15 milhões de euros é quanto o governo regional afeta ao desporto em 2019
28 de abr. de 2019, 14:00
— Arthur Melo
A época 2018/2019 ainda não terminou,
é certo, mas já é possível aferir o número total de atletas
federados na Região e a respetiva taxa de participação desportiva?Como é sabido existem diferentes
épocas desportivas de acordo com as opções e as especificidades
próprias de cada modalidade. Tradicionalmente os desportos coletivos
e algumas modalidades individuais possuem épocas que abrangem dois
anos civis, mas existe um número muito elevado de modalidades
individuais que organizam a sua época de acordo com o próprio ano
civil. Tal facto origina que quando uns terminaram a sua época,
outros estão ainda a meio da mesma. Esta realidade leva a que os
elementos de caracterização da prática desportiva federada apenas
fiquem disponíveis na sua globalidade sempre com algum desfasamento
temporal.
Neste momento estamos em fase de
conclusão dessa caracterização relativamente às épocas
desportivas de 2017/2018 (nas modalidades que abrangem partes de 2
anos civis) e 2018 (nas modalidades com época coincidente como ano
civil).
Este é um processo sempre
relativamente lento uma vez que para além da disponibilização dos
elementos da designada demografia federada por cada associação de
modalidade processa-se sempre uma validação dos mesmos junto da
respetiva federação.
Esta consistência dos dados entre os
relatórios associativos e os relatórios federativos tem sido uma
preocupação constante dos últimos anos no sentido de garantir que
os elementos de caracterização que são apresentados pela Direção
Regional do Desporto são coincidentes com os que se apresentam a
nível nacional.
Este processo de validação tem sido
muito útil do ponto de vista da afirmação das nossas associações
no contexto nacional uma vez que ele tem permitido identificar lapsos
e resolver questões pendentes com federações, bem como um melhor
conhecimento mútuo da realidade.
Neste momento os dados não estão
ainda totalmente fechados, o que se espera possa ocorrer bem como a
sua habitual divulgação, durante o mês de maio.
De qualquer das formas, convém não
esquecer que a Região tem conseguido divulgar bem mais rapidamente
estes elementos relativamente ao que ocorre a nível nacional e esta
prática de tornar pública a realidade da prática desportiva
federada é seguramente um fator de valorização do trabalho
desenvolvido pelas nossas modalidades.
Pelos elementos já disponíveis o
número de atletas federados deverá estar em linha com os últimos
anos e com a tendência prevista de ligeira redução.
Estes números têm registado grandes
oscilações nos últimos anos ou têm-se mantido?
A DRD possui recolha de dados relativos
à demografia federada desde há cerca de 25 anos se bem que de uma
forma consistente e formalmente melhor adaptada à realidade do
desporto federado desde 2003.
Esta sistematização permite-nos ir
acompanhando a evolução das diferentes modalidades e nas diferentes
vertentes o que é um contributo enorme para a tomada de decisão
sobre o desporto seja por parte das entidades públicas seja do
próprio associativismo desportivo.
No fundo é um contributo de
conhecimento para a história e a evolução do desporto nos Açores.
Podemos identificar claramente um
primeiro momento até ao final dos anos 90 do século passado em que
a prática embora competitiva era muitas vezes efetuada em contexto
fora das estruturas federativas.
Um segundo momento no início do século
onde se cimenta a lógica e a coerência com a integração
federativa e se promovem de forma acentuada o aumento do número de
praticantes federados.
Desde 2007 que a Região possui mais de
20.000 praticantes federados e desde 2011 acima ou muito perto de
23.000 o que nos permite entender os últimos 10 anos como de
equilíbrio e estabilidade.
Não podemos no entanto deixar de olhar
para este números de uma forma conjugada com as variações
demográficas da nossa sociedade, genericamente caracterizada por um
envelhecimento da população e nos últimos anos por uma redução
do número de crianças. É também sobejamente conhecido e assumido
por um lado que a sociedade está a transformar-se de forma rápida
onde se acentuam estilos de vida pouco propiciadores da atividade
física e por outro despontam a utilização de outras formas do
Desporto que não apenas o desporto federado.
É por este contexto e nesta
previsibilidade que para o presente Ciclo Olímpico se desejou
fundamentalmente a manutenção do número de praticantes federados,
admitindo alguma regressão, mas por outro lado se pretende valorizar
a atividade física desportiva, a qual não se expressa através das
federações.
O que tem aumentado nos últimos anos é
o número de atletas femininos e respetiva taxa de participação?
Que motivos encontra para explicar este aumento?
Desde 2008 que a proporção
Mulheres/Homens no total de atletas federados tem variado muito
ligeiramente sendo cerca de 30% a prática feminina. As variações
absolutas do número de licenças não são significativas para serem
consideradas. São em cada ano variações que não parecem ter
significado para se poder apontar uma tendência diferenciada por
género. Pelo contrário, julgamos que estamos em ambos os casos
perante cenários de estabilidade com ligeiras flutuações anuais.
