muito de publicá-las”.