Solidariedade é única arma contra fome de estudantes africanos

Solidariedade é única arma contra fome de estudantes africanos

 

Lusa   Nacional   27 de Out de 2007, 12:38

Alunos africanos a frequentar o Instituto Politécnico de Viseu vivem "tremendas dificuldades" por não terem acesso a bolsas nem às residências de estudantes, e sobrevivem graças à solidariedade de colegas e professores e de instituições da cidade
A fome que um estudante de um País Africano de Língua Oficial Portuguesa (Palop) sentia acabou um dia por superar a resistência imposta pela vergonha, quando pediu a uma professora que lhe pagasse pão e leite num supermercado.
A situação momentânea deste aluno ficou resolvida, mas revelou um problema que abrange dezenas de estudantes oriundos dos Palop colocados no Instituto Politécnico de Viseu (IPV).
Sem bolsas que permitam pagar a alimentação, as propinas (800 euros anuais divididos em quatro prestações) e o alojamento, Vanda Cabral, Carlos Alves e Ramaliel Neves, cabo-verdianos, descreveram à Agência Lusa as "tremendas dificuldades" que vivem para concluir os estudos em Portugal.
Não acusam ninguém por não terem dinheiro que lhes permita viver com o mínimo de comodidade, nem o Governo da Cidade da Praia (capital de Cabo Verde) que não lhes paga bolsas, nem o IPV por lhes negar o acesso às residências para estudantes.
"A lei é assim", lamentam, embora sublinhem que "com boa vontade" este problema poderia ser ultrapassado.
Só que a verdade, como explica Carlos Alves, de 29 anos, estudante de Marketing na Escola Superior de Tecnologia do IPV, "é apenas uma": muitos "passam fome", vestem-se com a "caridade de colegas e professores" e a Caritas de Viseu tem sido "uma grande ajuda" com a distribuição periódica de roupas e alimentos.
"Se ao menos pudéssemos ter acesso às residências para estudantes [do IPV] tudo seria mais fácil", diz Carlos Alves, defendendo que "se calhar falta alguma boa vontade", porque "neste momento não há um único estudante africano" nestes alojamentos.
Isto deve-se ao facto de serem cidadãos oriundos de fora do espaço comunitário e de o acesso às residências ter ainda como pressuposto - embora não seja o único - os estudantes estarem enquadrados no regime de atribuições de bolsas que, no caso de Cabo Verde, por exemplo, "já não acontece".
Só que, recorda Ramaliel Neves, finalista do curso de Engenharia Electrotécnica, há outros institutos politécnicos e escolas profissionais que permitem o alojamento nas suas residências, "a preços iguais ou inferiores aos pagos por estudantes europeus".
Por isso, oa alunos recorreram a uma lei que "está para lá da legislação", que é a "lei da boa vontade para com aqueles que têm mais dificuldades".
Vanda Cabral, 28 anos, a terminar o curso de Marketing, lamenta ainda que "nem sequer" seja possível trabalhar em part-time, porque a lei o impede e o "risco" de se ser descoberto é grande, colocando um travão na vontade que todos têm de amealhar "uns trocos" que lhes permitissem chegar mais folgados ao final do mês.
Uma das professores que mais se tem destacado no apoio aos estudantes africanos do Instituto Politécnico de Viseu, recentemente aposentada, é Maria da Graça Ramos, que garante à Lusa ter conhecimento de "situações avassaladoras" de alunos que "passam fome, não têm o que vestir no Inverno e todos os meses estão a um passo de ficar sem onde dormir".
Também esta professora aponta como solução uma maior abertura por parte do IPV, tanto no acesso às residências como na distribuição de senhas de refeição e, "como acontece noutros estabelecimentos de ensino", na diminuição das propinas.
A professora recorda que todos os anos há estudantes, alguns "excelentes", que deixam os estudos em Viseu e vão para Lisboa em busca de "outras oportunidades" porque "não aguentam tanto sofrimento".
Para ajudar a contornar o problema, foi aberta uma conta bancária onde a maioria dos professores e muitos colegas destes alunos depositam dinheiro que depois é distribuído em função das necessidades, "embora esteja longe de chegar para cobrir os problemas mais graves".
Outro truque a que estes alunos - maioritariamente cabo-verdianos, são-tomenses e guineenses - recorrem é a realização de refeições típicas dos seus países, como a "catchupa" das ilhas cabo-verdianas, feitas na cantina da escola.
O próximo passo vai ser a organização de um magusto e uma venda de Natal que permita "mais uma folga" neste "aperto".
O presidente do IPV, João Pedro Barros, afirma estar informado sobre as "difíceis situações" por que passam estes alunos, lamenta "profundamente", mas garante estar de "mãos atadas" para ir ao encontro das suas necessidades.
O responsável explica que, de acordo com a lei, apenas os alunos do contingente normal têm acesso às residências, e as "inspecções sucessivas não deixam margem de manobra".
O que implica que aqueles que "vêm por sua iniciativa e desenquadrados dos regimes normais de bolsas" não possam aceder a este tipo de regalias, descreve.
"É lamentável", aponta Barros, que lembra ainda que já deu entrada nos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia um projecto de protocolo especial, designado contingente especial, de forma a "desbloquear este situação", mas "até hoje ainda não houve resposta".
O presidente do IPV sabe que há "casos dramáticos", algumas situações em que "alunas já admitiram poder recorrer à prostituição", mas, sublinha não haver "forma de contornar isto", além de pequenas atenções circunstanciais, garantindo à Lusa que já pagou do seu bolso as propinas a um aluno.
Garante ainda que este é um problema nacional e que as excepções, como é disso exemplo o Instituto Politécnico de Leiria, foram conseguidas através da celebração de acordos especiais com o Governo, "idênticos àquele que o IPV também está a tentar".

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