"Cada um a cuidar da sua árvore e todos a cuidarem da nossa floresta" é a premissa de Paulo Gomes, novo presidente da AFAH

"Cada um a cuidar da sua árvore e todos a cuidarem da nossa floresta" é a premissa de Paulo Gomes, novo presidente da AFAH

 

AO Online   Futebol   8 de Set de 2018, 10:30

"Deplorável e indecente" é como Paulo Gomes classificou o processo eleitoral do passado dia 23 de junho para a Associação de Futebol de Angra do Heroísmo. A histórica associação criada em 1921 gere as modalidades de futebol e futsal nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa . O agora presidente apresentou o novo projeto e respetiva equipa numa entrevista ao Açoriano Oriental onde também teceu duras críticas à antiga direção liderada por Nuno Maciel.

Açoriano Oriental - O que o levou a candidatar-se à Associação de Futebol de Angra do Heroísmo?

Paulo Gomes - Perto da data das eleições de 2014 fui abordado por várias pessoas ligadas a clubes no sentido de avançar com uma candidatura. Havia algum descontentamento com a gestão da AFAH (Associação de Futebol de Angra do Heroísmo). Na altura fiquei satisfeito por confiarem em mim para liderar um projeto desta envergadura, mas por estar ligado a um clube como vice-presidente e por faltar pouco tempo para a data da realização das eleições em questão, decidi não avançar. Não havia tempo suficiente para elaborar uma equipa e um projeto. 
A ideia ficou plantada e perguntava-me, com muita frequência: por que não? Então, em janeiro de 2017, a 18 meses das eleições, iniciei um longo percurso de auscultação a pessoas envolvidas nos clubes ou simples adeptos, numa primeira fase. Rapidamente percebi que havia um desencanto generalizado por parte de todos. Depois reuni-me com todos os clubes, onde para além de apresentar as minhas ideias, recolhi contributos por parte dos dirigentes. Os dirigentes são muito importantes no desporto e muitas vezes não são devidamente reconhecidos como tal. Os dirigentes têm de ser ouvidos e foi exatamente isto que fizemos. A nossa campanha foi de grande nível e foi pensada e planeada ao detalhe para no final terminar com uma vitória inequívoca.

AO - Como decorreram os processos de campanha e ato eleitoral?

PG - Apesar do resultado positivo, não posso deixar de referir que todo o processo eleitoral foi deplorável, começando pela campanha difamatória da lista rival. Se por um lado ajudou-nos, as pessoas estão fartas das campanhas de “bota abaixo”, por outro teria sido melhor um debate saudável de ideias e de projetos. Esta foi a estratégia do anterior presidente e cada um tem a sua. Tudo o resto foi indecente e é preciso que nestas questões haja o bom senso de separar a figura de presidente da figura de candidato, não utilizando as vantagens do primeiro para benefício do segundo.
Utilização do email da associação na sua campanha, recusa em fornecer informações importantes para a nossa candidatura, marcação das eleições em plenas festas Sanjoaninas, apresentação de contas (muito negativas) muito próximo do ato eleitoral, almoço com os dirigentes dos clubes de São Jorge e Graciosa no dia das eleições. Enfim um conjunto de situações que já referi em várias intervenções minhas e que no futuro não vão acontecer. 
Comigo as eleições serão sempre marcadas em maio. Quem vencer toma posse no início de junho e assim terá tempo de preparar condignamente a nova época desportiva. E qualquer pessoa que se queira candidatar poderá entrar em contacto com a nossa direção e será fornecida toda a informação necessária para apresentação da respetiva candidatura. O futebol e o futsal têm de ser respeitados e se estamos aqui para servir, temos de ser transparentes em todas as nossas ações. 
Outra situação inadmissível foi o facto do Atlantic Fut ver negada a possibilidade de votar, alegadamente por ainda participar nas provas como convidado e não ser filiado. Assim que assumimos funções verificamos que este clube, em assembleia geral, foi aceite como filiado.

AO- Que membros escolheu para compor a sua equipa?

PG - Temos uma equipa composta por mais de 30 pessoas. Apesar dos órgãos serem todos autónomos, estão todos envolvidos no projeto. Não podendo enumerar todos, quero destacar a presença feminina nos órgãos sociais, a presidir ao Conselho de Disciplina e de Justiça temos a Dra. Mónica Fagundes e a Dra. Raquel Bettencourt. No futebol temos como vice-presidente o Manuel da Costa (Chalana) que é uma referência do futebol terceirense e açoriano. O Duarte Melo, vice-presidente para o futsal, foi um atleta exemplar e de qualidade no futebol que depois se voltou para o futsal, fundando o Clube Desportivo do Posto Santo. 
Outra inovação é termos um vice-presidente em São Jorge, o Raúl Brasil e na Graciosa, o João Picanço, pessoas do futebol que foram convidadas depois de auscultarmos os clubes, em plena elaboração da nossa lista. Os clubes tiveram voto nestas duas escolhas. Temos o Maurício Toledo um dos meus adjuntos, incansável desde o dia 1. O António Toledo é outro dos adjuntos, o Pedro Rodrigues ficará nas seleções e o João Rocha para a comunicação. Na arbitragem um ex árbitro com mais de 30 anos de arbitragem, o Artur Teixeira e na Assembleia Geral Osório Silva, vice presidente da Protecção civil, uma pessoa com um percurso de vida dedicado à causa pública. No conselho Fiscal o Dr. Fernando Dias que apesar de liderar um órgão fiscalizador, está empenhado em colaborar com a sua experiencia no campo financeiro. 

