A liberdade e a tristeza juntam-se no memorial de Nova Iorque
11 de Setembro
9 de set. de 2021, 18:00
— Elena Lentza, da agência Lusa
No
ritmo apressado de Nova Iorque, o memorial do 11 de Setembro é um sítio
calmo, de passo lento e de reflexão. O som das quedas de água torna o
ambiente mais pesado e introspetivo, onde muitos visitantes lembram as
suas próprias experiências de vida e momentos em que sentiram os seus
valores ameaçados.A tristeza pelo número excessivo de vidas acabadas é um sentimento que pesa sobre todos os que passam pelo parque do memorial.“É
muito triste saber que muitas pessoas perderam a vida só porque, por
acaso, estavam aqui, e só por serem americanos. Coisas assim não deviam
acontecer em lado nenhum do mundo”, sublinhou Anna Mel, à agência Lusa.Duas
piscinas, em buracos de nove metros de profundidade abaixo do solo,
foram construídas no lugar das duas Torres Gémeas, que só terminavam a
415 metros acima do solo e que foram destruídas no atentado terrorista.Dentro
das piscinas existem as maiores cascatas artificiais do país, que
ostentam painéis com o nome de 2.977 pessoas mortas nos ataques
terroristas perpetrados nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001.Para
Anna Mel, que vive em Nova Iorque e trouxe quatro crianças ao memorial,
mais do que o aspeto, o que importa é o que se está a representar, que,
na sua interpretação, são as “vidas perdidas e a importância da
liberdade”.“Estava
a ler alguns dos nomes e a imaginar que tipo de vida teriam tido e nas
famílias. É, na verdade, um sítio muito triste de estar”, partilhou.Por
outro lado, acrescentou a emigrante da Albânia, o memorial é o sítio
certo para “apreciar a liberdade”, que “não se pode tomar por
garantida”.Nascida
e crescida na Albânia, Anna Mel disse que o regime comunista perseguiu e
executou vários membros da sua família. “Eu mesma experienciei um certo
nível de perseguição por não ser parte de uma certa ideologia”,
acrescentou.“Sei
que [o 11 de Setembro] não tem nada a ver com comunismo, mas tem muito a
ver com liberdade. Valorizamos de verdade que este seja um país de
liberdade e esperamos que assim continue”, declarou a mãe das quatro
crianças que aproveitam o passeio pelo Memorial para brincar e se
divertir.Mary
Reid, de 82 anos, mãe de uma paramédica fo departamento de bombeiros de
outra cidade, expressou à Lusa a sua pena e tristeza pelas pessoas que
morreram no atentado: “Rezamos pelas pessoas que perdemos, pelos pais
que não mais existem e pelas crianças que ficaram órfãs”.Lara
Moffat, que vive em Dallas, no Texas, admitiu estar um pouco desiludida
com a sua primeira visita ao “Ground Zero” em Nova Iorque, por não ter
sentido nenhum rasgo de “inspiração”.Arquiteta
paisagista de profissão, Lara Moffat pensava que a experiência seria
semelhante à primeira vez que viajou à cidade de Washington e viu o
memorial dedicado ao 11 de Setembro, mas em Nova Iorque a sensação ficou
perdida na grande “escala” e dimensão que se deu ao monumento.Ainda
assim, afirmou que se trata de um “espaço lindamente desenhado e bem
executado” e que a faz pensar no dia fatídico, 11 de setembro de 2001,
em que “não podia acreditar” no que estava a ser divulgado na televisão.“É
como se o mundo tivesse parado naquele dia. Eu vivia perto de um
aeroporto e não havia aviões, ninguém tinha a certeza do que ia
acontecer”, revelou Lara Moffat à Lusa.“Íamos
para a guerra?” – esta era uma das interrogações que estava na mente
dos norte-americanos naquele dia, lembrou ainda Lara Moffat.Passadas
duas décadas, é impossível falar do “Ground Zero” sem se fazer uma
correlação com a guerra lançada pelos EUA contra a organização
terrorista Al-Qaida, que tinha base no Afeganistão.Uma
das opiniões mais apoiadas é a de que os EUA passaram demasiados anos a
lutar sem sentido no Afeganistão antes da retirada das forças militares
norte-americanas do país, no final de agosto por decisão do atual
Presidente, Joe Biden.A
retirada das tropas pôs fim a uma guerra de 20 anos desencadeada pela
intervenção de uma coligação internacional liderada pelos Estados Unidos
para expulsar os talibãs no poder, na sequência dos ataques de 11 de
Setembro em solo norte-americano.Lara Moffat considerou que os Estados Unidos não tiveram uma boa saída da situação. “Não
sinto que tenhamos feito muito progresso. Da perspetiva dos direitos
humanos, acho que se gastou demasiado dinheiro para lutar numa guerra
para a qual não houve boa solução e tenho muita pena das mulheres no
Afeganistão”, concluiu.