“A Igreja tem um papel profético: não tem exércitos, mas tem armas espirituais”
Hoje 10:39
— Ana Carvalho Melo
O culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres é uma das mais expressivas manifestações de fé do povo açoriano. Como é regressar aos Açores para presidir às celebrações?Estive aqui há 30 anos, portanto poderia dizer: 30 anos depois, é com uma profunda alegria e até certa emoção que me encontro aqui nos Açores. Fui visitar já a ilha do Faial e a ilha do Pico, que não conhecia. São ilhas cheias de beleza e encanto, como um oásis no meio de um deserto, com mar e montanha, o que transmite uma tranquilidade e uma paz interior.Mas sobretudo aquilo que me traz cá é vir como peregrino desta grande festa ao Senhor Santo Cristo dos Milagres dos Açores e de Ponta Delgada. Venho como peregrino, não venho apenas como representante da Igreja, mas como peregrino entre os peregrinos, um irmão entre os irmãos, para viver juntamente com os outros peregrinos que vêm de perto e de longe a mesma fé e a mesma devoção, e trazer uma mensagem de esperança e conforto a partir da devoção ao Senhor Santo Cristo.Acabei agora de ver a sua Imagem e aquele jardim de flores que a rodeia. O olhar da Imagem sugere logo o Cristo flagelado, o Cristo vítima de violência, que olha para a humanidade de hoje: uma humanidade ferida e à procura de cuidado, de cura e de saúde física, moral e espiritual. Ao mesmo tempo, é o Cristo que traz uma mensagem de misericórdia, de quem se inclina sobre as feridas da humanidade e procura cuidá-las e curá-las. Pelo que é com muita alegria e emoção que estou aqui para participar neste acontecimento único, característico da religiosidade do povo dos Açores.Enquanto Bispo Emérito de Leiria-Fátima, viveu de perto a profunda devoção mariana que envolve o Santuário de Fátima. Considera que o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e o culto a Nossa Senhora de Fátima, sendo expressões distintas da fé popular, partilham uma mesma raiz de esperança e encontro?Há semelhanças e há diferenças entre os cultos, mas são mais as semelhanças do que as diferenças. Nossa Senhora trouxe uma mensagem de misericórdia e de esperança à humanidade que vivia ameaçada de destruição pelas duas grandes guerras mundiais, e à Igreja que estava ameaçada de aniquilação pelos regimes ateístas e comunistas. Esta é a mensagem de Fátima: é a mãe que fala porque está em causa a sorte dos filhos, é a mãe que fala ao coração dos filhos, trazendo uma mensagem de esperança, mas também de advertência. Como quem diz: ‘Vede o que estais a fazer, porque de contrário também morrereis.’ E por isso dizia: ‘se não se converterem, virá uma guerra ainda maior do que esta’. Portanto, é uma advertência. É a mãe que adverte os filhos.E aqui, a mensagem trazida por esta Imagem é também de conforto, ânimo, esperança e misericórdia, contra uma atitude de indiferença relativamente aos conflitos. É uma mensagem para a humanidade de hoje, que vive ameaçada por conflitos de repercussão global, e contra uma atitude de indiferença e de fatalismo que se vai apoderando de todos. O Senhor Jesus fala através do seu olhar e da sua Imagem, coração a coração, em linguagem que toda a gente entende, para animar as pessoas e trazer-lhes conforto, consolação, esperança e sobretudo misericórdia. Isto é, que sejamos capazes de ser ajuda recíproca uns para os outros, de cuidarmos uns dos outros. É a cultura do cuidado, que hoje é tão necessária, sobretudo para com os mais frágeis, os mais pobres e os mais oprimidos.Estando nós a viver tempos de profunda transformação social, cultural e geopolítica. Como vê o papel da Igreja neste contexto?É, em primeiro lugar, uma renovação da fé, porque nós, no Ocidente, estamos a assistir a um certo esmorecimento da fé. É a atitude de quem abandonou uma tradição, e hoje, no mundo plural e pluralista em que vivemos, a fé tem de ser uma opção, uma escolha pessoal, uma fé de relação viva e íntima com Deus. Não pode ser de mera tradição, não pode ser reduzida a um conjunto de preceitos, de obrigações e de proibições, como está na mente de muita gente. E por isso esta festa mostra a proximidade de Deus: Jesus torna Deus próximo, terno, compassivo, misericordioso.E depois a cultura da paz. Nossa Senhora trouxe uma grande mensagem dirigida à paz no mundo, e que serve também para o futuro. E aqui também está uma cultura da paz: a paz que se constrói não só através das cimeiras políticas, que têm o seu papel para alcançar um cessar-fogo, mas a paz não se reduz a um cessar-fogo. A