Entrevista

Tremor: o 'swinger' que faz a revolução por via dos "discursos do mundo"

Tremor: o 'swinger' que faz a revolução por via dos "discursos do mundo"

 

Miguel Bettencourt Mota   Cultura e Social   8 de Mar de 2018, 21:00

António Pedro Lopes, co-diretor artístico do Tremor faz o balanço do que ficou de quatro vidas de Tremor, agora que se vai celebrar a quinta, entre 20 e 24 de março. A nova edição vem com "risco", com "fé" e traz os discursos e as visões do mundo para agitar a resignação. Há novo convite ao diálogo, a construir em conjunto, e um programa vasto para "atender a gostos, interesses e curiosidades diferentes". Para quem vai, implica aventura e selecionar por entre as opções...Mas não é o que se pretende de "uma experiência de escolhas e de encontros"?   




Há algumas edições atrás falava com o Açoriano Oriental sobre o Tremor e confessava querer ver uma população de "mãos dadas a dizer: ‘bora lá’! Vamos rebentar com tudo de forma construtiva". Sente que isso já acontece?

Acho que sim, mas estou ciente de que este é um trabalho que nunca acaba. Julgo que todos os anos chegamos a públicos novos, procuramos contar histórias novas e envolver pessoas novas. Depois, do ponto de vista do público, também é sempre surpreendente registarmos que há cada vez mais pessoas a fazerem parte do corpo do festival.

E quanto à ideia de que o festival era um evento vocacionado "para neo-hippies" e pessoal de "óculos de massa"... Já foi vencida?

[risos] Espero que sim. Eu, pelo menos, já não penso nesses clichés, ou nesses preconceitos. O Tremor é o que é. A partir do momento em que decidimos incorporar uma banda filarmónica, percebe-se que não existem limites e que tudo é possível. Percebe-se que há um interesse neste festival em encontrar caminhos de exploração e colaboração; de entender como se pode dialogar e construir em conjunto. Portanto, o público é mesmo diferente...

...Acha que está mais receptivo?

Acho, acho. Julgo que dá para ver as mudanças e as pessoas novas que são desta terra e, ainda assim, aparecem passados cinco anos e dizem que é primeira vez que estão no Tremor. É com alegria que vejo alguém de Ponta Delgada entrar no Auditório Luís de Camões e dizer: 'não sabia que isto existia, que bonito'. Cenários como esse vejo-os todos os anos...Não digo que o público se renove – há claramente uma fidelidade – mas vejo que o festival vai agregando.

A dada altura parecia que tínhamos um festival aberto a beber de uma Região e a enriquecê-la, mas, em sentido contrário, alguma relutância por parte dela em abrir o seu coração a algo novo, diferente? Concorda?

Sim, sobretudo no primeiro ano. Hoje, já não sinto isso. Sinto mais um 'abre a porta', 'vem', ou 'quero participar'. Mas como o festival é elástico, isto nunca acaba. Ele procura sempre novos parceiros, novos artistas e lugares para intervir, assim como novos relacionamentos com restaurantes e hotéis...Isto é como um grande 'swing' [risos]...Estamos sempre a brincar com novos amigos e a experimentar novas formulações, novas propostas...Há sempre lastro de resistência, mas também já há – e cada vez mais – uma grande abertura. Julgo que isso se deve à criação de um historial de confiança...Há um dar, mas também há um receber.

Este festival visa, de alguma forma, mexer com o atual paradigma cultural nos Açores?

Sim, mas acho que ele já o faz e não o faz sozinho. Existem projetos e espaços como a La Bamba Bazar Store, Yuzin, o Arquipélago, a Fonseca Macedo, o Walk & Talk, o Arco 8, o Raíz, e há artistas que não param de aparecer. Acho que este projetos todos (e sei que me estou a esquecer de outros) trabalham, pelo menos, para fazer este lugar mais interessante e feliz, permitindo-se a experimentar. Aliás, é incrível quando os lugares e as pessoas permitem ser virados ao contrário... A experimentarem! Acho que nós trabalhamos muito nessa reconfiguração das relações. Há aqui uma horizontalidade; não há uma zona VIP, toda a gente partilha um espaço...Muitas vezes o 'grande patrão', todo 'XPTO', que desfila o seu Mercedes na Avenida, está ao lado do senhor que trabalha na secção do lixo na Câmara Municipal de Ponta Delgada. Aliás, há mesmo um senhor que trata do lixo que vem ao Tremor todos os anos e não conhece nenhuma banda! Fá-lo desde que, na primeira edição, viu formar-se uma fila de autocarros a caminho do Tremor Estufa.

