Maio de 68 foi uma "euforia estranhíssima" que redundou em nada, diz Eduardo Lourenço

Maio de 68 foi uma "euforia estranhíssima" que redundou em nada, diz Eduardo Lourenço

 

Lusa/AO online   Cultura e Social   29 de Mai de 2018, 09:15

O Maio de 68 foi para Eduardo Lourenço uma euforia “estranhíssima”, que começou por prometer muito, transformou-se numa revolta “negativa” e terminou como uma festa estudantil, que não deixou “nada”, além de uma “memória”, que talvez inspire o futuro.

“Eu estive na França do Maio de 68, mas não estive em Paris em maio de 68, eu estava em Nice. Vivia-se, e partilhei, essa espécie de euforia estranhíssima que durou uns 15 dias”, disse à Lusa o ensaísta, a propósito dos 50 anos da revolta estudantil.

Foram momentos que recorda de “um entusiasmo delirante”, sobretudo entre as alunas, “a maioria filhas da gente grada de Nice, dos médicos, dos professores”, e que lhe suscitaram, na altura, um sentimento único: “Eu disse assim, bom, realmente eu já vi tudo na minha vida, isto é o máximo”.

Mas o entusiasmo não tardou a esmorecer, quando começou a perceber os contornos que a revolta assumia e os caminhos que seguia, que acabavam por não ser portadores de uma verdadeira mensagem revolucionária, explica.

Eduardo Lourenço recorda que a “principal figura” do movimento foi “um jovem alemão”, Daniel Cohn-Bendit, que ficou conhecido como ‘Dany le Rouge’, e que aquela era uma revolta de estudantes franceses, numas certas circunstâncias, contra o tipo de poder que naquele momento era representado pelo general De Gaulle, o Presidente da República, que tinha liderado a resistência à ocupação nazi, na II Guerra Mundial, e de quem era “muito admirador”.

Além disso, considera que o Maio de 68 não foi propriamente originário da cultura e do espaço francês, como o foi a Revolução Francesa, mas antes, de “outra grande referência do século XX”, que chegava da América.

“Era uma imitação do que se tinha passado na Califórnia, ou em parte na Califórnia, a contestação de valores, não propriamente de valores políticos - na América seria quase um pleonasmo -, mas de comportamentos de vária ordem - ordem ética, sexual -, que tiveram influência nessa época e que deixaram rasto, naturalmente”, afirma.

Mas foi com as invasões e com as destruições promovidas quer pelos jovens quer pelas forças policiais que o seu entusiasmo se viria a “esbater muito”, conta o ensaísta, que, na altura, era professor na Universidade de Nice, recordando a “invasão dos espaços universitários” por estudantes “rasgando cartazes, rasgando fotografias de Montaigne”.

“Uma coisa que era incompatível com aquilo que eu podia aceitar de uma França que eu admiro e onde fui professor e onde sou aposentado”, acrescentou.

O próprio Partido Comunista percebeu que “não podia já pactuar com aquele tipo de revolta”, porque essa revolta era ao mesmo tempo contra o general De Gaulle e contra o Partido Comunista.

“Quinze dias depois, o partido retirava-se da festa e deixava a 'estudantada' terminar aquilo, sem propriamente uma finalidade muito positiva”, ficando apenas “o gesto, uma epopeia estudantil, num momento particular”.

Falando “de fora e de dentro” de França – onde se casou, viveu e tem parte da família - e deste momento histórico, Eduardo Lourenço destaca o “capital revolucionário” que este país tem no gene, e que faz dele “o país da grande revolução, da única revolução que realmente existiu, que o resto não presta”.

“Por conseguinte, à França perdoa-se-lhe tudo”, considera.

Não esconde, contudo, a amargura que sente por o general De Gaulle ter apresentado a demissão, um ano mais tarde (depois de derrotado no referendo sobre o Senado como órgão consultivo da Assembleia Nacional): “Para mim não foi uma coisa positiva, foi uma coisa negativa, e ainda hoje o continua a ser”.

Olhando para trás, à distância de 50 anos, o que ficou daquele movimento foi “nada”, além de “uma festa, uma festa de juventude”, na opinião do filósofo.

Eduardo Lourenço recorda que “estes rituais vinham do mais profundo da História cultural europeia” e que a universidade sempre foi o ‘focus’ de conflitos, de revoltas contra os professores, e não só, que “a universidade francesa nunca foi nenhum convento” e foi sempre um espaço “onde se jogavam aspetos fundamentais da cultura europeia, das suas contradições ou não contradições”.

“Mas enfim, chegou-me aquelas duas semanas para ver que aquilo não conduzia a parte nenhuma, a não ser como coisa memorial, para se repetir em condições talvez mais adequadas e que se chame propriamente uma revolução, no sentido profundo e positivo do termo”.



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