A história da Boneca, a cadela dos Romeiros dos Fenais da Luz

Hoje 09:24 — Nuno Martins Neves

“Acredito que não foi por acaso, o rancho dos Fenais da Luz foi escolhido”. A frase é de Bruno Costa, mestre do rancho que, arriscamos a dizer, foi o mais seguido de toda as romarias quaresmais realizadas este ano na ilha de São Miguel. A razão tem quatro patas e dá pelo nome de Boneca, a cadela que fez 600 quilómetros lado a lado com o rancho de romeiros, numa comunhão que não deixou ninguém indiferente.Não é que seja incomum ver animais, principalmente cães, a acompanhar os ranchos de romeiros. “Geralmente, seguem de uma freguesia para outra, duas no máximo”, explica Bruno Costa, em entrevista ao Açoriano Oriental.O rancho de romeiros dos Fenais da Luz saiu no sábado, dia 21. Logo no segundo dia, quando estavam a passar pelos Fenais da Ajuda, a caminho da Algarvia, o Procurador das Almas - o último elemento do rancho, que vai recolhendo as preces das pessoas - sobressaltou-se com o aproximar de uma cadela de grande porte. Não era a primeira vez que a Boneca seguia os romeiros: segundo a dona da cadela, já o fez por três vezes. Mas desta vez, a companhia de Boneca foi mais além. O animal acompanhou o rancho durante alguns quilómetros, até os deixar, ao avistar, mais à frente, o rancho de romeiros de São Brás.Mas a história não ficaria por aí: ao chegar à Povoação, os romeiros dos Fenais da Luz são informados por um funcionário da Câmara Municipal da Povoação que a cadela está na bomba de gasolina das Furnas, amarrada por uma corda e que a dona do animal pedia que a soltassem e levassem consigo.“Eu disse que nós não podíamos responsabilizar-nos pela cadela, pois estávamos em romaria e precisei de algumas horas para pensar, pois iríamos passar por zonas de maior trânsito, como Lagoa e Ponta Delgada”, partilha.Desconhecedor de todo o burburinho gerado pela notícia que havia uma cadela a acompanhar um rancho de romeiros, Bruno Costa confessa que, ao chegar às Furnas, o coração falou mais alto. “Falei com o rancho, todos aceitaram que ela nos acompanhasse. Quando nos viu, ficou muito alegre”.E foi assim que o rancho passou de 26 elementos a 26 mais um: a Boneca seguiu todo o caminho, até de volta aos Fenais da Luz, ao lado dos romeiros, como se de um deles se tratasse.“Nunca vi um cão que apenas ladrou duas vezes e uma delas foi por não ter entrado no Santuário. Ela tinha todo o seu ritual quando chegávamos a uma igreja: nós fazíamos a oração de entrada e ela entrava na igreja, como um guia. Depois, voltava e entrava connosco. E quando nos colocávamos de pé a acabar a oração, ela escolhia sempre um de dois lados: ou à frente do altar, ou à frente do Santíssimo. Depois pedíamos para sair e ela fazia o mesmo”.Os romeiros só tomaram noção do que se estava a passar, nomeadamente nas redes sociais, durante o Encontro de Famílias. O mestre do rancho reconhece que ficaram “mais expostos”, mas diz que, ao fim de 20 romarias feitas, foi a melhor da sua vida.“Foi a romaria de puro humanismo, não só pela inclusão da Boneca que nos deu mais força, mas por um conjunto de situações que foram acontecendo ao longo da romaria. Diga-me ocasiões em que todos colocaram as diferenças de lado e uniram-se numa só missão? Foi isso que aconteceu com a Boneca. Ela conseguiu unir várias pessoas, de faixas etárias diferentes, de classes diferentes e isso sensibilizou-nos bastante. Pois esse é o verdadeiro espírito da romaria: sejamos doutores ou desempregados, ali somos todos iguais”.Opinião semelhante tem Hugo Silva, contramestre do rancho, romeiro desde 2010. Para ele, a Boneca “também ajudou-nos nos momentos mais difíceis. Os pormenores , o respeito , o agir dela tinham coisas que ninguém consegue explicar o porquê”.Ao longo da romaria, o rancho foi cuidando da cadela: Bruno Costa levou, nos primeiros dias, a ração no seu saco, às costas, mas depois, por onde passavam, todos tinham algo preparado para a Boneca. “Houve muito cuidado, foi comovente ver como as pessoas se sentiram tocadas pela história da Boneca”, diz Bruno Costa.