25 de Abril: Histórias de mulheres entre os cárceres da PIDE e a liberdade
8 de mar. de 2024, 18:38
— Lusa
“Estava a fazer uma direta num
sótão e, para não se ouvir o barulho na rua, liguei o rádio. Ouvi tudo e
quando ouvi a Grândola vi logo que o que vinha aí não era nada de mau”,
contou a procuradora jubilada durante um encontro organizado pela
agência Lusa, em parceria com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade
de Género, para assinalar o Dia Internacional das Mulheres com
testemunhos de mulheres que lutaram pela liberdade e que continuam a
intervir na defesa dos direitos humanos, 50 anos passados sobre o 25 e
Abril.Aurora Rodrigues, que já conhecera
os cárceres da PIDE e a tortura, apanhou o primeiro autocarro da manhã
para se juntar à população que seguia os militares no golpe que derrubou
o regime.Seguiu a multidão até ao Quartel
do Carmo, palco da rendição do Governo de Marcelo Caetano, e juntou-se à
festa, mas não sem antes se assustar quando viu carros a passar na rua
com pessoas a gritarem o nome do general Spínola, com o qual não
simpatizava ideologicamente.“As pessoas
estavam em festa e pensei: nunca mais me vão prender”, recordou. Acabou
por se esquecer que tinha de ir ver um camarada que se encontrava numa
casa de refúgio e que só mais tarde veio a saber que não precisava mais
de se esconder.Aurora Rodrigues estudava
direito e tinha sido expulsa da faculdade. Às mulheres estava vedado o
exercício da magistratura. “A explicação do regime era que as mulheres
não tinham fortaleza de ânimo, mas para serem torturadas tinham, como os
homens, e até com requintes, porque as mulheres têm fragilidades que os
homens não têm, como a menstruação, e usavam isso para nos humilhar”,
relatou.As mulheres, prosseguiu, estavam
“ao nível das crianças”, competindo-lhes “o governo da casa” sob a
supervisão do marido, o designado chefe de família. “A violação de
correspondência era crime, mas se fosse o marido a abrir a
correspondência da mulher ou dos filhos menores já não era crime”,
afirmou, defendendo que um país inteiro estava sob tortura. “As pessoas
desconfiavam umas das outras. Estávamos ao lado de outra pessoa que não
conhecíamos e desconfiávamos dela”.“Há quem duvide que assim tenha sido e queira reconstruir o que já foi”, lamentou.Ana
Maria Braga da Cruz, também licenciada em direito, lembrou que as
mulheres viviam “atrás do biombo”. Quando perguntou a um professor por
que não podiam seguir a carreira diplomática, a resposta foi “porque as
mulheres não sabem guardar segredos”.Já
depois do 25 de Abril, nas ações que desenvolveu em defesa dos direitos
das mulheres viu homens a perguntarem, com espanto, “ai agora não se
pode bater nas mulheres?”. Da mesma forma que a própria polícia resistia
ao conceito de violência doméstica. Um agente chegou a confessar a uma
mulher que se queixou do marido: “Então só vem cá por causa de o seu
marido lhe bater? Olhe, eu se não bato na minha mulher todas as semanas
ela não anda direita!”.Para Ana Maria
Braga da Cruz, a democracia é um processo que, em qualquer momento, pode
regredir. Olhando para os três “D” do programa do Movimento das Forças
Armadas (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver), considerou que ainda
há metas a cumprir e que, apesar de já não haver colónias, alguns
discursos políticos contra a imigração podem prejudicar o país: “Parece
que ainda temos colónias”.No mundo
laboral, entende que ainda não há uma democracia efetiva entre homens e
mulheres. “As mulheres são as que ganham menos, mesmo com as mesmas
credenciais do que os homens”, o que se reflete depois no valor das
reformas, disse.Regina Tavares da Silva,
que acompanhou o desenrolar da revolução em Coimbra, onde se encontrava a
fazer um segundo curso, sustentou que as mulheres foram “profundamente
discriminadas e mal tratadas com o apoio da legislação que existia” e
concordou que não há progressos irreversíveis.
A investigadora sublinhou que o isolamento imposto para travar a
pandemia de covid-19 representou uma “particular dificuldade para as
mulheres”. Até a igualdade salarial
regrediu, apontou, referindo dados de um barómetro internacional (Global
Gender Gap Report), segundo o qual, ao ritmo atual serão necessários
132 anos para atingir a equiparação entre homens e mulheres. As guerras,
a violência contra as mulheres e a violação como arma de guerra foram
igualmente apontados pela investigadora, que se dedicou à defesa dos
direitos humanos das mulheres no plano internacional e gostaria de ver a
dimensão de género incluída em todas as políticas.Celeste
Correia, ex-deputada à Assembleia da República pelo PS, natural de Cabo
Verde, falou das dificuldades que ainda enfrenta no trabalho contra a
mutilação genital feminina junto de comunidades minoritárias na
sociedade portuguesa. Ainda assim,
enalteceu as conquistas alcançadas desde a primeira visita a casa dos
sogros, quando se deparou com o sogro a lavar a loiça com um pano na
janela para os vizinhos não verem.