Paroquianos enchem igreja onde há uma semana foi detido padre Guerra


 

Lusa/AO Online   Nacional   1 de Nov de 2009, 13:44

Covas do Barroso amanheceu hoje envolta num intenso nevoeiro e ao som da missa das 07:00 celebrada pelo padre Fernando Guerra na mesma igreja onde foi detido pela GNR na semana passada por posse de armas ilegais.

Foram muitos os paroquianos que encheram a igreja matriz de Covas do Barroso, concelho de Boticas, talvez porque hoje é feriado e se assinala o Dia de Todos os Santos, que é aproveitado para recordar os familiares ou amigos já falecidos.

Os olhares dos habitantes desta aldeia de montanha escondem-se e os rostos viram-se quando abordados pelos jornalistas que há uma semana ali se deslocam quase diariamente. São poucos os que aceitam falar e, à porta da igreja, os que o fazem é para defenderem o sacerdote detido em plena sacristia pelo Núcleo de Investigação Criminal de Chaves

E não é por terem um padre arguido que os paroquianos deixaram de ir à igreja.

“Todos os domingos venho à missa. Não achei bem o que lhe fizeram, não merecia. Fiquei com pena dele porque é uma pessoa competente e sempre atenta”, afirmou Maria Celina.

Lúcia Belo Esteves é da mesma opinião. “A mim não me afectou nada ele ter sido preso. Só tenho a dizer bem dele enquanto padre porque é um bom homem”, salientou.

Quanto às armas de fogo encontradas na casa do sacerdote, esta paroquiana disse nada saber porque nunca entrou na sua casa, nem nunca o viu com armas. “Sempre me ajudou e é tudo o que tenho para dizer”, acrescentou.

Na celebração da missa em Covas, o padre Fernando Guerra limitou-se à leitura da liturgia e, no final da cerimónia, pediu aos jornalistas para o deixarem seguir, afinal durante a manhã ainda teve que percorrer as aldeias de Alturas, Canedo e Vilar.

“Eu já vos dei todas as explicações que me pediram, agora agradecia que me deixassem seguir”, salientou.

O sacerdote afirmou estar de consciência tranquila e insistiu na sua “inocência” já que, segundo alegou, apenas uma das seis armas apreendidas pela GNR na Casa Paroquial está ilegal. Trata-se de uma pistola que, explicou, lhe foi deixada em herança pelo pai.

Sacerdote há 30 anos em Covas, Fernando Guerra garantiu que nunca pensou em desistir de ser padre e afirmou que vai aguardar serenamente pela conclusão do processo.

“Todos sabem o que sou e como sou”, salientou.

À pergunta sobre se não tem medo de que a polémica detenção afaste as pessoas da igreja, o padre apenas respondeu: “vejam a quantidade de pessoas que hoje aqui estiveram. Durante a semana são menos porque têm o seu trabalho para fazer”.

O sacerdote celebra a missa praticamente todos os dias na aldeia de Covas do Barroso e conta com o apoio do bispo de Vila Real para se manter à frente das suas paróquias.

No dia 25 de Outubro, a GNR cumpriu quatro mandados de busca que resultaram na detenção de quatro homens e na apreensão de 16 armas de fogo entre pistolas, revólveres e caçadeiras, milhares de munições, engenhos pirotécnicos e pólvora seca.

Depois de ouvidos em tribunal, os quatro homens foram constituídos arguidos e ficaram sujeitos ao termo de identidade e residência, com apresentações semanais no posto da GNR de Boticas e proibidos de comprar ou usar armas de fogo.

Tão incongruente quanto o nome, Fernando dos Santos Guerra vai da conversa afável à crispação numa fracção de segundos.

Com um porte altivo, o olhar escondido atrás de uns óculos escuros que usa desde muito novo e sempre muito bem vestido, é um padre polémico cuja história, muitos disseram que “não vão ficar por aqui”.

E são muitas as histórias e as polémicas que os populares das aldeias vizinhas contam desde os tiros que se ouviam frequentemente junto à sua casa, supostamente para experimentar armas, a sova que deu ao sacristão, a verba elevada que dizem cobrar pelos serviços fúnebres ou a Casa do Santo, em Dornelas, que colocou uma aldeia inteira contra o padre.

O padre Guerra nasceu em Gralhas, concelho de Montalegre, frequentou o seminário de Vila Real, teve como primeira paróquia a aldeia de Codessoso, no concelho de Boticas, e durante quase três décadas foi professor de Religião e Moral durante cerca de 30 anos na escola de Boticas.


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