AO - Qual foi a realidade que encontrou aquando da tomada de posse na AFAH?

PG - Complicada! Temos uma obra de ampliação muito mal planeada em andamento, pouco dinheiro em caixa, uma associação muito atrasada em termos de comunicação e marketing, muito fechada em si e afastada dos associados. No fundo tínhamos uma instituição muito parada no tempo. Também verificámos que não havia controlo nos gastos. Não posso conceber que se gastasse cerca de 6 mil euros anuais em telecomunicações e que agora estejamos a gastar apenas 50€ mês. Nesta matéria, estamos a controlar todos os gastos de forma muito criteriosa, para depois investir nas provas, nos clubes, nas seleções e nos nossos árbitros. São nestas áreas que temos de fazer forte investimento. Estes são os ativos mais importantes. No nosso entendimento uma Associação de futebol tem de investir forte no que tem retorno e não gastar sem sentido.

AO-Em que linhas gerais assenta o seu projeto?

PG - Somos a associação mais antiga dos Açores e a 7ª mais antiga do país, algo que poucos sabem e que ninguém nunca se preocupou em saber. Não somos uma associação qualquer e o nosso projeto passa por nos tornarmos uma associação de referência em Portugal. Esta é a nossa meta. Muitos consideraram uma utopia o nosso manifesto eleitoral, mas o que é certo, é que já cumprimos mais de 80% do que prometemos, em menos de 2 meses. Sempre disse que o nosso projeto era o mínimo que uma Associação podia fazer pelas suas modalidades e clubes. Mas queremos mais, queremos estar sempre a inovar e a crescer. Nesta fase inicial do nosso mandato conseguimos fazer alterações significativas no comunicado nº 1 para a época desportiva a decorrer, sempre em prol do melhoramento das competições e no apoio aos nossos clubes; escolhemos uma seguradora que nos dá garantias de não haver os problemas que tem havido nas ultimas épocas e depois “apontamos baterias” para os quadros competitivos, onde fizemos alterações importantes.
No futebol destaco o regresso do Campeonato de Juniores D e no futsal destaco a implementação de play-offs nos Juniores A e B. Os Seniores e a Taça ilha Terceira terá uma final-four. Neste início de mandato também cumprimos outro dos nossos objetivos, que foi a realização dos sorteios com antecedência. Realizámos a 20 e 24 agosto os sorteios em São Jorge e Graciosa, respetivamente. Na ilha Terceira, a 28 e 30 agosto fizemos sorteios para a formação futebol e futsal, terminando com os seniores das duas modalidades no dia 1 setembro. Não há memória de sorteios realizados com tanta antecedência. Fazemos questão que assim seja. Os clubes precisam de tempo para planearem a sua época e nós empenhamo-nos em dar-lhes esta possibilidade. 
Concluída esta fase de sorteios vamos iniciar os cursos de treinadores, várias formações, cursos para árbitros e observadores, etc. Estas matérias estavam muito descuradas e a nível dos treinadores, a realidade que temos é esta: muitos precisam de créditos. Os treinadores são ativos muito importantes e temos de estar atentos e dar-lhes todas as condições. Quanto mais qualificados forem, melhor qualidade terão os nossos quadros técnicos. 
Paralelamente, estamos no terreno, junto do tecido empresarial, a negociar naming´s para as nossas provas. Nas seleções já elaboramos um conjunto de melhoramentos, por exemplo, não haviam equipamentos de treino nas nossas seleções e agora já há. Haverá uma transformação muito grande naquilo que são as condições a proporcionar a toda a estrutura das seleções. Esta e outras mudanças acontecerão. Estamos a dar outra visibilidade à nossa página web, criamos uma página de Facebook e a relação com os órgãos de comunicação social agora é muito mais próxima, até porque se queremos “vender” o nosso produto que é o futebol e futsal, temos de estar constantemente a promovê-lo. 

AO - Quais são as maiores dificuldades de gerir uma associação tão dispersa?

PG - Com a inclusão de vice presidências em São Jorge e Graciosa, conseguimos reduzir muito esta questão territorial. Existe um acompanhamento muito forte da nossa parte para com os clubes destas duas ilhas, quer pelo contacto telefónico, quer por email ou até mesmo com deslocações para os visitar. Nesta matéria, por uma questão de controlo de custos, não podemos abusar, mas queremos claramente realizar muitas visitas para que estes clubes se sintam verdadeiramente como parte desta enorme família. Este ano como temos a presença de três clubes da Graciosa no Campeonato de Futebol dos Açores, teremos a oportunidade de estar com eles nas passagens pela ilha Terceira. Um dos nossos objetivos é ter uma delegação da AFAH nestas ilhas. Em São Jorge a Câmara Municipal de Velas, através do presidente Luís Silveira, já nos facultou um espaço, além do que já existia para o nosso conselho de arbitragem. Na Graciosa, estamos em conversações com o Presidente Câmara Municipal de Santa Cruz, para também termos uma delegação digna para a AFAH.

