“A arte abstrata não representa a realidade, provoca sensações”
Hoje 14:13
— Ana Carvalho Melo
Teresa Mendonça regressa aos Açores com uma exposição que cruza pintura e escultura, mas também memórias, afetos e um percurso artístico construído contra a adversidade.A artista, nascida em Ponta Delgada em 1948, apresenta na Sala Romanti Cultura, no Casino Azores, a mostra “Entre Gesto e Matéria: Criar como Forma de Amar”, patente até 1 de setembro e composta por 30 obras em diálogo com a escultura de Aida Sousa Dias.A sua ligação à pintura começou cedo, embora tenha passado por um trajeto pouco linear entre os Açores e Lisboa. “Andávamos sempre cá e lá”, recorda, explicando que acabou por frequentar um colégio interno em Lisboa, porque não queria estar constantemente entre duas geografias.Foi nas Doroteias que teve contacto com Domingos Rebelo, mestre com quem teve aulas particulares durante um ano. “Eu considero-me uma pintora autodidata, mas neste colégio tive aulas com o mestre Domingos Rebelo durante um ano”, afirmou, sublinhando que essa base lhe deixou uma “bagagem” que ainda hoje valoriza.Ainda adolescente, Teresa Mendonça já se sentia atraída por linguagens mais livres, ainda que confesse não saber o que era arte abstrata. Conta que, em casa dos tios, se impressionava com telas de Hilário Teixeira Lopes, pintor de quem viu obras que a marcaram profundamente: “Eu tinha no meu quarto um quadro que vinha de cima a baixo, ocupando a parede toda, que eu nunca mais esqueci… uma pintura lindíssima, abstrata, azul e rosa”. Essa memória ajuda a perceber a direção que o seu trabalho viria a tomar décadas mais tarde, altura em que uma adversidade se transformou numa nova forma de estar na vida.Antes de se dedicar plenamente à arte, foi empresária e teve lojas de roupa. A mudança surgiu após uma doença grave, que a obrigou a vender o negócio e a repensar o futuro.“Eu pensei: o que é que eu vou fazer? Porque eu, sozinha, sem sócias, se me acontece qualquer coisa, o que é que eu faço? Então pensei: porque é que não me vou dedicar à pintura, se tenho bases?”, contou. Foi aos 40 anos que começou a pintar, numa viragem que descreve de forma simples e forte: “Foi o que me salvou nesta história toda”.Essa escolha levou-a ao Movimento de Arte Contemporânea (MAC), instituição com a qual mantém uma ligação de longa data. Foi Álvaro Lobato de Faria, fundador e presidente do MAC, quem a lançou no circuito artístico e a incentivou desde o início. Teresa Mendonça recorda-o como uma presença decisiva: “Tinha um amigo, um grande galerista, o Álvaro Lobato de Faria, que me disse: ‘Tu és uma pessoa fantástica. Tu vais ver que vais conseguir’”.Conta ainda que o destino acabou por a juntar a Hilário Teixeira Lopes na mesma galeria (o MAC): “É engraçado o que a vida nos traz. Quando expus no MAC, encontrei o Hilário Teixeira Lopes. E, portanto, acabámos por nos reencontrar, dos meus 15 aos 40 anos, na galeria”.Hoje, continua a assumir essa pertença sem hesitações: “Eu pertenço mesmo ao Movimento de Arte Contemporânea”.Ao longo de cerca de 30 anos, o MAC foi a plataforma a partir da qual consolidou uma carreira com exposições em Portugal e no estrangeiro, sobretudo em países lusófonos. O seu percurso, agora reconhecido por público e instituições, ganhou também consistência através de várias distinções atribuídas ao longo dos anos.Na entrevista, Teresa Mendonça destacou também a dimensão íntima da sua pintura. Como contou, não trabalha com um plano fechado: “Quando eu vou para uma tela, eu não tenho nada definido”.Nesse sentido, explica que ainda hoje sente a insegurança que acompanha o seu processo criativo, mas que também o alimenta. “Se eu fico uma semana ou duas sem trabalhar, fico com a insegurança de que já não vou ser capaz”, confessou.A pintora realça ainda o lado físico e extenuante do gesto criativo: “Sou capaz de ficar 10 horas seguidas numa posição difícil… fico debruçada a pintar os quadros”. E admite que nunca sabe exatamente quando um quadro está terminado: “Eu nunca sei quando é que o quadro está pronto”.Em “Entre Gesto e Matéria”, essa abordagem surge num diálogo direto com a escultura de Aida Sousa Dias, numa leitura curatorial que valoriza a relação entre matéria, memória e transformação. No caso de Teresa Mendonça, a abstração não é apenas forma: é emoção, descoberta e sensação.A própria artista explica-o de modo claro: “Há muita gente que ainda não percebeu que a arte abstrata não representa a realidade; tem sim de criar uma sensação”.A exposição é também um regresso afetivo a São Miguel. Teresa Mendonça mantém família na ilha, nomeadamente o filho e dois irmãos.“Nesta exposição, tenho um quadro específico chamado ‘Onde o sonho se esconde’, que me remete para a infância e os períodos passados na freguesia das Sete Cidades”, conta.“Eu era muito miúda e explorava a lagoa num barco a remos, onde encontrei umas grutas que muitas pessoas hoje desconhecem”, recorda, acrescentando: “Quando comecei a pôr cores nas telas e aquilo a surgir, pensei: ‘Isto reporta-me à minha infância, quando os outros quadros não me reportam a nada’”.Teresa Mendonça acrescenta ainda que guarda da sua infância, sobretudo, os valores e os laços humanos que formou nos Açores.“Eu guardo muita coisa, sobretudo agora: a amizade das pessoas. Tenho amigos que cultivo desde miúda. É a lealdade, é a amizade, é a educação”, afirma.