Açoriano Oriental
Novas regras da Batalha das Limas não afetam folia dos guerreiros

A Batalha das Limas decorreu na terça-feira à tarde entre barreiras e numa zona mais restrita da Avenida Infante D. Henrique, em Ponta Delgada, sob a égide de uma maior preocupação ambiental que deverá marcar, a partir de agora, este evento típico do Carnaval micaelense.


Foto: Açoriano Oriental/Eduardo Resendes
Autor: Carolina Moreira

Este ano, os painéis informativos davam conta da extensão do “campo de batalha”, delimitado com redes de proteção entre as Portas da Cidade e o fim do edifício Solmar, com o intuito de conter a contaminação do mar com sacos plásticos.

Com as novas regras implementadas, restava perceber qual seria a recetividade do público e dos participantes.

Ao longo da tarde, foi possível verificar a estranheza que aquela “zona de batalha” provocava a alguns espectadores, principalmente com mais idade, que recordavam as batalhas do seu tempo e o trabalho que dava fazer as limas.

Apesar disso, a folia dos “guerreiros” manteve-se inabalada ao longo de toda a batalha. Alguns afoitos atiravam sacos e balões de água para fora da vedação e as crianças que assistiam deliciavam-se com as “sobras” que caiam ao chão e não rebentavam. Os pais, atentos a toda aquela brincadeira, alertavam os filhos para a recolha dos plásticos do chão.

Também os turistas não resistiam a toda aquela azáfama e ficavam excitadíssimos quando se molhavam. Outros aproveitavam também os sacos “sobreviventes” para entrarem na brincadeira.

No “campo de batalha” estiveram oito equipas em camiões que garantiam que ninguém passava na avenida sem se molhar. A “guerra” era intensa sempre que os camiões se aproximavam uns dos outros e nem mesmo os “guerreiros” apeados se afastavam de uma boa “luta”.

Seguindo as recomendações da Câmara Municipal de Ponta Delgada, a “Santa Canalha” de Santa Clara, São José “Sempre Presentes”, os “Bombásticos” dos Bombeiros de Ponta Delgada e as equipas do Livramento, Fajã de Baixo, São Roque, “Bairro da Lata do Rosário” da Lagoa e “Tropa de Elite” de Santo António apenas utilizaram sacos plásticos. Além disso, também se disponibilizaram, durante as reuniões preparatórias, para participar na separação de resíduos e limpeza desta zona da cidade.

Para Cristiano Graça, capitão da equipa da Fajã de Baixo, a única mudança que importa este ano é o facto de “estarmos a trabalhar juntamente com a Câmara Municipal em relação à reciclagem”.

“Estamos a fazer bem, estamos a olhar pelo ambiente e pela natureza, com a reciclagem dos sacos, e estamos a fazer o melhor para agradar toda a gente”, ressalva.
Também Ricardo Pereira, da equipa de Santa Clara, diz tratar-se de uma “boa iniciativa”, já que “não queremos que a tradição acabe”. Segundo o líder do camião da “Santa Canalha”, “há que contornar certas situações para que a tradição continue. Acho que também é uma boa iniciativa por parte da Câmara colocarem redes de proteção em certas zonas para que os sacos não cheguem ao mar”, afirma ao Açoriano Oriental.

Falando sobre a hipótese de utilizar pistolas de água em vez de sacos de plástico, Ricardo Pereira afirma que “não faz sentido nenhum” e que “quem defende isso nunca participou num camião”. Para a equipa de Santa Clara, a preparação dos sacos plásticos faz parte do convívio entre os “guerreiros”, já que “o melhor da festa é esperar por ela”.

Já sobre a questão da delimitação do “campo de batalha”, Cristiano Graça salienta que “não interfere” com a festa. “Nós só não queremos que a tradição morra. A Câmara coloca as suas regras, nós seguimos e respeitamos”, frisa.

Esta tradição tão típica do Carnaval micaelense reúne bastantes aficionados. Exemplo disso é a participação de duas pessoas oriundas dos Estados Unidos da América e do Canadá, emigrantes açorianos, que vieram de propósito a São Miguel para participar na Batalha das Limas.

“Temos duas pessoas que vieram de véspera de propósito para participar no nosso camião”, conta Cristiano Graça, acrescentando que “há muitos anos participaram na Batalha, mas depois estiveram emigrados e agora vêm de propósito cá para participar”.

Mas, segundo o capitão do camião da Fajã de Baixo, “não são apenas os nossos emigrantes que querem participar”. “É engraçado que normalmente também temos turistas que vão para a avenida neste dia e que participam connosco. Paramos o camião, descemos, damos-lhes alguns sacos, explicamos como funciona a batalha e a tradição e eles adoram, porque isto é uma coisa que não existe em mais lado nenhum”, destaca.

Do lado da equipa de Santa Clara, foram preparados 90 quilos de sacos de plástico com água, mas Ricardo Pereira afirma que “há quem faça mais”.

Segundo o “guerreiro”, a preparação da batalha acarreta uma “logística grande” e “muito tempo disponível para fazer essa brincadeira”, frisando que é necessário ter um espaço com água e luz, comprar sacos com uma medida específica que “nem sempre se encontra facilmente no mercado” e ainda o contacto com empresas de camionagem para alugar um camião.

“Os custos são suportados pelas quotas dos elementos do camião e também arranjamos patrocinadores para ajudar a acarretar os custos. Atualmente, para fazer uma brincadeira destas precisamos de, pelo menos, 1500 euros para tudo isso e também para os comes e bebes”, constata Ricardo Pereira.

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