“A minha intenção sempre foi regressar à nossa terra”

30 de nov. de 2025, 09:00 — Susete Rodrigues

Foi na Lomba do Loução, concelho da Povoação, de onde é natural, que Carlos Sousa iniciou os seus estudos musicais, concretamente na Filarmónica União e Amizade. Conta-nos que, desde muito cedo, teve uma ligação forte com a filarmónica e ia “atrás da filarmónica, nas ‘domingas’. Comecei a aprender música aos 7 anos”. Refere que nunca fui “aquele filho de trabalhar a terra, era mais ligado à parte da cultura e estive num grupo de teatro”. Recorda que o pai “tinha um terreno na costa, entre a Vila da Povoação e o Faial da Terra, e ia com o meu pai ajudá-lo, mas nunca tive muito jeito para aquele tipo de coisas. O meu irmão, sim, era mais virado para esse tipo de coisas”.Durante a sua adolescência esteve na Academia de Música da Povoação onde aprendeu a tocar trombone. “Também tive aulas de direção. As minhas primeiras aulas de direção de banda foi na Academia, com Cris Alexander”, lembra.Estudou até ao 12.º ano na Povoação. Depois veio para o Exército, e foi nessa altura que decidiu fazer uma licenciatura em Ensino de Educação Musical. Foram tempos muitos felizes os que passou no Exército e que o levaram à Madeira. Antes de nos contar a sua experiência no arquipélago vizinho, Carlos Sousa enaltece a consideração e respeito que tem pelo Exército: “Ainda hoje tenho um apreço enorme pelo Exército”. “Gosto muito do que faço, sou professor de música no ensino regular, 3.º ciclo, mas tenho pena de não ter continuado no Exército, que sempre foi a minha paixão. Gosto muito da parte militar, e associar isto à música é perfeito”. Aprendeu “muito com os sargentos. Penso que as nossas filarmónicas evoluíram muito com o Exército. (…) Foram esses sargentos “que começaram a incutir nas filarmónicas outras formas de pensar, outras formas de trabalhar, outros tipos de reportório”. Por outro lado, o Exército foi “uma escola que me moldou e tornou na pessoa que sou hoje. Devo muito ao Exército e à Banda Militar, quer dos Açores, quer da Madeira, porque também fiz parte da Banda Militar da Madeira”. Conta que quando ainda estava no Exército, pediu transferência para a Banda Militar da Madeira e fez a licenciatura lá.Confessa-nos que a sua passagem pela Madeira, trouxe-lhe algo bom e também algo mau. O bom, diz que foi ter conhecido “outra realidade filarmónica que não tem nada a ver com a nossa. Apesar do Conservatório da Madeira formar excelentes músicos, as filarmónicas são mais reduzidas e encaram o serviço de uma forma diferente de nós. Não estou a dizer que está bem ou mal, é a forma deles” - “dirigi a Banda Paroquial de São Lourenço, da Camacha e fiz muitos amigos, ainda hoje mantenho contacto com eles”. A parte má, foi que teve um acidente grave: “Estava com a ideia de acabar a licenciatura e fazer o curso de sargento, mas fui atropelado e estive três anos praticamente de canadianas. Depois passou a idade de ingressar no curso e fui para o Porto tirar o Mestrado”. No Porto, colaborou com algumas filarmónicas do Norte, o que também foi uma experiência “enriquecedora e diferenciada daquilo que fazemos cá”.Revela que a sua intenção “sempre foi de regressar à nossa terra e dar aulas. Gosto muito disto aqui. Também gostei das experiências lá fora, mas a nossa terra é sempre a nossa terra. São opções. (…) Isso aqui é o suficiente para mim”.Começou por dar aulas na escola de Rabo de Peixe e é dos quadros da escola do Nordeste. Atualmente regressou a Rabo de Peixe. Diz que “foi a distância que me fez ficar mais perto de casa, mais perto da minha filha, que é preciso levar à escola e ao Conservatório, e todas aquelas tarefas diárias que ela tem de cumprir. Sinto a necessidade de estar mais perto para dar o contributo que a família precisa”. Adoro trabalhar na escola de Rabo de Peixe, “tenho excelentes alunos, consigo fazer um bom trabalho com eles. Penso que nas aulas de música eles conseguem esquecer todos os problemas que trazem de fora”.Como maestro, Carlos Sousa começou aos 18 anos, na Sociedade Musical Sagrada Coração de Jesus do Faial da Terra. “Estive lá 10 anos, fui muito feliz, e foi um caminho de evolução bastante grande”. Nessa ocasião teve “um contacto da Lira Açoriana, um projeto que me agradou muito e que me ensinou muito, principalmente porque desenvolvi e conheci pessoas fantásticas”. “Foi a primeira vez que trabalhei numa grande orquestra com 100 músicos. Com o maestro António Melo aprendi muito. Um homem com muita experiência que conseguia ter na mão 100 pessoas. Ele falava no ensaio e ninguém abria a boca (…). Ele e o meu professor Carlos Gonçalves, da Madeira, uma pessoa que estimo muito, são os maiores exemplos que tenho na vida, onde fui copiar algumas experiências de líder”.O maestro passou também pela Fundação Brasileira dos Mosteiros e pela Filarmónica Aliança dos Prazeres, do Pico da Pedra. Atualmente “estou a dirigir a Banda Harmonia Mosteirense, onde tenho desenvolvido muitos projetos, nomeadamente a tocar com artistas de renome, e trabalhar com uma pessoa que estimo muito que é o Délio Gonçalves ”. É igualmente maestro da Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação e responsável pela Caravela d’Ouro - Gala Regional de Pequenos Cantores, projeto de que gosta muito.Questionado sobre como se sente ao pisar um palco, o maestro começa por referir que “é difícil de explicar... A sensação que tenho ao pisar um palco com a Harmonia Mosteirense é a mesma que tinha quando pisava um palco com a banda Faial da Terra”. Ou seja, “tudo aquilo que tentei ensinar à banda tem o mesmo valor. Não vamos para o palco sem saber que aquilo está em condições de ser apresentado. Mesmo que haja uma nota falhada - que acontece em todos os concertos - sei que aqueles músicos, a troco zero, deram o máximo para que o concerto acontecesse. Vou muito descansado para o palco”, disse. Situações caricatas acontecem a qualquer um. Desafiamos o maestro a contar-nos uma: “Uma vez, fizemos (Harmonia Mosteirense) um concerto com o José Cid e a meio do concerto ele decidiu mudar a tonalidade de algumas canções e foi uma aventura do princípio ao fim. Tive que segurar a banda e puxar a banda para ele. Foi mesmo dos episódios mais caricatos que tive. Contudo, a banda esteve muito bem. Não é fácil aguentar uma banda de 70 músicos em cima do palco e, sem mais nem menos, com 4 compassos de antecedência, fazer sinal. As pessoas gostaram muito, apesar de termos saído do palco com a sensação de que foi terrível. Mas não. A banda esteve bem”.Diz que os maiores desafios de um maestro é “cativar o músico para trabalhar, porque, às vezes, temos músicos no ensaio que têm a sua vida e estão cansados. Temos que manter-lhes com atenção do princípio ao fim, e fazer com que, no final, sintam que valeu a pena ir ao ensaio. Tem corrido bem até hoje (...)”.Pessoa realizada e feliz, adianta que o seu maior sonho é “continuar a trabalhar com uma filarmónica. É poder dar o meu máximo e evoluir. Penso que isso consegue-se comprovar. Todas as filarmónicas em que estive, fiz com que elas evoluíssem um pouco. Portanto, é continuar a fazer isso e a dar aulas também”.