A música açoriana tem um novo nome a recordar: Carmen Raposo
meia de Rock
4 de abr. de 2022, 11:13
— João Cordeiro
Nasceste e cresceste num período de grande atividade e criatividade
de nomes incontornáveis da música açoriana de autor. Um destes músicos
de referência é o teu pai, Aníbal Raposo. Que memórias guardas deste
tempo e que influência têm na tua música?É verdade. Ainda não era nascida quando o meu pai regressou aos Açores
em 1978, fundando, juntamente com outros músicos, como o Luís Alberto
Bettencourt e o Zeca Medeiros, vários grupos inspirados no cancioneiro
das ilhas e que até hoje são uma referência no
panorama musical açoriano, como os Construção, Rimanço, Albatroz e Ala
Bote. Tinha precisamente um ano de idade quando os Rimanço alcançaram o
segundo lugar com o tema “Vapor da Madrugada” no Festival da Canção da
RTP. Portanto, ouvir música açoriana sempre
foi muito natural para mim, pois ouvia-a por todo lado: em casa, nas
viagens de carro, nos concertos a que assistia. Ao longo do tempo, fui
naturalmente ganhando consciência da riqueza deste património e gosto
pessoal por ele. Os álbuns “7 anos de música” (1992)
e “25 anos de música original dos Açores” (2010) são duas grandes
referências para mim. Não sei as letras das músicas todas de cor, mas
posso garantir que sei as melodias! Adoro-as. Além das músicas do meu
pai, claro. Ele sempre gostou de partilhar comigo e
com a minha irmã as suas músicas e ainda hoje pede-nos opinião, o que me
deixa muito feliz.
Ao longo da minha adolescência e vida adulta ouvi e ouço música muito
diversa. Também cresci ao som da música clássica, do jazz, do rock, da
música portuguesa, brasileira, por aí fora… Felizmente, sempre de
qualidade. Penso que a minha música reflete esse ecletismo,
pelo que tenho muita dificuldade em defini-la. Mas acho que é óbvia a
influência matriz, a música tradicional e popular açoriana e portuguesa.
As tuas três primeiras canções originais, disponíveis online,
refletem esta influência e têm referências que parecem tão açorianas,
como o tempo, a saudade, o clima, e até um assunto tão atual como o
facto de vivermos sempre na iminência de um tremor de
terra. Como é que foi o percurso destas canções até chegarem ao público?Comecei a compor este conjunto de canções que estou a gravar na
primavera de 2021. (...) Na verdade, tomei consciência há bem pouco
tempo que, desde que regressei de Lisboa, estou a querer estar ligada à
música e a tentar perceber onde me encaixo e sou mais
feliz. Sempre me “caíram” melodias na cabeça, mas quando saí do
Conservatório, afastei-me abruptamente do piano. O meu regresso a ele em
2021, deu-se de uma forma muito natural, pois era a maneira que tinha
de poder exteriorizar as minhas músicas. E então elas
foram saindo de forma espontânea. Não tinha em mente iniciar um projeto a
solo, muito menos gravá-lo. Mas à medida que fui compondo e fui
mostrando as músicas à minha família e amigos mais próximos, fui
recebendo um feedback positivo, o que me incentivou a
tentar fazer mais e melhor. No final do verão, como já tinha alguns
temas, decidi começar a gravá-los com a ajuda do Mário Raposo, um músico
e produtor excecional, que tem sido responsável por toda a orquestração
e produção deste projeto. Tenho contado também
com a participação de alguns músicos como a Ana Cláudia, o Raul Damásio,
o Álvaro Pimentel, o Paulo Andrade e o meu pai.
Como referiste, lancei três temas até ao momento: O “Abalo”, “A Espera” e
o “Ensaio sobre o Tempo” e os mesmos têm de facto referências a aspetos
da nossa “açorianidade”. Estes aspetos fazem parte da minha – da nossa –
realidade, pelo que me ajudam a enquadrar
as histórias que conto nas minhas músicas, utilizando muitas vezes
metáforas. É um projeto autobiográfico, mas bastante aberto ao mesmo
tempo.
Além das referências açorianas de que já aqui falamos, que outros artistas prendem a tua atenção?Gosto de acompanhar o que se vai fazendo por cá, não só por parte da
geração de cantautores de que já falámos, mas também da nova geração.
Penso que temos artistas a solo e projetos musicais com muita qualidade
na nossa região e que merecem toda a nossa atenção.
Custa-me falar em nomes, pois são de facto muitos! Não gosto de deixar
ninguém de fora. A nível do continente, também acompanho diversos
artistas já com cartas dadas, mas tenho estado também atenta a novos
lançamentos, como Rita Vian, A garota não, Bruno Pernadas,
Luís Severo, Valter Lobo, Filho da Mãe, etc. A nível internacional, se
só pudesse eleger um artista, seria o Benjamin Clementine, que me deixou
em lágrimas no nosso Teatro Micaelense, perante a dimensão invulgar do
seu talento.
Percebi pelas tuas redes sociais que estás a compor novos temas. Qual é o percurso que estás a preparar para os próximos tempos?Sim, já estou a trabalhar em novos temas, mas não posso dizer que tenha
um plano muito definido. Iniciei este projeto apenas com o objetivo de
me divertir. Tudo o que vier a partir daí, virá por acréscimo. Tenho
mais algumas músicas já criadas, mas não sei
ainda se elas irão dar origem a um EP ou a um CD digital. Dependerá do
resultado das gravações e da composição de novos temas. Infelizmente
gostaria de ter mais tempo para dedicar à música. Aguardo ansiosamente o
verão para me poder dedicar totalmente!
Quando é que te vamos poder ver ao vivo?Espero que brevemente. Neste momento ainda estou numa fase de produção
musical e de gravação. Quando sentir que já tenho um conjunto alargado e
consolidado de músicas, aí sim, pensarei em concertos. Ainda não tenho
banda, mas já tenho os elementos em mente.
Eles é que ainda não sabem! Quero dar um passo de cada vez, sem pressas,
pois o objetivo é mesmo o de gozar o processo e ser feliz a fazer
música.