372 utentes esperam por Consulta da Dor nos Açores

Hoje 10:31 — Daniela Arruda

Há 372 utentes em lista de espera para Consulta da Dor no Serviço Regional de Saúde, segundo dados da Secretaria Regional da Saúde. A ilha de São Miguel concentra 196 casos, seguindo-se a Terceira, com 125, o Faial, com 35, São Jorge, com 15, e as Flores, com um.Dos utentes em espera, 92 aguardam há mais de seis meses e 12 aguardam há mais de um ano. Estes últimos, segundo a Secretaria Regional daSaúde, foram triados com prioridade normal. Nos casos prioritários, o tempo médio de espera situa-se entre os 15 e os 60 dias, dependendo da instituição e da prioridade clínica.Mas, para Maria Teresa Flor de Lima, médica e vice-presidente da Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores, estes prazos estão acima dos tempos máximos de espera estabelecidos pela Associação Internacional para o Estudo da Dor, referências adotadas internacionalmente desde 2009.“Nos casos mais urgentes, situações agudas e graves, com risco de deterioração ou cronicidade ou dor relacionada com cancro ou doença terminal ou em fase terminal, a espera deverá ser de até uma semana. Já nos casos urgentes ou semi-urgentes, com dor grave não diagnosticada ou progressiva, e risco de aumento da incapacidade funcional, geralmente com duração de seis meses ou menos (dor lombar que não melhora, dor neuropática, dor pós-cirúrgica ou pós-traumática)” o limite é de um mês, explica.No caso de dor regular em que a dor é persistente a longo prazo sem progressão significativa, o prazo chega até quatro meses.A especialista alerta ainda para outra questão que os números oficiais não permitem apurar: não sabe se os doentes que aguardam consulta estão a ter acompanhamento durante esse período. Sublinha que, enquanto esperam, devem ser acompanhados pelo médico de família, por um fisiatra, pela associação ou por outro profissional. “A pessoa só assim à espera, como já há tempos eram seis meses e depois um ano, não pode ser”, afirma.Mais de 700 primeiras consultas em dois anosEntre 2024 e 2025 foram registados 599 pedidos de Consulta da Dor e realizadas 743 primeiras consultas. Atualmente, a lista inclui sobretudo casos de dor musculoesquelética refratária, dor neuropática, dor crónica pós-cirúrgica ou pós-traumática, dor pélvica crónica e dor oncológica.A Secretaria Regional da Saúde diz que o constrangimento tem a ver com a falta de anestesiologistas, a especialidade que assegura as consultas nos três hospitais da Região. E anuncia medidas como a telemedicina, deslocação de especialistas às ilhas sem consulta regular e melhoria dos circuitos de referenciação para diminuir o tempo de espera.É precisamente neste circuito que a Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores quer passar a ter um papel formal. A associação disponibiliza apoio psicológico, hidroterapia, terapia ocupacional e outras atividades de educação e gestão da dor. Maria Teresa Flor de Lima defende que alguns doentes possam ser encaminhados para estas respostas pelos médicos de família ou pelas unidades de saúde, enquanto aguardam consulta ou depois de serem acompanhados na unidade de dor.A proposta está ainda a ser discutida com a Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel e com a Unidade de Dor do Hospital Divino Espírito Santo (HDES), com o objetivo de definir e protocolar os critérios de referenciação.Espera pela Consulta da Dor é um problema nacionalSegundo Maria Teresa Flor de Lima, a espera pela Consulta da Dor é um problema transversal a todo o país. A especialista defende que uma parte dos doentes pode ser acompanhada nos cuidados de saúde primários, desde que os médicos de família tenham formação específica para reconhecer e tratar diferentes tipos de dor.Assim, nem todos os casos precisam de chegar a uma consulta especializada. Para a médica, fundadora da Medicina da Dor nos Açores, uma melhor preparação dos cuidados de saúde primários pode permitir uma resposta mais rápida e reservar as consultas da dor para os casos que efetivamente necessitam de acompanhamento diferenciado.Maria Teresa Flor de Lima sublinha também que a resposta à dor não deve depender só dos anestesiologistas. O tratamento deve ser multidisciplinar e, consoante o caso, envolver psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas e até terapeutas ocupacionais, além de outros profissionais.Quando é considerada dor crónica?A dor é considerada crónica quando é permanente ou recorrente e se prolonga por mais de três meses, explica Maria Teresa Flor de Lima.A dor crónica está geralmente associada a uma doença de base, embora possa acontecer que o doente ainda não tenha um diagnóstico identificado quando começa a procurar ajuda.Por isso, a especialista considera fundamental haver uma avaliação precoce. Quando a dor persiste não é devidamente tratada, pode tornar-se mais difícil de controlar e ter consequências graves na vida do doente. “A dor deve ser tratada o mais cedo possível”, defende, acrescentando que o objetivo passa por reduzir a dor e melhorar a qualidade de vida.Maria Teresa Flor de Lima lembra ainda que a dor crónica é hoje entendida como uma doença por si só própria, além da doença que lhe possa estar na origem. Segundo a médica, a Organização Mundial da Saúde reconheceu a dor crónica como uma doença crónica em 2018.A Associação de Doentes de Dor Crónica dos Açores já existe há cerca de 20 anos e, segundo a vice-presidente, acompanha atualmente cerca de 30 pessoas, embora o número varie. A associação disponibiliza apoio psicológico, hidroterapia, terapia ocupacional, estimulação cognitiva, grupos de apoio, literacia sobre dor.