Uso do capacete por crianças ciclistas é deficiente


 

Lusa/ Ao On line   Nacional   4 de Jan de 2010, 05:25

Um estudo inédito apurou que apenas “um número ínfimo” de crianças utiliza capacete quando usa bicicleta e defende que esta falta seja encarada como “uma forma de mau trato” e de “exposição desnecessária” ao perigo.

A investigação foi conduzida por alunos finalistas de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e, segundo disse à agência Lusa Sofia Ramiro, uma das autoras, visou abordar um tema que “ainda não tinha sido explorado em Portugal”.

Os autores concluíram o que já suspeitavam: apenas “um número ínfimo” de crianças com idades entre os cinco e os 14 anos usava capacete, uma situação que ainda é “mais dramática” por o capacete reduzir o risco de traumatismo craniano em 88 por cento.

Num acidente de bicicleta, as lesões dos tecidos moles e músculo-esquelético são as mais comuns, embora os traumatismos cranianos sejam responsáveis pelo maior número de mortes e incapacidades permanentes.

Para chegarem a esta conclusão, os autores aplicaram questionários a uma amostra de cem crianças e respectivos encarregados de educação, além de observarem os menores como ciclistas.

De acordo com os resultados, publicados na edição Acta Pediátrica Portuguesa, apenas 37 das cem crianças usavam capacete e, destas, somente oito o tinham bem colocado e respeitando as condições de segurança.

As outras 29 crianças (78 por cento das que usavam capacete) apresentavam uma ou mais irregularidades, sendo o erro mais vezes cometido o desnivelamento do capacete (65 por cento).

Foram igualmente detectadas irregularidades ao nível do fecho e correias em 62 por cento das crianças e o desrespeito pela distância sobrolho-bordo inferior do capacete em 54 por cento das crianças. Quase metade (49 por cento) não tinha o capacete bem ajustado.

“É um dado muito preocupante em matéria de segurança infantil”, disse à Lusa Sofia Ramiro, actualmente a exercer na especialidade de Reumatologia, no Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Esta médica salienta que o incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte, que se traduz na construção de várias ciclo vias em Lisboa, bem como em outras cidades, deve ser acompanhado de medidas de promoção do uso do capacete.

“Se as crianças vierem a utilizar a bicicleta como meio de transporte de casa para a escola, como acontece em outros países, ficam mais expostas a perigos maiores, a começar pela proximidade com as outras viaturas”, disse.

Os autores defendem a delineação de “estratégias que fomentem a compra e o uso do capacete”. “É imperativo que as crianças adquiram, desde cedo, a noção de que são vulneráveis e que têm que condicionar os seus comportamentos consoante os riscos a que estão expostas”.

Os autores destacam o “papel fundamental” dos pais na educação das crianças, nomeadamente no incentivo para o uso do capacete.

“Considerando a cadeia de informação estabelecida, acreditamos que uma intervenção, nas lojas de bicicletas, possa optimizar a prestação de informação, ou seja, a promoção do uso do capacete”, lê-se no estudo.

Os autores defendem ainda “medidas direccionadas aos pais e às crianças” e pretendem que o andar de bicicleta sem capacete seja social e criminalmente tão “inaceitável como deixar uma criança de três anos atravessar uma estrada sem acompanhante”.

“Não usar capacete deve ser encarado como uma forma de mau trato e exposição desnecessária a um perigo que pode trazer consequências graves para a criança”, defendem.


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