“A cerâmica surgiu no momento certo da minha vida. Eu sinto-me realizada”
22 de set. de 2024, 09:00
— Ana Carvalho Melo
Isabel Silva Melo é uma ceramista que
descobriu a sua verdadeira vocação artística numa fase mais madura
da sua vida. A sua trajetória é marcada por uma ligação profunda
à terra, à família e à arte.
Desde tenra idade, Isabel Silva Melo
desenvolveu uma afinidade com a criação artística, e o barro, que
descobriu no barreiro da quinta onde cresceu, desempenhou um papel
importante na sua veia criativa.
“O meu pai mostrou-me o barreiro na
nossa quinta, e eu ia lá de sachinho tirar o barro para brincar”,
recorda-se com um sorriso.
Após concluir o ensino secundário,
Isabel Silva Melo decidiu seguir a sua paixão pelas artes. Estudou
Belas Artes e Escultura no Porto, onde viveu anos que descreve como
“fantásticos em termos de aprendizagem, trabalho e convívio”.
Contudo, com o nascimento da sua filha
mais velha, Mariana, Isabel Silva Melo começou a sentir que apenas
lecionar não preenchia totalmente a sua realização pessoal e
artística. Fez uma pós-graduação em Joalharia, mas as exigências
da maternidade e a necessidade de mudança levaram-na de regresso aos
Açores, onde continuou a dar aulas no ensino secundário.
“Durante muitos anos, a minha vida
era dar aulas e cuidar das miúdas. Fiz questão de que elas
frequentassem muitas atividades, e como tal, não tinha horário para
fazer mais nada”, explica, realçando que se sente muito feliz com
o caminho seguido por cada uma das suas filhas: Mariana, Carolina e
Leonor.
Durante duas décadas, realizou apenas
algumas pinturas para oferecer a amigos e familiares. Foi apenas aos
50 anos, em grande parte devido a razões financeiras, que Isabel
Silva Melo reencontrou o barro de uma forma mais séria. Um
reencontro que a escultora afirma ter surgido no momento certo da sua
vida, já que o acompanhamento das suas filhas foi a prioridade
durante grande parte do seu percurso.
Começou por fazer pequenos presépios
de lapinha, uma tradição açoriana, e rapidamente se viu envolvida
no mundo do artesanato, começando também a fazer trabalhos em
escamas de peixe.
Em 2017, após frequentar um workshop
de cerâmica orientado pelo ceramista Delfim Manuel no Museu Carlos
Machado, Isabel Silva Melo percebeu que a cerâmica seria o seu novo
caminho.
“Nunca, até então, tinha
equacionado a vertente da cerâmica... Após esta formação, o meu
mundo mudou”, afirma com emoção.
Desde essa experiência, Isabel Silva
Melo nunca mais parou. Inscreveu-se como artesã no Centro Regional
de Artesanato e, desde 2017, é uma artesã certificada na área da
cerâmica figurativa.
Os seus trabalhos são marcados por uma
mistura entre o tradicional e o contemporâneo, uma dualidade que
Isabel Silva Melo abraça com naturalidade.
“São trabalhos que tendem a entrar
em alguma abstração, mas que foram muito bem aceites pelo público”,
explica, mencionando as suas criações de representações de Santo
António numa série dedicada ao Sermão de Padre António Vieira, ou
a série “Os Emigrantes”, inspirada no conhecido quadro de
Domingos Rebelo.
“O que distingue os trabalhos dos
ceramistas são os rostos. Conseguimos identificar os ceramistas
entre si pelos rostos que tendem a ser parecidos com os nossos”,
diz. Atualmente, está a trabalhar numa série inspirada pela “Ode
Marítima”, de Fernando Pessoa. “Desde pequena que ouço o som
dos barcos a saírem dos portos. E agora estou a trabalhar sobre o
mar. Já fiz uma escultura e agora vou fazer outra que representa a
relação entre Santa Maria e São Miguel, que nos vemos tenuemente,
e depois as ilhas do Triângulo. No total, serão três peças”,
descreve.
A cerâmica não é apenas uma forma de
expressão artística para Isabel Silva Melo, mas também uma forma
de equilíbrio emocional. Quando algo corre mal no atelier, a
escultora revela que encontra refúgio na natureza, na quinta onde
vive, e que considera fundamental para o seu bem-estar.
“Calço as botas de cano, mudo vasos,
sacho, tiro ervas daninhas”, diz, referindo-se às pequenas rotinas
que lhe trazem paz.
Com um percurso que se distingue pela
autenticidade e dedicação, Isabel Silva Melo foi premiada com o
Prémio Nacional de Artesanato na categoria de Empreendedorismo Novos
Talentos em 2020.
“Eu nunca imaginei ganhar aquele
prémio, senti-me muito orgulhosa de mim”, admite.
Ao longo da sua carreira, a artista já
apresentou os seus trabalhos em diversas exposições coletivas,
algumas integradas no Coletivo 18, como “Ser Mulher”, no Aviz
Trade Center, no Porto, ou “Os Lusíadas”, no Palácio Nacional
de Mafra. Também participou em exposições em Ponta Delgada, como
“No Feminino”, com curadoria de Alexandra Baptista, no Centro
Municipal de Cultura de Ponta Delgada, e em várias feiras de
artesanato, tanto nos Açores como no continente.
Atualmente, Isabel Silva Melo concilia
a criação artística com a docência e os compromissos familiares,
sentindo-se realizada em ambas as áreas.
“Eu sou uma mulher feliz. A vida tem
sempre os seus imprevistos, mas sinto-me realizada enquanto mãe e
por ter um ateliê tão bonito como eu nunca sonhei”, reflete.
Com o sonho de construir uma casa
prefabricada na quinta para receber as suas filhas, Isabel Silva Melo
continua a trilhar o seu caminho, sem nunca esquecer o equilíbrio
entre a arte, a natureza e a família.