“Na Semana Santa não se jogava ao pião, não se cantava alto e comiam-se inhames durante o jejum”, diz Maduro Dias

“Na Semana Santa não se jogava ao pião, não se cantava alto e comiam-se inhames durante o jejum”, diz Maduro Dias

 

Tatiana Ourique / AO Online   Regional   20 de Abr de 2019, 00:09

No jejum quaresmal- e particularmente na Semana Santa- o inhame surge referido como alimento assíduo nas mesas açorianas em especial nas ilhas de São Miguel, Santa Maria e São Jorge. Quanto ao almoço em Domingo de Páscoa a carne é a rainha, ainda que cada ilha tenha registos de pratos distintos.


Francisco Maduro Dias começa por destacar o que era unânime em todas as ilhas: "Ao contrário do Natal, que é um dia, os açorianos não se referiam ao Domingo de Páscoa. As celebrações eram relativas à "Semana Santa" o que exigia uma maior criatividade gastronómica.

"Os inhames foram-me referidos por várias pessoas com quem conversei sobre este assunto. E pessoas de ilhas diferentes. Foi o que achei mais curioso das respostas que obtive nesta pesquisa", avançou o historiador terceirense,

"Outra questão que achei curiosa é que não se falava do Domingo de Páscoa. Falava-se sempre da Semana Santa. E o mais engraçado é que isso reflecte-se nas memórias e nos testemunhos e na forma como as pessoas mais antigas falam do que se lembram. As conversas começam sempre com referência ao dia da semana: quinta, sexta, sábado de Aleluia e o Domingo".

Outro aspecto que o estudioso referiu foi a presença da alcatra no domingo de Páscoa nas ementas terceirenses: “A alcatra que nós associamos claramente ao Espírito Santo aparece no Domingo da mesma forma que as bandeiras nos impérios”.

Na Semana Santa também não se jogava ao pião: “porque o peão espetava na terra onde tinha sido sepultado Jesus. Também não se cantava alto. A semana Santa era de recolhimento que explodia de alegria no sábado de Aleluia.” O historiador adianta que o sábado é que era “O dia”.

No domingo de Páscoa a carne contrastava com uma quaresma inteira de jejum: a alcatra como já foi referida, “São Jorge não tinha alcatra mas tinha a galinha e o frango e Santa Maria tinha borrego, por ser a ilha que criava mais ovelhas. Mas isso para as famílias mais abastadas.” A sobremesa também já fazia antever o Espírito Santo: arroz doce.

Tanto em Santa Maria como em São Jorge, as famílias mais abastadas comiam peixe escalado nos dias de jejum, um hábito que voltou a aparecer nas últimas décadas.

“A minha mãe fazia empadas de peixe. E não éramos só nós. Muitas famílias em Angra faziam-nas. E porquê? Porque as casas não acendiam lume dos fornos nem na sexta nem no sábado. E as comidas já cozinhadas eram as escolhidas”.

“Finalmente o folar: mais seco ou mais húmido, mais ou menos amanteigado, com ou sem ovos, com bigodes ou sem bigodes. O folar não faltava em nenhuma casa açoriana” e é, ainda hoje, símbolo da Páscoa na região.


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