paz começa nos corações, com corações desarmados do ódio, do ressentimento, da divisão entre as pessoas, e nas relações desarmadas e desarmantes. Porque hoje vivemos um clima exasperado de polarização.As pessoas tornam-se agressivas, quase sem dar conta, mesmo inconscientemente. Então é necessária uma cultura do diálogo, do encontro, da tolerância e do respeito de uns pelos outros. E a cultura da transformação da linguagem, porque há palavras que ferem, que ofendem, que matam muitas vezes a esperança na vida das pessoas. Isso é construir a paz no dia a dia como os artesãos que trabalham o ouro fio a fio, dia após dia. E, portanto, construir uma cultura de paz.A Igreja tem um papel profético: não tem exércitos, nem tem armas que matam, mas tem armas espirituais que são capazes de infundir uma mentalidade e uma cultura de paz. Agora temos o exemplo do Papa Leão, que tem sido de uma grande assertividade sobre estes problemas da paz e que tem encontrado também opositores, a começar pelo próprio Presidente dos Estados Unidos, que lhe deu para atacar o Papa por causa da paz, distorcendo toda a verdade e todo o magistério do Papa.Nos Açores o Senhor Santo dos Milagres e o Espírito Santo são duas expressões de religiosidade popular muito importantes. Como explica que apesar destas manifestações atraírem tantas pessoas, depois no dia a dia a participação seja menor?Estas manifestações da religiosidade popular servem para alimentar a fé, e são manifestações que falam mais diretamente ao coração de um povo do que uma pregação abstrata e intelectual. É por isso que têm esta adesão popular tão grande. São uma expressão popular da fé. Outros podem não ter esta expressão, mas é a mesma fé.Depois, isto não é uma varinha mágica que transforma as pessoas da noite para o dia. Exige também o compromisso, aquilo a que nós chamamos a conversão, não é? Em cada dia. Mas notem bem: a Igreja é feita de santos e de pecadores. Não existe nenhuma Igreja quimicamente pura , não tenhamos ilusões com isso. E, portanto, falhamos muitas vezes nesse aspeto. Mas o magistério dos últimos Papas tem sido muito claro e muito contundente em relação ao conflitos e às guerras.O Papa Leão XIV foi eleito em maio do ano passado. Como tem acompanhado o seu pontificado e que expectativas nutre para a direção que imprime à Igreja universal?A eleição deste Papa foi uma surpresa, como também aconteceu com Francisco e com o Papa João Paulo II. Mas é um Papa que traz consigo uma experiência muito grande da Igreja e do mundo. Ele é norte-americano, como sabemos. E o presidente Trump disse que foi eleito por causa dele. Bom, isso é uma afirmação ridícula, porque nunca ninguém pensou nem falou de Trump no conclave onde eu estive.O Papa Leão XIV consegue, de facto, conjugar a cultura americana do Norte com a cultura americana do Sul. Foi missionário durante 22 anos no Peru, viveu no meio da miséria e sabe o que isso é. E, portanto, das prioridades que ele colocou a primeira foi a paz e a segunda os pobres. A primeira exortação apostólica , que se chama “Dilexi te”, é também dedicada aos pobres. E depois a unidade na Igreja, porque esta polarização que existe no mundo reflete-se também na Igreja, e a Igreja tem de ser um sinal de unidade e de comunhão entre as pessoas e entre os povos.Podemos questionar qual é a missão dele? É fazer frutificar a sementeira do Papa Francisco. Aquilo que o Papa Francisco semeou, agora ele faz frutificar e tem feito isso. E penso que continuará nesta linha.Eu estive na preparação do conclave, onde cada cardeal podia exprimir-se. Havia três pontos sobre os quais éramos convidados a falar: a situação do mundo de hoje e os seus problemas, a situação da Igreja hoje e os desafios da missão e o perfil do novo Papa. E havia uma nota dominante (éramos 200 cardeais lá presentes, não pensam todos da mesma maneira, claro), mas havia uma nota dominante na grande maioria das intervenções: que o novo Papa continuasse as linhas pastorais do Papa Francisco. E é isso que ele está a fazer, com estilo próprio. Não há fotocópias, não há clones. Portanto, ele faz isso com um estilo mais discreto, mais sóbrio, mais reflexivo também.Inicialmente, a comunicação social estava numa expectativa de que ele se manifestasse logo, e chamavam-lhe o Papa Desaparecido. Mas agora, depois da resposta que ele deu ao Presidente dos Estados Unidos, a dizer ‘Não tenho medo, da administração Trump” , a comunicação social viu que temos homem, não é? Que temos Papa e um Papa determinado, que sabe o que quer e para onde vai.