AO - Que ilhas carecem de maior atenção da AFAH?

PG - Da nossa parte as três ilhas que compõem a área geográfica da AFAH, têm o mesmo tratamento, a mesma atenção e as mesmas condições. É claro que um clube sediado na ilha Terceira tem vantagens logísticas que as outras ilhas não possuem, por isso cabe a nós, associação, fazer de tudo para atenuar esta distância. Outra questão tem a ver com a densidade populacional, onde claramente há mais dificuldade nas ilhas menos populosas para a composição dos seus plantéis.
Este aspeto tem mais preponderância nos escalões de formação onde apenas temos Juniores B e D. Os atletas dos Juniores A têm de ser integrados nos planteis dos seniores, o que prejudica o seu percurso na formação. Estamos atentos a todas estas questões e os clubes sabem que podem contar connosco.

AO - Em qual das modalidades há mais trabalho a fazer?

PG - Cada modalidade tem os seus problemas, defeitos, virtudes e diferenças, mas as duas fazem parte de um todo. Tentaremos sempre tratar as duas modalidades de igual modo e vamos trabalhar para crescerem. Não penso que uma dê mais trabalho que outra. O nosso objetivo de realizar o sorteio de Seniores na Terceira, com os representantes dos clubes das duas modalidades, foi o de aproximar os clubes. Queremos criar uma grande família entre a associação e os clubes. Se estivermos todos juntos nesta caminhada o sucesso será para todos. Cada um a cuidar da sua árvore e todos a cuidarem da nossa floresta, este tem de ser o espírito.

AO - O futebol continua a ser o desporto rei, mas o futsal está a ganhar o coração dos adeptos. O fenómeno acontece nas três ilhas?

PG - Só temos futsal na Ilha Terceira. Apesar do interesse de muitas pessoas para que o Futsal fosse implementado em São Jorge e na Graciosa, existe o receio de não haver atletas suficientes para a competição. Gostaria que fosse possível, mas também prefiro ter uma modalidade forte do que duas modalidades enfraquecidas. O futuro está sempre em aberto e é uma possibilidade que nunca está fechada. Na ilha Terceira o futsal já esteve mais pujante e não há dúvidas de que a associação também teve a sua quota-parte para a quebra que houve nesta modalidade. Nesta matéria, corrigimos algumas injustiças em comparação com o futebol e que tinham a ver com a cota de arbitragem que era muito elevada e com o facto de não haver oferta de inscrições a nível sénior. Esta situação foi prontamente corrigida por esta direção e penso que levará a um estancar da desistência de clubes e poderá levar ao regresso de clubes que já participaram nas provas locais e ao aparecimento de novos clubes. Queremos sempre apoiar as duas modalidades e na minha opinião existe espaço para a coexistência do futebol e do futsal.

AO - Já reuniu com os dois restantes presidentes de associações de futebol açorianos?

PG - Sim. Tivemos uma reunião preparatória do Campeonato Futebol dos Açores e outra no próprio dia dos sorteios. Brevemente iremos reunir-nos novamente para discutirmos algumas alterações que julgamos serem fundamentais para o desenvolvimento do futebol e futsal nos Açores. Felizmente, encontrei muitos pontos em comum com os meus colegas e penso que em conjunto trabalharemos para melhorar o futebol e futsal açoriano. Para mim é fundamental haver uma boa relação entre as três Associações e da minha parte podem contar com esta postura. Defenderei os interesses dos meus clubes, mas isto não invalida que não possa ter uma relação de proximidade com as Associações congéneres e os com os clubes destas associações.

AO - As realidades são iguais às restantes ilhas açorianas?

PG - As dificuldades inerentes ao facto de vivermos em ilhas são transversais a todas as ilhas, mas claramente que quanto mais pequena e menos populosa for uma ilha, mais dificuldade tem em poder desenvolver a sua atividade. Neste aspeto, nestas ilhas temos de reconhecer que fazem um excelente trabalho mesmo com todas as condicionantes com que se deparam.

AO - Quais são as suas ambições para este mandato de quatro anos?

PG - Promover uma enorme transformação da associação em todos os sentidos: crescimento do número de clubes e atletas; promoção do nosso produto que é o futebol e futsal que podemos e devemos trabalhar no sentido de nos aproximarmos de outras associações do continente; crescimento a nível de redes sociais e multimédia; crescimento ao nível dos patrocinadores; aumento gradual de apoio aos nossos clubes; elevar os padrões de exigência e qualidade nas nossas seleções. No fundo, deixar uma marca muito própria e que todo o nosso trabalho seja de excelência.

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