“A arte requer estudo, dedicação, tempo. A arte é também uma forma de conhecimento”

9 de ago. de 2026, 08:00 — Susete Rodrigues

Nascido em São Miguel e criado na Ribeira Grande, as memórias de infância de Mário Moniz levam-o à escola, à Academia de Música na Ribeira Grande, que “ainda não sabia que ia ser uma paixão, mas que era algo de que gostava muito”, ao andar a pé na rua, ir às compras e ter de “repetir o que a minha mãe tinha acabado de dizer para não esquecer, porque não existia telemóvel”. Recorda também os ensaios do Grupo Coral, “o meu pai cantava no Grupo Coral. A minha ligação com o mundo da música começa, sem dúvida, através do Grupo Coral, porque cantávamos, sempre se cantou em casa e no Grupo Coral havia o órgão que sempre me impressionou imenso”, confessa. Todo o percurso escolar de Mário Moniz teve lugar na Ribeira Grande, primeiro na Escola dos Foros, depois na Gaspar Frutuoso e na secundária da Ribeira Grande. Foi no secundário que surgiram algumas indecisões. Conta-nos que estudou Ciências e confessa que “quando chegou a altura de escolher o que seguir, estava muito confuso entre as Ciências, nomeadamente a Geologia, que era algo que me fascinava”, mas a música acabou por levar a melhor, porque “sempre que terminava a escola, vinha, todos os dias para Ponta da Delgada ter aulas no Conservatório Regional e, era uma outra realidade, éramos como se fossemos uma família, éramos uma turma única e tínhamos uma ótima relação e, a relação que tínhamos com os professores também era fantástica”, disse.Mário Moniz foi para Lisboa frequentar a licenciatura em Ciências Musicais. Por lá, viveu os primeiros tempos com entusiasmo: “lembro-me que no meu primeiro ano estava no céu, dei para mim a dedicar todo o meu tempo ao estudo da música”, afirmou para acrescentar que “foi importante ter toda aquela oferta e tenho muito boas memórias desse tempo”. Por isso, não estranhou ter deixado a ilha - “gostava de estar em Lisboa”, mas também ansiava pelos regressos a São Miguel, ou seja, “gostava muito de vir cá, estar com a família, sair da confusão de Lisboa, mas ao mesmo tempo sentia a necessidade de regressar. E isso levou àquela decisão importante: terminado o curso ‘o que é que vou fazer?’. No entanto, antes de concluir o curso, Mário Moniz começou a trabalhar como professor de música em escolas privadas e no primeiro ciclo. Afirma que “se tivesse escolhido ficar lá, estaria orientado. Mas, no último momento decidi voltar”. O que nos leva a perguntar o porquê de ter regressado. “Primeiro porque há qualquer coisa que nos traz de volta, há qualquer coisa que nos pede para vir”, afirma, explicando que “São Miguel oferecia estabilidade, proximidade familiar e qualidade de vida”. Chegado cá, concorreu ao concurso de professores, conseguiu colocação com horário completo. Entretanto, Mário Moniz recua um pouco na nossa conversa para explicar que antes de voltar, fez uma pós-graduação que lhe deu habilitações para ser professor, uma vez que o curso de Ciências Musicais não dá essa habilitação. “Nessa pós-graduação tive a felicidade de contactar com a professora Helena Rodrigues - que é a minha orientadora do doutoramento que estou a fazer - e ela abre-me as portas para o mundo da arte para a infância”. Através dela contactou com a Companhia de Música Teatral, começando a participar em projetos, o que ajudou a “germinar a semente que já tinha”. E porque queria tornar a arte para a infância em algo mais presente na mente das pessoas, Mário Moniz desenvolveu o projeto “Música Bebé”, com a Pontilha, já em São Miguel. Mais tarde, com vontade de explorar outras frentes e outros públicos, cria a Musiquim - Associação Musicoteatral dos Açores. Adianta que a “Musiquim também surge com o propósito de ser sinónimo de arte para a infância e já surge numa fase em que artisticamente sinto-me um pouco mais maduro e mais seguro”. Com o passar do tempo, os projetos deixaram de se centrar exclusivamente na primeira infância e passaram a incluir crianças do primeiro ciclo, adolescentes, através do Erasmus+, permitindo diversificar tanto os públicos, como as fontes de financiamento, porque, no que se refere às artes, “o financiamento, às vezes, é um bocadinho mais complicado”, repara.Trabalhar com crianças muito pequenas é, para Mário Moniz, um “trabalho que me dá muito gozo de fazer”, acrescentando que enquanto um adolescente “responde imediatamente a uma pergunta, um bebé pode demorar semanas ou meses até revelar um sinal de aprendizagem”. Esse tempo nunca o desmotiva, considerando que cada pequena resposta conquistada “representa uma verdadeira vitória”.Dos projetos que já realizou, há um que o marcou, trata-se do ‘O sonho do Miguel’, um espetáculo que “fiz com o meu sobrinho, que na altura tinha oito anos”. Recorda com carinho e orgulho o empenho do sobrinho, sobretudo, quando aceitou decorar e interpretar um longo monólogo, por isso refere que o “Miguel sempre deu tudo o que lhe pediram. (...) Deu-me muito orgulho fazer esse trabalho com ele. Entretanto, ele agora já tem 13 anos, já é mais difícil convencê-lo a fazer alguma coisa”, diz bem disposto.Atualmente, com a PDL26, “conseguimos financiamento para pôr em prática alguns projetos e explorar outras coisas que já queríamos ter feito - estou-me a referir, por exemplo, a ‘Uma Pequena Opereta sobre Sementes’, que a partir de setembro e outubro estará em itinerância”. A ‘Opereta’ foi pensada para o Jardim de Infância e 1º Ciclo, portanto, “vamos às escolas públicas, apresentámos o espetáculo e temos uma conversa com as crianças, deixámos que eles mexam no cenário ou nos instrumentos que levamos, porque, na minha opinião, é importante eles sentirem, isso faz com que criem memórias”. Também nesse espetáculo, “fomos muito ao cancioneiro açoriano (...) O cancioneiro é um elemento tão rico, porque está lá toda a história do nosso povo, a nossa bravura”. Outro projeto é o ‘Eco de Gigões’, um espetáculo para o berçário, que procura “estimular as crianças. A ideia é levar-lhes um objeto artístico que lhes possa despoletar algumas reações e, com essas reações, tentar criar uma comunicação no momento, de forma improvisada que podem ser movimentos ou simples sons que as crianças possam fazer”. Enquanto professor, Mário Moniz encontra grande satisfação em acompanhar o crescimento dos alunos. Ainda assim, distingue esse papel da criação artística. Na escola “há os programas, os objetivos e avaliações”. Nos projetos artísticos, “é importante que se perceba que são momentos de trabalho, mas também são momentos de crescimento, desenvolvimento, muitas vezes pessoal e artístico. São momentos de superação, porque essa ideia de que somos artistas e conseguimos, nem sempre é assim”. Mário Moniz considera que a arte, muitas vezes, “não é valorizada e não é uma coisa que se faz do ‘pé para a mão’. A arte requer estudo, dedicação, tempo. A arte é também uma forma de conhecimento. (...)”.A finalizar a nossa conversa diz que nunca se arrependeu de ter regressado à sua terra e considera que “temos uma qualidade de vida que não se consegue em outros locais”.Por outro lado, não se imagina a fazer outra coisa, porque ensinar continua a ser uma paixão e criar novos projetos “tornou-se uma necessidade. Posso estar um ou dois anos sem criar nada, mas posso garantir que terminando um projeto, já estou a pensar em outro”.