Hospitais pediátricos de Coimbra e Luanda ligados por telemedicina


 

Lusa/AO   Nacional   31 de Out de 2007, 09:00

Os hospitais pediátricos de Coimbra e Luanda iniciam na quinta-feira uma consulta de telemedicina em cardiologia pediátrica e fetal, que poderá ser o ponto de partida para uma cooperação mais intensa e regular entre os dois países.
Vidas de crianças que poderão ser salvas, gastos poupados com evacuações de doentes, e diagnósticos atempados e mais fiáveis, pela partilha de experiência entre clínicos, são alguns dos resultados que este poderoso meio de diagnóstico à distância poderá proporcionar.

    Neste projecto, além das unidades hospitalares, são parceiros activos a PT Inovação e várias outras empresas de telecomunicações de Portugal e Angola, interessadas na aplicação das tecnologias e no desenvolvimento de novas áreas de negócio.

    Trata-se de estender a um país de língua portuguesa um projecto pioneiro que nos últimos anos se tornou rotina em diversos hospitais da região centro de Portugal a partir do Hospital Pediátrico de Coimbra (HPC), mercê do dinamismo do director do seu Serviço de Cardiologia.

    Eduardo Castela apercebera-se das virtualidades da telemedicina durante um estágio na especialidade de cardiologia do feto que realizou em 1995 na Mayo Clinic do Minnesota, nos EUA. De regresso propôs a criação da consulta de telemedicina com hospitais distritais da Região Centro, o que se veio a tornar realidade com a ajuda dos desenvolvimentos tecnológicos da Portugal Telecom.

    Esta ligação a Angola é encarada por responsáveis do Hospital Pediátrico de Coimbra como o ponto de partida para uma cooperação que se poderá vir a intensificar no futuro, abarcando outras especialidades e outros hospitais, desde que as autoridades dos dois países assim o venham a desejar.

    "A nossa abertura é total. É com muito gosto que apoiamos e estendemos a telemedicina a um país de língua portuguesa", declarou à agência Lusa Rui Baptista, Director Clínico dos Hospital Pediátrico de Coimbra, abrindo a possibilidade de alargar a teleconsulta a outras especialidades, e a outros países lusófonos, desde que surjam parceiros interessadas e as autoridades encarem isso como uma boa possibilidade de cooperação.

    Para o responsável clínico, desde que haja vontade dos governos, o HPC poderá assumir-se como unidade de referência nessa cooperação com o exterior, quer ao nível do diagnóstico à distância, quer no internamento e tratamento dos casos clínicos mais graves de doentes que venham a ser evacuados.

    Numa primeira fase, que se estenderá por seis meses, deverão efectuar-se oito consultas semanais de telemedicina", adiantou Eduarda Castela, período em que se afinará o sistema e se proporcionará formação do pessoal médico, à distância, e através da deslocação de profissionais àquele país.

    A partir daí - segundo Rui Baptista - o Hospital Pediátrico de Luanda já deverá estar ligado por telemedicina a outras unidades do país, para as consultas de rotina, reservando-se os casos difíceis para discussão com o Hospital Pediátrico de Coimbra.

    "Angola precisa de especialistas, e numa área destas o nosso contributo poderá ser muito valioso", frisou o Director Clínico.

    Por seu turno, Eduarda Castela, pioneiro da telemedicina em Portugal, vê nesta cooperação também um importante meio para melhor formar os clínicos portugueses, pela abordagem a patologias já raras em Portugal.

    "Ensinamos e aprendemos. Se calhar até vamos aprender mais com eles do que eles connosco", observou, enumerando algumas patologias, como a febre reumática ou os efeitos secundários das cardiopatias leves, que em Portugal são raros os casos surgidos.

    É em Outubro de 1998 que Eduardo Castela - através de uma parceria com a Portugal Telecom e o envolvimento do seu colega Bilhota Xavier, do Hospital de Santo André, de Leiria - dá início à teleconsulta de cardiologia pediátrica e fetal entre as duas unidades, que totalizaram 14 no final desse ano.

    Gradualmente o projecto foi-se alargando a outros hospitais da Região Centro de Portugal. De 1998 até ao fim do ano de 2006 foi efectuado um total de 4.741 teleconsultas de Cardiologia Pediátrico e de Cardiologia Fetal a partir do HPC.

    Apercebendo-se das virtualidades desta rede de telemedicina, todos os hospitais da Região Centro de Portugal aderiram a ela, juntando-se a eles também o de Vila Real, na Região Norte.

    Desde Julho de 2006 um protocolo subscrito pelos integrantes da rede permite ao Serviço de Cardiologia Pediátrica do HPC disponibilizar teleconsultas de urgência 24 horas por dia, além das consultas de rotina com uma periodicidade semanal.

    "Isto é um feito importantíssimo para a saúde. Quem nascer na Região Centro é um privilegiado, porque quem tenha um problema cardíaco pode ser visto imediatamente pela telemedicina", sublinhou Eduardo Castela.

    Na sua perspectiva, a telemedicina "é uma óptima solução para democratizar o acesso à saúde, e para esbater desigualdades". Permite a doentes de hospitais da periferia sem determinadas especialidades o acesso a elas através da consulta à distância.

    Por vezes um paciente necessita de uma intervenção rápida. Com recurso à telemedicina isso torna-se possível através de um diagnóstico partilhado com especialistas, evitando-se ainda os elevados encargos com as evacuações.

    Para Eduardo Castela, outra das virtualidades da telemedicina é a de promover a troca constante de conhecimentos, a formação contínua, e até o conhecimento de outras doenças.

    Em reconhecimento da validade deste projecto, o Serviço de Cardiologia do Hospital Pediátrico de Coimbra recebeu em Março de 2005 das mãos do Ministro da Saúde, Correia de Campos, o Prémio Hospital do Futuro, na modalidade de Acessibilidade e Atendimento, instituído pelo Fórum Hospitalar do Futuro. Em Abril do ano em curso arrebatou um novo Prémio Hospital do Futuro com a consulta de urgência em telemedicina, desta vez na categoria de Saúde.

    Se para Portugal este é um grande avanço na prestação de cuidados de saúde, para Angola esse "salto" é ainda mais elevado, devido ao nível de prestação de cuidados no país, e aos elevadíssimos custos que composta a evacuação dos pacientes mais graves para Portugal.

    Com Cabo Verde também tem estado em preparação um projecto similar envolvendo o Hospital Baptista de Sousa da cidade do Mindelo, a ONGD Saúde em Português e a Portugal Telecom, mas a falta de financiamentos para suportar os custos de equipamentos tem inviabilizado o intento.

    O projecto com o Hospital Pediátrico de Luanda, Angola, denominado de Peditel., envolve um investimento inicial de 150 mil euros em plataformas de telemedicina, suportado por vários parceiros do projecto, onde se incluem as empresas PT Inovação, TMN, Angola Telecom, Unitel, Multitel e Hemo Portugal/Angola
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