“A dor nas costas é muito predominante nos Açores entre as doenças reumáticas”

Hoje 09:38 — Rui Jorge Cabral

Fernando Pimentel dos Santos terminou no passado sábado um ciclo de dois anos como presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia, com a realização, 20 anos depois, do Congresso Português de Reumatologia em Ponta Delgada.Refira-se que durante o congresso, foi realizada uma atividade de marcha e corrida, em parceria com a Federação Portuguesa de Atletismo, com a participação de cerca de 70 pessoas, que pretendeu demonstrar a importância do exercício físico.Em entrevista ao Açoriano Oriental, Fernando Pimentel dos Santos faz o balanço do congresso em Ponta Delgada, fala da prevalência das doenças reumatológicas nos Açores e explica alguns dos desafios que a evolução tecnológica tem colocado à prática da medicina.O Congresso Português de Reumatologia decorreu em Ponta Delgada 20 anos depois do último evento aqui nos Açores. Quais foram as principais conclusões deste Congresso?Foi um Congresso que respondeu às nossas expectativas. Vinte anos depois, quisemos voltar a Ponta Delgada, exatamente para reforçar a necessidade da Reumatologia e os reumatologistas terem uma especialidade acessível às populações, uma especialidade de proximidade a que as pessoas possam aceder com facilidade, seja no continente, seja nas ilhas.Depois, foi importante também no sentido de lançar pontes. Nós escolhemos Ponta Delgada por estar no centro do Atlântico e porque a Sociedade Portuguesa de Reumatologia quis fazer pontes com a Europa, com África e com a América. E isso aconteceu de facto. Nós tivemos pessoas de todos estes continentes em Ponta Delgada com uma representação massiva da Reumatologia nacional. E falámos muito de várias patologias reumáticas, porque temos mais de 200 doenças, que abordámos sempre numa perspetiva de inovação aplicada ao serviço da Reumatologia e dos utentes com patologia reumática. E falámos ainda das oportunidades que temos de fazer investigação clínica de qualidade em Portugal, em que os conhecimentos científicos possam ter aplicação na prática clínica. Porque fazemos cada vez mais e melhor reumatologia em Portugal e, ao mesmo tempo, muito centrada na componente humana da medicina. Isto porque temos de ser bons cientificamente, mas temos também de atender à componente humana e às necessidades da pessoa, que muitas vezes vão além da ciência.Como estão os Açores em termos de doenças reumatológicas por comparação com o continente português?Nós temos na Sociedade Portuguesa de Reumatologia um estudo publicado em 2015, o EpiReumaPt, que dá cobertura a todo o continente e também às regiões insulares, onde os dados estão agregados. Mas temos também dados recentes, de 2025, relativos aos Açores e que dizem que a lombalgia é muito predominante, portanto, a dor nas costas, com cerca de 35%, ao contrário do EpiReumaPt, que apontava para uma prevalência de 26,4% ao nível nacional.E para além da lombalgia, temos também os problemas cervicais crónicos, com 23,4% e depois a artrose agregada, a artrose em qualquer articulação, que tem nos Açores uma prevalência de 18,3%. No continente, temos dados desagregados de 12,4% no joelho, 8,7% na mão e 2,9% na anca. Portanto, parece que a lombalgia e os problemas cervicais, ou seja, a nível do pescoço e depois as artroses, são as patologias mais frequentes nos Açores.Contudo, nas doenças reumáticas inflamatórias, como a artrite reumatoide, a espondiloartrite ou o lupus, temos muito poucos dados referentes aos Açores. Portanto, temos aqui um desafio, que é o de fazermos um estudo que permita caracterizar adequadamente a população dos Açores e fazer a comparação com a Madeira e com a população continental.Que explicação poderá ser dada para a prevalência mais elevada de dores nas costas aqui nos Açores?Poderão estar relacionadas com aspetos genéticos, mas também com o meio ambiente e com as atividades que as pessoas desenvolvem nos Açores em termos profissionais, nomeadamente as manuais ligadas, por exemplo, ao campo ou ao mar. Mas quero deixar claro que estou a falar no campo especulativo.Os Açores estão bem servidos em termos de recursos humanos especializados na área da reumatologia?No Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, existe um grupo de reumatologistas importante, que pratica reumatologia de ponta, por assim dizer, e que dá um ótimo apoio aos cuidados de saúde primários. Temos também o Hospital de Santo Espírito da Ilha da Terceira, onde existe um grupo de reumatologistas que vai rotativamente à Terceira fazer consultas no hospital. Depois, em muitas situações, é preciso o recurso à telemedicina ou até mesmoà transferência de doentes entre ilhas.Na sessão de abertura, tivemos a secretária regional da Saúde e Segurança Social, dr.