Elisabete Jacinto, a mulher que procura quebrar barreiras “num mundo de homens”

Elisabete Jacinto, a mulher que procura quebrar barreiras “num mundo de homens”

 

Lusa/AO Online   Motores   22 de Jan de 2019, 09:49

A piloto portuguesa Elisabete Jacinto é uma mulher solitária “num mundo de homens”, mas espera que a vitória na categoria de camiões da África Eco Race possa quebrar barreiras que as impedem de ganhar espaço” no desporto automóvel.

“Nós, mulheres, precisamos muito de exemplos. (...) Não nasci com dotes especiais, não sou uma supermulher, a única coisa que me distingue é que lutei pelos meus sonhos, pelos meus objetivos, para ultrapassar as minhas limitações”, disse Elisabete Jacinto em entrevista à Lusa.

Ao volante de um MAN, a piloto venceu a classe da prova que ocupou o lugar do Rali Dakar, após a transferência da prova rainha de todo o terreno para a América do Sul: “Não só consegui ser a primeira mulher a ganhar uma categoria do maior rali do mundo, como foi o primeiro português. Várias vezes estivemos à espera que alguns portugueses conseguissem ganhar e estiveram quase, mas eu consegui”.

“O desporto tem sido um mundo de homens ao longo destes anos todos. Uma mulher quando entra, entra num mundo que não é o dela, não foi construído para ela e às vezes não é aceite da melhor forma. Existem imensos obstáculos, imensas pequenas barreiras que as impedem de ganhar espaço”, observou.

No próximo ano, quando regressar às dunas do norte de África, talvez Elisabete Jacinto já não se depare com a mesma resistência por parte de alguns concorrentes que esperam encontrá-la em “última da classificação geral” e até possa desfrutar de mais companhia feminina.

“Ao longo dos anos, nada mudou. Neste rali era a única rapariga de camião. Se, em termos gerais, tem havido um pequeno aumento do número de mulheres a praticar desporto, em Portugal o número é baixíssimo, é um dos mais baixos da Europa e nestas modalidades que são ditas masculinas o número ainda é mais baixo. Poucos progressos fizemos ao longo destes anos e acho que há necessidade de tomar medidas”, lamentou.

A piloto natural do Montijo atingiu o ponto mais alto da carreira, ainda que “o nome África Race não tenha a notoriedade que tem o nome Dakar”, apesar de ser, “exatamente a mesma corrida, a mesma extensão, o mesmo percurso e o mesmo grau de dificuldade”.

“É aquilo que era o Dakar. (...) É a corrida em que participam mais equipas, em que a competitividade é maior e aquela em que temos de estar bem preparados e ter uma força enorme para vencer todos os limites. O facto de ter conseguido ganhar esta corrida, que é a maior de todas, que é a mais difícil, que é o maior desafio, constitui o maior de todos os troféus. Era aqui que queria chegar”, declarou.

Para o sucesso que falhou por pouco em 2011 e 2012, quando terminou no segundo lugar da categoria de camiões, contribuíram três fatores: a troca de amortecedores, o aumento de potência do motor, e, acima de tudo, a compra de jantes de alumínio, que lhe permitiu ficar menos vezes atolada. “O que fez a diferença deste ano para os outros foi o facto de não estar horas a escavar para tirar o camião dos sítios”.

Para Elisabete Jacinto, “a prova que hoje em dia se realiza na América latina é completamente diferente do Dakar”, pois “as condições de vida duras de África não existem na América latina”, o que faz com que a corrida sul-americana já não seja “a prova aventura” que caracterizou o Dakar durante décadas.

A recente vencedora da África Eco Race entrou tarde no mundo dos desportos motorizados e a primeira competição que disputou, na serra de Grândola, terminou com uma queda, mas com a certeza de ter encontrado o seu desporto de eleição: “Se fossem perguntar naquela prova quem era a pessoa mais feliz não era o rapaz que tinha ganhado, era eu que tinha desistido”.

“Nunca me senti reconhecida enquanto piloto de motos. (...) Deixei a competição com algum sentimento de frustração e a ideia do camião aparece como uma substituição, para tentar fazer com o camião o que não tinha conseguido fazer com a mota. A minha meta era ganhar corridas e acabar no pódio”, explicou.

A estreia no Dakar ao volante de um camião também não foi promissora. Elisabete Jacinto tirou a carta e três meses depois já percorria os trilhos africanos: “Tinha tudo, menos o conhecimento para fazer a prova. Correu muito mal, foi uma história incrível de princípio ao fim, mas vim de lá com a certeza de que com um bom camião e uma boa equipa era capaz de fazer bons resultados”. E fez.






Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.