ONU é incapaz de pacificar a República Centro-Africana, diz analista

ONU é incapaz de pacificar a República Centro-Africana, diz analista

 

Lusa/Ao online   Internacional   18 de Ago de 2018, 11:47

A Organização das Nações Unidas (ONU) é incapaz de levar a paz à República Centro-Africana (RCA), sustentou um analista das relações internacionais, Robert Muggah, num artigo publicado esta sexta feira no sítio da revista Foreign Policy.

A violência organizada neste país, argumentou, é provocada por uma “mistura crescente de sentimentos legítimos de injustiça política com um descarado oportunismo económico”. Este tipo de conflito, “prolongado e de baixa intensidade”, envolve diversos grupos que disputam “poder e lucros”.

Para Muggah, estas situações, agravadas pela dificuldade de distinguir entre civis e combatentes e pela participação de grupos armados de países vizinhos, “são diabolicamente difíceis de conter, e muito mais de resolver”.

Portugal tem militares na República Centro-Africana, país que caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por vários grupos juntos na designada ex-Séléka (‘coligação’, na língua franca local), que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-balaka.

Muggah recorda que o país já teve cerca de “uma dúzia” de missões designadas de manutenção de paz, que alguns sugerem mesmo que evoluam para a ‘criação de paz’, iniciando a elencagem em 1998, com a então designada MINURCA. Mas, recordou, desde que atingiu a independência, em 1960, a RCA tem vivido de crise em crise.

É no quadro da atual Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA), criada em 2014, que Portugal está presente no país desde o início de 2017.

A MINUSCA é a maior missão até à data, com 14.700 efetivos, “com um mandato robusto para proteger civis e desmantelar grupos armados”. Mas Muggah salientou que a missão tem sido “circunspecta” na aplicação do seu poder militar, para evitar a deterioração da situação.

Recordou a propósito que as próprias forças da ONU, “como em muitas guerras modernas”, são um alvo em si mesmas. “Desde que começou a MINUSCA, 63 capacetes azuis morreram a tentar aplicar a paz”, salientou. Aliás, insistiu este analista, “o país tem a reputação de ser um dos mais perigosos para as operações humanitárias. (…) São atacados mais trabalhadores humanitários por ano na República Centro-Africana, do que no Afeganistão, no Iraque, na Somália ou na Síria”.

Vários acordos entre autoridades, com um espaço restrito de exercício de poder, e grupos armados (dezena e meia, em termos gerais) têm-se sucedido. Mas não têm saído do papel.

Muggah estima a existência de “centenas de milícias”, até em resultado de um ‘franchising’ (autorização de representação) da ex-Séléka e anti-balaka, para ganhos monetários.

Só a ex-Séléka consegue sete milhões de dólares (seis milhões de euros) por ano em taxas de passagem ilegais que aplica a pastores e camionistas, quantificou. E, acrescentou Muggah, pessoal da ONU admitiu que o contrabando de ouro e diamantes atinja as dezenas de milhões de dólares anuais.

Neste país, com conflitos internos muito localizados e segmentados e dois terços do território nas mãos das milícias, Muggah considerou que “a única forma de acabar com a guerra é uma resolução abrangente dos seus muitos conflitos armados através de arranjos políticos inclusivos”.

Até lá, destacou os vários acordos de nível micro, local, em que a ONU está empenhada, “que pode ser o que é possível”.

Em todo o caso, este analista deixou um alerta: “A RCA está no epicentro de uma rede regional de contrabando de diamantes, ouro, urânio, armas, gado e madeira. A sua anarquia cria um paraíso para os radicais da região e a violência na capital afeta milhares. Se este Estadio falhado não for estabilizado rapidamente (…) o pesadelo do país não vai ter fim”.

O conflito atual na RCA, que tem o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 700 mil deslocados e 570 mil refugiados e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

No início de julho, soube-se que o major-general do Exército Marco Serronha vai assumir o cargo de 2.º comandante da MINUSCA.

A que já é a 3.ª Força Nacional Destacada Conjunta, composta por 159 militares, dos quais 156 do Exército, sendo 126 paraquedistas, e três da Força Aérea, iniciou a missão em 05 de março de 2018 e tem a data prevista de finalização no início de setembro deste ano.

Estes militares compõem a Força de Reação Rápida da MINUSCA, têm a base principal na capital, junto ao aeroporto, e já estiveram envolvidos em quase duas dezenas de confrontos com grupos de milicianos.

Portugal também integra a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), que é comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

A EUTM-RCA, que está empenhada na reconstrução das Forças Armadas do país, tem 45 militares portugueses, entre os 170 de 11 nacionalidades que a compõem.

O artigo de Muggah está disponível em https://foreignpolicy.com/2018/08/16/the-u-n-cant-bring-peace-to-the-central-african-republic/#.



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