2,4 milhões de raparigas privadas do ensino secundário desde o regresso dos talibãs ao poder

Afeganistão

Hoje 17:29 — Lusa/AO Online

"Se a proibição persistir, cerca de quatro milhões de raparigas poderão (ficar) privadas (do ensino secundário) até 2030", indicou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) num novo relatório, no qual apontou que os novos números representam que mais 200 mil raparigas foram afastadas das salas de aula em comparação com 2025, quando o número global rondava os 2,2 milhões.No mesmo documento, a UNESCO acrescentou que “estas restrições anulam duas décadas de progressos no acesso à educação", uma vez que o número de raparigas escolarizadas no ensino secundário, muito limitado em 2001 (ano em que o regime talibã foi derrubado por uma intervenção militar liderada pelos Estados Unidos), tinha aumentado para quase um milhão em 2021."As mulheres e as raparigas afegãs têm o direito de aprender, é um direito humano fundamental. Têm o direito de trabalhar. Devem usufruir da liberdade de circulação (...) sem serem obrigadas a estar acompanhadas ou vigiadas, nem sujeitas a proibições nas suas comunidades", afirmou Hoda Jaberian, coordenadora de programas para a educação em situações de emergência da UNESCO, durante uma conferência de imprensa."A UNESCO condena uma vez mais as discriminações contra as mulheres e as raparigas e apela ao restabelecimento imediato e incondicional do seu direito à educação", acrescentou, apelando "ao mundo para não desviar o olhar".Estas discriminações inserem-se numa crise mais ampla do setor educativo: mais de metade das crianças em idade de frequentar o ensino primário estão totalmente fora da escola, e mais de 90% das crianças de 10 anos não sabem ler um texto simples.As dificuldades são agravadas pela falta de água potável, instalações sanitárias e aquecimento nas escolas, mas também pelas catástrofes naturais (entre sismos e inundações) que atingiram o país por várias vezes nos últimos anos."O sistema educativo afegão está atualmente sujeito a uma pressão demográfica crescente", com o regresso voluntário ou forçado de mais de sete milhões de afegãos desde 2023, especificou a UNESCO.O Afeganistão destaca-se como o único país do mundo onde o ensino secundário e superior é estritamente proibido às raparigas e às mulheres, recordou também a organização.Se estas proibições persistirem, representariam para o país, que já atravessa uma grave crise económica, uma perda de receitas acumulada estimada em 9.600 milhões de dólares (cerca de 8.320 milhões de euros) até 2066, segundo a UNESCO.