Diretora-geral do FMI defende impostos sobre a riqueza para apoiar jovens

Diretora-geral do FMI defende impostos sobre a riqueza para apoiar jovens

 

Lusa/AO online   Economia   24 de Jan de 2018, 09:24

A diretora-geral do FMI, Christine Largarde, defende impostos sobre a riqueza para financiar programas sociais de apoio aos mais jovens, que, depois da crise, constituem o grupo etário com maior risco de pobreza na União Europeia.

Num artigo divulgado esta quarta-feira no blogue do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde defende medidas políticas para reduzir a pobreza e a desigualdade entre gerações na Europa: reduzir as contribuições sociais e os impostos sobre os trabalhadores com baixos salários e proteger melhor os jovens de situações de desemprego (através de apoios sociais).

A diretora-geral do FMI, que discursa esta quarta-feira no Fórum Económico Mundial, em Davos (na Suíça), refere que entre as medidas está também o aumento da progressividade dos sistemas fiscais e a criação de impostos sobre a riqueza (incluindo impostos sobre as heranças), que "podem financiar os necessários programas de apoio social para os cidadãos mais jovens".

A posição de Christine Lagarde surge no mesmo dia em que o FMI divulga um estudo no qual conclui que a desigualdade aumentou entre gerações, refletindo maior pobreza e desemprego entre os jovens (entre os 16 e os 34 anos), com "consequências adversas" para o seu futuro.

Antes da crise, os jovens e os idosos tinham praticamente o mesmo risco de pobreza relativa na União Europeia, mas segundo o Fundo, "a crise exacerbou" o elevado desemprego jovem que já existia, trazendo um aumento significativo de pobreza dos mais jovens.

"Os rendimentos caíram para os mais jovens depois da crise de 2007 devido ao desemprego. Embora tenham recuperado, ainda não subiram. Para aqueles com 65 anos ou não, os rendimentos cresceram cerca de 10% uma vez que as pensões foram mais bem protegidas", afirma Christine Lagarde.

A diretora do FMI recorda que o desemprego jovem na Europa atingiu um pico em 2013, nos 24%, e que hoje cerca de um quinto da população mais jovem continua à procura de emprego.

"Depois de longos períodos de desemprego e com experiencia limitada é menos provável que os jovens encontrem emprego. Se encontrarem, provavelmente serão de rendimentos baixos", descreve Lagarde.

Por outro lado, destaca a diretora do FMI, hoje um em cada quatro jovens na Europa são pobres – vivem com rendimentos abaixo de 60% da mediana.

Além disso, os jovens têm a maior dívida em relação a património que detêm (49%) entre os diferentes grupos etários, estando por isso "mais vulneráveis" a choques financeiros.

Como o acumular de ativos é gradual ao longo do ciclo de vida, as gerações mais jovens, que o FMI considera entre os 16 e os 34 anos, têm menos de 5% da riqueza líquida na Europa e a mediana da sua riqueza é apenas um décimo da mediana da riqueza das pessoas com 65 anos ou mais.

Por outro lado, o Fundo considera que os sistemas de proteção social na União Europeia "estão mal equipados para mitigar o impacto da crise na população ativa, sobretudo nos mais jovens".

Para o FMI, os sistemas de proteção social europeus protegeram melhor os idosos do impacto da crise financeira mundial do que os jovens, que "não foram protegidos adequadamente do risco de desemprego e do impacto de empregos precários".

É neste sentido que a diretora-geral do FMI defende que reverter a tendência de pobreza entre os jovens requer "políticas concertadas, orçamentais e do mercado de trabalho, incluindo proteção social e redistribuição orçamental".

E dá o "bom exemplo" de Portugal, que criou reduções temporárias do pagamento das contribuições sociais devidas pelas empresas para jovens à procura do primeiro emprego até cinco anos e de desempregados de longa duração até três anos. "Embora o desemprego jovem continue elevado, esta medida [tomada em julho passado] vai na direção certa", afirmou Christine Lagarde.

A diretora-geral do FMI admite que "nada disto é fácil", até porque as políticas devem ser desenhadas tendo em conta "as necessidades individuais" dos diferentes países da União Europeia e as "metas orçamentais".

Ainda assim, para Lagarde, com um crescimento mundial mais forte (recorde-se que, esta semana, o FMI melhorou a estimativa para 3,9%) e a recuperação na Europa, "há uma oportunidade de fazer as coisas difíceis de que de outra forma não serão feitas".

"Isto não é sobre um grupo contra o outro. Criar uma economia que funciona para os mais jovens cria uma fundação mais forte para todos. A população jovem com carreiras produtivas pode contribuir para redes de segurança social. E reduzir a desigualdade entre gerações anda de mão dada com a criação de crescimento sustentado e da reconstrução de confiança na sociedade", termina a diretora-geral do FMI.



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