Convento abandonado no centro do Porto apela a todos para ajudar a recuperar edifício


 

Lusa/Ao online   Nacional   29 de Jul de 2018, 10:30

A nova vida do Convento de Francos, abandonado no Porto desde 2001, passa pela criação de um “centro de acolhimento espiritual e cultural” aberto a todos, mas, antes disso, precisa de angariar fundos suficientes para obras.

No ano passado, foi criada a Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria, por decreto episcopal do então bispo do Porto, António Francisco dos Santos, com o objetivo de “recuperar este património para ser um centro de acolhimento espiritual e cultural”, explicou à Lusa uma das responsáveis da associação, Teresa Alte da Veiga.

Com cerca de 6.000 metros quadrados escondidos por uma igreja com menos de um século e por uma rua de casas térreas, o Convento de Francos foi fundado em 1951, por iniciativa de Marianna Ignez de Jesus de Mello da Silva da Fonseca de Sampaio, que, depois de visitar Fátima, questionou “por que não um Carmelo no Porto?”, conta Teresa Alte da Veiga, familiar da fundadora e do engenheiro que projetou o edifício, Francisco Alpendurada.

No começo do século XXI, o espaço – o último convento de clausura da cidade – encerrou, o imóvel foi vendido e as irmãs lá residentes distribuíram-se por vários outros conventos do país, do Algarve ao Norte.

Teresa Alte da Veiga recorda à Lusa o momento em que uma das irmãs que lá residiam voltou ao edifício já degradado e chorou: “Custa ver o convento neste estado”.

A igreja, com a estação de metro de Francos à porta, é o rosto do convento, embora os vidros partidos deixem antever os anos de abandono sofrido pelo que está para lá da fachada.

Lá dentro, sobre o altar, encontram-se pinturas de José Luís Brandão de Carvalho, avô materno do atual presidente da câmara, enquanto na nave há três filas de bancos de madeira iguais aos que se podem encontrar em qualquer outra igreja, lado a lado com dezenas de cadeiras de plástico doadas por um banco.

Com 55 quartos ao longo de um edifício que nunca contou mais de 25 ou 26 irmãs, segundo a responsável da Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria, não é sequer o claustro - “nem grande nem pequeno” – que impressiona, numa zona tão central da cidade do Porto: o que surpreende é a extensão de terreno nas traseiras do edifício.

Um bode de pelo branco e negro vem receber os visitantes, acompanhado por uma cabra e pelos dois filhotes, que já nasceram em Francos. Questionada sobre como foram ali parar os animais, Teresa Alte da Veiga conta que um dia pediu uma roçadora ao padre Fernando Rosas, o outro principal dinamizador da nova fase da vida do Convento de Francos.

“E ele um dia apareceu-me aí com um ar muito sério e disse-me: ‘Teresa, abra a porta da quinta’. Ele não se descoseu. ‘As portas do carro são para ficar abertas. Agora vá ali para a entrada’. Aparece-me ele com as duas cabras, pequeninas. ‘Estão aqui para limpar a quinta’. Disse: ‘ok, pedi uma roçadora, não pedi duas’”, relata.

Também há galinhas, árvores de fruto, ermidas e dois tanques. No entanto, há também assaltos.

Missas são cumpridas pontualmente, como a da passada quinta-feira, e as portas da igreja abrem-se para quem quiser, dentro das possibilidades de Teresa Alte da Veiga, que costuma dizer, entre risos, que é a “porteira” do convento.

“É um espaço amplo, que se quer que seja um centro de acolhimento espiritual e de cultura ao serviço de todos. Quem queira pode entrar e sentir-se bem. A minha preocupação é que se sintam bem. Neste momento, não temos condições para receber as pessoas de qualquer maneira, mas quando nos pedem eu abro a porta”, diz Teresa Alte da Veiga que, com o padre Fernando Rosas, tem feito tudo para dar uma nova vida ao Convento de Francos.

A associação está neste momento a negociar a passagem da propriedade para seu nome, mas precisa de angariar com urgência cerca de 600 mil euros para obras, em particular, no telhado.

“Temos este ‘pequeno’ problema”, afirma Teresa Alte da Veiga, com a ironia – e esperança - de quem apresenta um telhado ao qual é possível fazer uma radiografia a olhos nus: “É interessante a construção. Se reparar, a estrutura do telhado é ferro e depois o resto é em madeira cruzada, o que para a época era muito avançado”.

A urgência, portanto, é angariar dinheiro suficiente para reparar o telhado, uma vez que, “quando vier o inverno [vão] ter problemas”, disse à Lusa.

Para isso, a associação lançou uma campanha, com o apoio dos CTT, para vender, por um euro, marcadores com um poema de “Louvor do Silêncio”, adaptado de São João da Cruz para a canção “The Sound of Silence”, de Paul Simon.

A Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria pretende homenagear o antigo bispo do Porto, que morreu em setembro de 2017, com a apresentação do Centro de Espiritualidade e Cultura de Francos, no aniversário da sua morte, em 11 de setembro deste ano, mas para isso precisa “urgentemente de começar por reconstruir o telhado que se encontra bastante degradado”, como se lê no Facebook da entidade.

Da parte da Junta de Freguesia de Ramalde, o vice-presidente, Sérgio Tormenta, disse à Lusa que o convento “é um edifício e um património importante para a freguesia e [a junta tem] todo o interesse que possa ter uma atividade, nomeadamente a que está a ser desenvolvida por esta associação, porque no passado estava completamente abandonado e causava um grande problema para a zona, a nível da toxicodependência”.

“Tem o apoio possível da Junta de Freguesia”, acrescentou o autarca, que salientou que a junta tem procurado divulgar as atividades do convento.

Teresa Alte da Veiga sublinha ao longo da conversa com a Lusa que não pretende ver o convento recuperado para ser um espaço fechado, pelo contrário: “Há miúdos que vêm para aí jogar à bola, correr atrás das cabras. Para já não há condições de segurança para ter a porta aberta e que as pessoas possam entrar. Agora, vou dizendo, querem fazer um piquenique? O meu telefone está sempre ligado”.

Sejam católicos ou não, cristãos ou não, a música de profissão realça que a associação está aberta a todos que queiram visitar e ajudar, para a criação do centro de acolhimento espiritual e cultural.

Numa entrevista com a Angelus TV, o padre Fernando Rosas disse que pretendem ter uma zona do convento destinada a retiros e outra “destinada a atividades diversificadas”: “Temos um privilégio de ter uma mata no meio da cidade, e que seja também de acolhimento, porque aquela zona é relativamente carente do ponto de vista social”.

Numa altura em que tanto se fala de especulação imobiliária, o pároco lembra aquilo que às vezes sai do pensamento de quem vive num “dia-a-dia de correria”, como o classifica a associação no Facebook: “Estamos ali no centro da cidade e, no centro da cidade, vamos à quinta e estamos fora da cidade”.



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