ª Mónica Seidi, a afirmar que os Açores precisam de mais reumatologistas e que existem condições especiais em termos de remuneração para dar uma maior cobertura às ilhas, o que me pareceu interessante e verdadeiramente apelativo.Quais são as principais inovações que têm surgido na área da Reumatologia e que já estejam a ser aplicadas em Portugal?Há duas áreas de inovação. Uma é ao nível da imagiologia, com a introdução de novos métodos de imagem e com o aperfeiçoamento de novas metodologias, nomeadamente as TACs de baixa resolução, as ressonâncias magnéticas do corpo inteiro ou feitas com metodologias que permitem caracterizar melhor alguns aspetos que para nós são importantes e que nos permitem fazer diagnósticos mais precisos, em momentos mais precoces da doença. Por outro lado, temos também inovações em termos terapêuticos. Ou seja, têm vindo a aparecer muitos novos medicamentos que permitem o controlo das diferentes doenças nos diferentes doentes, porque não há só uma doença.As doenças podem ter diferentes perfis biológicos e, por isso, aquilo que pode ser muito eficaz numa pessoa pode não ser eficaz noutra. Por isso, é importante ter estes diferentes mecanismos de ação para adequar a medicação ao tipo de doença que ‘aquela’ pessoa tem. Nesta área estão a surgir igualmente o que chamamos de biomarcadores de natureza genética, proteica, de imagem ou biomarcadores clínicos que permitem, com a criação de algoritmos, fazer diagnósticos mais precoces e orientar a melhor abordagem terapêutica para aquele doente em particular. A medicina de precisão é muito relevante e vai ser a medicina do futuro.Quais são os principais cuidados que se devem ter na prevenção da doença reumatológica?Neste momento, ainda não há propriamente uma possibilidade de prevenção. Por isso, aquilo que pretendemos é diagnosticar em fases precoces da doença, com abordagens terapêuticas também em fase precoce, que tenham realmente uma boa capacidade de resposta. Contudo, é importante manter hábitos de vida saudáveis, com 7 a 8 horas de sono diárias e a prática regular de exercício físico. Mas um exercício personalizado, que deve ser feito de acordo com a capacidade física e também com as limitações que a pessoa tem. Além disso, também é necessária uma alimentação saudável e diversa, com um bom teor proteico e com um bom suporte de cálcio e de vitamina D.  Qual é, no seu entender, o maior problema em Portugal no combate às doenças reumatológicas?O grande problema é a falta de literacia, ou seja, de informação sobre os sinais e os sintomas que devem chamar a atenção das pessoas, no sentido de perceberem o que possa não ser uma dor normal. Por outro lado, continuamos a ter uma formação em doença musculoesquelética e sobretudo em reumatologia que é muito reduzida nas nossas Faculdades de Medicina. Por isso, tenho vindo a defender que o ensino de patologia musculoesquelética deve ser alargado dentro das Faculdades de Medicina a nível nacional.Isto porque, se nós não tivermos médicos com um conhecimento razoável sobre os sinais de alerta, também não iremos ter uma referenciação precoce para os serviços de reumatologia. Portanto, para a população é muito importante dizermos quais são as características da dor que devem chamar a atenção.Por exemplo, dores que surgem ou que se intensificam em repouso, ou seja, que são mais fortes quando a pessoa está sentada, que acordam a pessoa durante a noite e que, ao acordar, são acompanhadas de uma rigidez das articulações, com uma dificuldade de mexer as articulações e que dure mais de meia hora depois de acordar, são claramente sinais de alerta. Resumindo: dores que se intensificam com o repouso e que são acompanhadas de uma rigidez matinal superior a meia hora. Doentes e médicos de família devem interpretar isto como sinais de alerta. Os doentes devem procurar um reumatologista e os médicos de família devem referenciar estes doentes aos reumatologistas, independentemente das radiografias, dos exames de imagem que tenham ou das análises que possam ter destes doentes.  Eu diria que a literacia neste momento é o problema central.Creio que já temos um número de reumatologistas razoável em Portugal, uma vez que temos um reumatologista por cada 40 mil pessoas, que é um rácio que é transversal a toda a Europa. Portanto, o problema não está no número, está essencialmente na sua própria distribuição, a nível continental e a nível insular.