Outro dos bons indicadores que o
desporto açoriano tem registado é o aumento de atletas no desporto
adaptado, com relevo nas prestações desportivas alcançadas a nível
nacional e internacional. O trabalho desenvolvido pela Direção
Regional do Desporto junto das associações de modalidades está a
dar o resultado esperado?
O projeto de desenvolvimento do
Desporto Adaptado foi lançado em 2002/2003 e desde a primeira hora
que teve, felizmente, o acolhimento das instituições que se
dedicavam ao trabalho com a população deficiente.
Desde essa primeira hora que imaginámos
que o desenvolvimento do desporto adaptado passaria em primeiro lugar
pela criação de mais e melhores oportunidades de prática
abrangentes e variadas e que a pouco e pouco, de uma forma natural,
se verificaria progressivamente a entrada no mundo das competições
oficiais, visando o rendimento desportivo, mas sem que essa
participação competitiva formal fosse um entrave à prática da
atividade física desportiva regular como forma de promover a
qualidade de vida dos cidadãos e a sua cada vez maior e mais plena
integração.
Foi dessa forma e com naturalidade que
se deu o movimento de participação em competições regionais e
nacionais, seguida até de brilhantes participações internacionais
que a todos devem encher de orgulho.
Não podemos deixar de relevar a
participação nos últimos jogos Paralímpicos de uma atleta formada
nos Açores, treinada por uma conceituada treinadora da Região e
representando um clube Açoriano! Esse foi sem dúvida um momento de
elevado orgulho e satisfação.
Felizmente e atualmente, várias das
nossas associações vêm com naturalidade e organizam de forma
totalmente integrada as competições dos nossos atletas oriundos do
atletismo adaptado no seu calendário competitivo.
Orgulha-nos ainda, e muito, que no
atletismo se verifique a cada vez maior adesão a este projeto de
desenvolvimento por parte de jovens, dando assim lugar a um percurso
verdadeiramente formativo de atletas. Teremos certamente no futuro um
desporto adaptado integrado e com percursos formativos e
participações competitivas de relevo e de acordo com as suas
capacidades e potencialidades.
Mas nunca tivemos e não teremos no
futuro uma visão condicionada pela vertente competitiva e pelos
resultados. Pretendemos, isso sim, que haja oportunidades de prática
para todos, num ambiente de qualidade e que seja naturalmente
reconhecido e valorizado pela sociedade açoriana. O Desporto é
importante na vida de todos independentemente das suas maiores ou
menores e capacidades.
Por fim gostaríamos de acrescentar a
tudo isto, o momento muito especial para todos que foi a Gala do
Desporto Açoriano realizado em 2018 na Ilha Terceira em que foi
entregue o galardão do “Atleta que no ano de 2017” à atleta Ana
Filipe que foi considerada pelo conjunto dos órgãos de comunicação
social como sendo aquela que mais se evidenciou pelos resultados de
excelência obtidos.
‘Desporto para todos’ é mais do
que um slogan nos Açores: é uma realidade, atendendo a que a
promoção de hábitos de vida saudável com a prática de exercício
físico é o principal objetivo do governo. De que forma é feita
esta aposta?
A lógica de desenvolvimento desportivo
que temos expressa no Programa de Governo aponta claramente para que
haja um reforço da atenção para com a atividade física
desportiva, mas sem se descurar o desporto federado. Deseja-se que se
possa contribuir para a existência de oportunidades e condições de
prática ao longo de toda a vida.
Assume-se como de particular incidência
a prática desportiva nas crianças e jovens, pois são idades
fundamentais para a aquisição de hábitos. Acreditamos que as
crianças que forem competentes, confiantes e motivadas para a
atividade desportiva serão, seguramente adultos mais ativos e
autónomos.
Para além dos programas de promoção
da atividade junto de crianças e jovens e que vão desde as
Escolinhas do Desporto, ao apoio ao treino e competição, não
deixando de apoiar aqueles que não pretendem entrar no mundo da
competição, relevamos o importante papel de divulgação que o
Desporto Escolar possui, não só como complemento da atividade
curricular e contributo para o “Prosucesso”, mas também pelas
primeiras experiencias de atividade organizada que possibilita.
Ao nível das instalações desportivas
propriedade da Região e mesmo em momentos de grande densidade de
utilização por parte do desporto federado, tentamos sempre
encontrar oportunidade de cedência para atividade informal e mais
importante, criamos e incentivamos outros a criar novas valências,
oportunidades e espaços adequados para atividades individuais por
parte da população em geral, como é por exemplo a “rede regional
de estações de atividade física de ar livre” e a criação de
espaços especificamente destinados à atividade física desportiva
nas nossas instalações.
Incentivamos a organização de grupos
integrados ou não, nas estruturas associativas cedendo instalações
gratuitas através do programa Açores Ativos.
E acompanhando uma nova realidade, que
cada vez mais se afirma na Região, e que abrange um número cada vez
maior de clientes, procedemos à regulação do mercado de prestação
de serviços desportivos, seja nos vulgarmente designados “Ginásios”,
“health clubs” ou outras designações, emitindo os
licenciamentos necessários, seja para os seus Diretores Técnicos,
seja para os seus Técnicos de Exercício Físico e vigiamos o seu
funcionamento nos termos da lei.