Isso não é contribuir para uma revolução cultural?

Se isso é fazer parte de uma revolução cultural? Eu acho que sim. A revolução acontece na rua, com as cidades e com as pessoas. Não acontece na televisão...Como disse Gill Scott-Heron, "The Revolution will not be televised!" O Tremor é um projeto cultural e se ainda não mudou convenções, ao menos mostrou possibilidades.

Olhamos às várias ediçõe e vemos, por exemplo, artistas transgéneros a constar do cartaz. Isto tem uma preocupação para além da artística? Há aqui uma intenção em convocar a população para algumas sensibilidades, que os meios mais pequenos são sempre mais avessos a contemplar?

Claro que sim. O Tremor não abre só portas na forma como se torna operacional na cidade, ou na relação com quem ajuda a erguê-lo. Ele também pretende abrir cabeças quando apresenta um programa e determinados artistas. Sobretudo, quando esses mesmos artistas trazem o discurso do mundo, que pode ser orientado pela sua identidade, género, pela forma como se encenam, como pensam a música ligada à performance, as artes visuais, e como fazem disso um gesto político.

Acha que o efeito do festival caduca a cada edição e apenas se rejuvenesce com a chegada de uma nova, ou já sente alterações concretas no próprio quotidiano da ilha e que derivam das próprias réplicas do Tremor?

Eu acho que ao convocar artistas como Baby Dee, Mykki Blanko, Mal Devisa, O Gringo Sou Eu é dar espaço a que pensamento se crie, a que se abra espaço à diferença, à igualdade e que se abra lugar à possibilidade de o público expandir mundos. Julgo que do ponto de vista local há réplicas, porque depois começo a ver o discurso desta ideia a acontecer noutros locais. Começo a ver certos lugares a acolherem artistas que dantes não acolhiam e ver que os artistas de São Miguel começam a ter um espaço mais próprio e que não estão propriamente a tocar 'covers' para encher o bar. Não! Estão a tocar a sua própria música e a estabelecer o seu próprio roteiro. Também acho que há um lado que se caduca e que tem a ver com a contingência temporal do festival e que sentimos, enquanto grupo, que ele precisava de continuidade (…) Portanto, tanto sinto os impactos que vão ficando, como sinto a necessidade de se dar um passo diferente.

E esta quinta edição, o que tem para espicaçar e trocar as voltas às pessoas?

Essa é uma questão difícil. Mas, se calhar, destacar artistas que pensam o festival de uma forma total, na dimensão do cenário, de figurino, de vídeo, da transformação de sítios, e indo além da música. Bandas como os Snapped Ankles, Zulu Zulu, Lone Taxidermist, o Mykki Blanko, ou os The Parkinsons (…)

Em que fase é que o festival se encontra? De afirmação?

Tendo em conta que, no terceiro ano do festival, nós assumimos este formato de cinco dias, penso que estamos numa fase de afirmação. Nesse terceiro ano tínhamos cinquenta concertos só no sábado…Este ano, teremos cinquenta concertos na semana toda. Penso que nos equilibrámos e 'auto-ensinámos'. No ano passado houve uma adesão muito grande do público e nós ficámos com dores de crescimento. O quinto ano penso que será a edição para cimentarmos esse formato de cinco dias e de percebermos como continuamos a renovar esta forma de nos surpreendermos e de convidarmos os outros a se surpreenderem com o quão incrível é São Miguel, a nossa comunidade e com o que isto tudo pode junto.

Quais são as vossas limitações ao nível de apoios?

