A história do ano em que a generosidade de um homem manteve o jornal nas bancas

Hoje 18:30 — Paula Gouveia

Como sobreviveu o Açoriano Oriental às adversidades da sua história? Foi, muitas vezes, graças à generosidade individual e sentido de dever para com os Açores e a importância da preservação do mais antigo jornal português como património açoriano.Uma destas histórias é a de José Oliveira San-Bento. Entre 21 de julho de 1962 e 15 de junho de 1963, foi editor e diretor interino do Açoriano Oriental, na sequência do falecimento de Manuel Ferreira de Almeida em março desse ano.A propriedade do jornal passou para os herdeiros, e a suafilha foi pedir a José Oliveira San-Bento que assumisse os destinos do jornal, enquanto não se encontrasse uma solução financeira que garantisse a sua viabilidade, o que viria a acontecer em 1963.“Não poderia haver melhor pessoa para isso”, garante o filho de José Oliveira San-Bento, que partilha o nome com o seu pai.“Era uma pessoa extremamente generosa que não procurava senão o bem da sua terra, e por essa razão acedeu ao pedido e à aflição da tal senhora, filha do Sr. Manuel Ferreira de Almeida. E manteve o jornal, de forma inteiramente gratuita, durante um ano”, conta José Lobo Oliveira San-Bento que ainda tem memória desse trabalho, no qual ele próprio colaborou, ajudando o pai - “uma colaboração modesta”, faz questão de dizer.“Só pela generosidade do espírito do meu pai, se conseguiu manter, durante aquele ano, o jornal, até que houvesse uma solução de caráter económico e financeiro”, salienta.Na sua própria casa, na rua da Cruz, “organizava e coligia uma série de notícias, de elementos do dia-a-dia, e fazia o jornal na base disso, não tinha bases maiores, e não tinha colaboradores na altura que pudessem ajudar. E dava uma ajudazinha, vendo o meu pai, amando-o muito, como sempre, e vendo o valor daquilo que ele estava a fazer, também dava uma ajudinha com alguns elementos, só de maneira a manter-se sempre o jornal em publicação” - que então era semanal.“A ideia que eu tenho é que o jornal era depois impresso nas oficinas de Manuel Ferreira de Almeida, perto do Café Nacional”, diz José Oliveira San-Bento que ainda hoje guarda a coleção de jornais feitos pelo seu pai.“O que ele me dizia era isto: que pretendia salvar o jornal, porque era uma grande conquista da nossa ilha, por ser, precisamente, o jornal em publicação mais antigo que havia. E tinha um grande amor a isso e queria manter isso”, explica.Note-se que, “toda a sua vida, tinha sido colaborador do Diário dos Açores. Era amigo pessoal de dois diretores”, recorda o filho.Mas Oliveira San-Bento também consta entre os colaboradores do Açoriano Oriental ainda antes de assumir a sua direção, de acordo com a investigação de Susana Serpa Silva, publicada no livro “Açoriano Oriental 1835 - 2000”.Questionado sobre se nos dias de hoje haveria essa generosidade, San-Bento duvida: “parece-me muito difícil”. “Seria preciso uma dose de generosidade e de amor a esta terra que não é fácil de encontrar”.Deixa por isso sublinhado: “O quanto é importante essa generosidade de espírito para resolver problemas graves como estes, de um jornal da categoria do Açoriano Oriental que é um caso único que a nossa terra tem”. E, “se há algo de que a nossa terra não pode deixar de preservar são os valores únicos que ela tem”, conclui.