Finalmente e numa faceta por vezes
pouco valorizada, através dos nossos Serviços de Desporto,
acompanhamos e incentivamos essa prática, seja através de
organizações diretas de atividades, seja na colaboração técnica
com diversas entidades.
Anualmente, no Plano e Orçamento da
Região, que fatia do orçamento cabe ao desporto açoriano?
O valor afeto à DRD corresponde em
média anual e ao longo da presente legislatura a 0,96% do orçamento
global da Região.
Em concreto e relativamente ao ano de
2019 o valor ascende a um total de 15.053.400,00 euros dos quais
10.975.000,00 correspondem a investimentos e 4.078.400,00 são
relativos ao funcionamento dos serviços centrais e de todos os
Serviços de Desporto de ilha, incluindo as instalações desportivas
geridas diretamente por estes.
Ao nível das infraestruturas
desportivas, os Açores estão dotados dos melhores equipamentos? Que
tipo de investimentos podem e devem ser realizados no futuro?
O aumento do número de instalações
desportivas disponíveis na Região tem sido absolutamente
considerável, fruto também do investimento efetuado,
fundamentalmente, entre 1998 e 2016. Em 1998 contávamos com cerca de
400 instalações desportivas artificiais, verificando-se um aumento
superior a 100%, até 2016, ultrapassando, neste momento, as oito
centenas.
Para além da construção de novas
instalações desportivas, foram efetuadas beneficiações e
requalificações que permitiram manter um nível de qualidade das
instalações desportivas que tem respondido à totalidade do espetro
desportivo açoriano, desde o Desporto para Todos até ao Desporto de
Alto Rendimento.
Assim, e independentemente da evolução
generalizada ao nível do número das diferentes tipologias de
instalações, o aumento da sua qualidade e da sua adequação às
condições de prática é, também, inegável.
Esta evolução e no que respeita às
instalações propriedade do Governo teve origem nas opções de
política das construções desportivas escolares que na sua conceção
foram pensadas para servirem não só a comunidade escolar, mas
também para ficarem ao serviço da população, quer para o treino e
competição, quer para a promoção da atividade física desportiva.
Tal não significa que estejamos
satisfeitos ou que não necessitemos de mais instalações
desportivas. A questão é que o volume financeiro envolvido quando
falamos de infraestruturas é sempre elevado e o facto de para o
atual quadro comunitário de apoio não estarem disponíveis verbas
para este tipo de investimentos condiciona a que as novas construções
sejam suportadas exclusivamente pelo orçamento da Região.
Por isso os recursos estão
direcionados fundamentalmente para garantir intervenções de
qualidade que visem melhorar as condições de operacionalidade
através de ações de manutenção, de beneficiação e de melhoria
da eficiência energética, o que tem sido uma constante.
O projeto Ética no Desporto Açores
foi implementado há alguns anos na Região e ainda recentemente foi
atribuído o primeiro troféu de Ética Desportiva nos Açores, em
concreto ao Sporting Clube Ideal. Mudar mentalidades requer tempo e
paciência, mas nesta fase, já são visíveis frutos desta aposta no
desporto açoriano?
Efetivamente todas as mudanças que
passem por alteração de comportamentos sociais são
reconhecidamente lentas.
O que pretendemos é fundamentalmente
despertar consciências, alertar para um conjunto de comportamentos
que embora não sejam caracterizadores do Desporto Açoriano ou da
nossa vivência social, começam e até por efeito de arrastamento
com outras áreas territoriais, a ter alguma expressão entre nós.
Queremos um desporto centrado em
valores, um Desporto que assegure o reconhecimento social do mesmo
sublinhando a sua importância no desenvolvimento humano, valorizando
os seus princípios de ética, de integração, de tolerância e de
colaboração.
Queremos um Desporto Açores que seja o
reflexo e a imagem da sociedade Açoriana, organizada, tolerante,
resiliente e cada vez mais moderna e ganhadora.
A luta pelos valores éticos do
desporto é uma luta que deve ser assumida por todos e não só pela
estrutura governativa! Os clubes, as associações, a comunicação
social e fundamentalmente cada um de nós enquanto cidadãos, seja
como atletas, seja como Pais ou como simples espetadores temos o
dever de contribuir para este objetivo.
A finalizar, como caracteriza o
desporto açoriano e quais as suas principais virtudes.
O Desporto nos Açores como em qualquer
parte do mundo é e deve ser o reflexo da organização da sociedade.
O Desporto Açores é solidário,
aberto a todos, mas também cada vez mais competitivo.
Muito variado, pelo enorme conjunto de
oportunidades de prática à disposição.
É cada vez mais uma forma de afirmação
da nossa identidade e fruto de uma relação muito próxima entre
entidades e instituições.
O Desporto Açores é um valor social,
e creio que a maioria da nossa população nele se revê.