A nossa limitação prende-se muito com as definições do primeiro trimestre do ano. É um momento determinante para o público e para o privado, já que muitas coisas estão só a começar no ano económico desses sectores. Lidamos com muita incerteza sobre que apoios realmente teremos. Todos os anos tem sido assim. Isso implica uma jigajoga que nunca acaba…Implica risco…Implica fé [risos].

Mas já se sentaram e falaram com quem tem capacidade para vos ajudar e explicaram que podem construir algo melhor se souberem de antemão com que apoios contar?

Já, mas também compreendemos que das outras partes também é complicado. A única coisa que a gente pode melhorar na nossa relação é falar mais cedo. Falar das nossas ideias quase tão depressa quanto acaba uma edição e aproveitar o facto de o Tremor estar ainda na memória. Nós, aliás, trabalhamos nisto o ano todo! A única possibilidade é assumir que é mesmo assim, apesar das dificuldades todos do ponto de vista financeiro, porque o festival não tem uma estrutura profissionalizada, todos temos as nossas vidas. Trabalhamos no Tremor, somos pagos, mas não é ele que nos paga a vida. Nem de longe, nem de perto! Há um amor e um esforço muito grande para poder fazer isto acontecer. Mas também digo que, paulatinamente, tem tudo melhorado.

 Como é que se garante que este festival não acaba, ou pelo menos, o seu legado?

Acho que montando equipa. Outra forma é garantir que os artistas continuam cá e que constroem a carreira a partir da Região. É preciso ver que estamos no meio do oceano, mas não estamos no fim do mundo! Nós temos equipamentos, condições, comunicação, e há estruturas com capacidade para providenciar apoios e espaços para os artistas…Se essas partes se juntarem todas, melhor. Em diálogo, isto pode criar aqui uma coisa realmente forte e ‘eruptiva’. E isso é um legado muito importante: pode acabar o Tremor um dia, mas aparece uma coisa logo ali. Quando se cria necessidade, pode-se ter o nome que quiser, a inspiração que for, mas ela tem de ser satisfeita. O festival, entretanto, acontece porque acontece nesta terra, ponto! Isto não é sobre o cenário e sobre a lagoa das Sete Cidades…Os lugares são incríveis, mas isto tem tudo mais que ver com a experiência, e nós somos um lugar que propõe experiências únicas e singulares.

Como está a decorrer a venda de bilhetes?

Bem, nós nunca vendemos tantos bilhetes …

Há o bom risco de esgotar?

Metade da equipa acredita que sim, outros ainda estão a ver [risos]. Esgotámos no primeiro ano e na última edição foi por um triz que não esgotámos. A nossa alegria é influenciada por isso, mas não depende disso. O que nós queremos é que corra tudo bem, antes de mais. Queremos ver o cruzamento de mundos em Ponta Delgada e Ribeira Grande.

Que ‘mundos’ estão já garantidos?

 Nunca tivemos tantos bilhetes vendidos do Porto e de Lisboa. Há pessoas que vêm da Amazónia [risos], de Inglaterra, França, Espanha, Itália, Polónia…Esses são os que vêm à cabeça, porque há pessoas a vir de todo o lado…

Corremos uma boa parte da essência do festival, falando sobretudo dos seus aspetos mais positivos. Em sentido contrário, o que regista de mais negativo? O que não gosta nele?

O que não gosto no Tremor?...[risos] Sei lá! Não é bem não gostar, mas gostaria que as pessoas escolhessem mais. Isto não é uma experiência 'bulímica', é uma experiência de escolhas e de encontros. Eu acho que não vale a pena tentar ver tudo. É bom escolher o que se vai ver, mesmo não sabendo ao que se vai! Assim vai ser melhor para todos e principalmente para os artistas. Temos cinquenta concertos...Se tentarem estar em 47,3 deles, não vai ser bom para ninguém. Isto não tem a ver com quantidade, a experiência está escrita para ser de qualidade. A quantidade que lá está é diversa e está lá apenas para atender a gostos, interesses e curiosidades diferentes.



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