Austeridade também afeta o "querido mês de agosto" dos artistas portugueses

Austeridade também afeta o "querido mês de agosto" dos artistas portugueses

 

Sílvia Borges Silva - Lusa/AO online   Economia   29 de Jul de 2012, 12:18

O mês de agosto está próximo e com ele o calendário mais intenso de espetáculos de música popular pelo país, mas este ano a crise sente-se com maior impacto, admitiram músicos e agentes à agência Lusa.

 

"Fazem-me essa pergunta todos os anos. Não é de agora, mas faz-se o seguinte: Em vez de receber dez, recebo seis e baixa-se a bolinha. Está difícil, a concorrência não ajuda, mas tem de se andar para a frente", afirmou o músico Quim Barreiros.

Porém, o acordeonista minhoto, 65 anos, que anda há quase 40 a cantar músicas populares, admite que não se pode queixar muito da crise, porque vai tendo a carteira de espetáculos preenchida, a partir da páscoa até ao final do verão.

Só em agosto, o mês mais forte com espetáculos de rua promovidos por autarquias e comissões de festas, Quim Barreiros terá "vinte e tal festas".

Para grande parte delas, a equipa que o acompanha tem quatro músicos "que fazem tudo, tocam, carregam equipamento, conduzem". E há um pormenor que faz a diferença: Quim Barreiros só atua depois de ser pago. Em dinheiro.

"Eu sei que há dificuldades, que há artistas que deram o salto e depois escorregaram. Eu tenho-me mantido naquela mediazinha. Mas sabe, o sistema bancário é o grave problema; e sobre isso da crise culpa-se este e aquele, mas a culpa é de todos nós", disse.

Emanuel, 55 anos, outro dos músicos de sucesso da música mais popular, dita "pimba", disse à Lusa que "a crise chegou aos espetáculos e os cortes são óbvios" e que há artistas com dificuldades, mas que não querem reconhecê-lo publicamente.

"Se eu estivesse em dificuldades também iria omitir, porque os artistas estão esperançados que isto passe", disse.

O músico de "Pimba Pimba" e "O ritmo do amor", que terá em agosto 15 concertos e cerca de dez presenças em discotecas, explicou que mantém o mesmo "cachet" há três anos, cujo valor "é moderado para o tipo de espetáculo".

O promotor Lino Santos fundou há um ano a Mega Agência, uma agência que trata de todos os aspetos de produção e logística de um espectáculo a quem o contrate, afirmou à Lusa que "há muito artista com falta de trabalho e que não dá a cara para não prejudicar a carreira".

Os artistas "tiveram que fazer ajustamentos nos cachets, os municípios que tinham poder de compra cortaram-se. A crise não é regional, é nacional", disse.

Ainda assim, Lino Santos admitiu que este primeiro ano da empresa foi positivo, dado o alargado leque de artistas com que trabalha.

Do lado de quem contrata, sobretudo ao nível das entidades autárquicas, também se registam cortes no investimento, que afetam as atividades culturais e recreativas.

É o caso da câmara municipal do Crato, que organiza anualmente a feira de artesanato e gastronomia, e que nos últimos anos tem investido num cartaz de espetáculos com város nomes internacionais.

Este ano, entre 29 de agosto e 01 de setembro, optaram por contratar apenas artistas portugueses, como Amor Electro, Sétima Legião, Buraka Som Sistema, Dead Combo, Pedro Abrunhosa e Boss AC.

"Uma noite equivale mais ou menos à contratação de uma banda internacional [de anos anteriores]. Houve uma redução dos valores de investimento, mas tenho dúvidas que uma empresa privada apostasse no interior. O Crato não tem praia", explicou à Lusa Luís Pragana, da autarquia.

Segundo o responsável, uma localidade com 3.700 habitantes recebe, durante a feira, 45 mil visitantes, cuja presença tem repercussão na hotelaria e na restauração.

"Obrigatoriamente houve renegociação de cachets, mas há duas ideias que têm passado que eu discordo: Que é preciso parar o investimento e que este não pode ser público, tem que se privado. A atividade cultural é importante como fator de desenvolvimento", referiu.


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