Estaleiros de Viana

Amor à empresa leva 16 trabalhadores ao papel de atores

Amor à empresa leva 16 trabalhadores ao papel de atores

 

Lusa/AO Online   Nacional   27 de Jul de 2012, 09:19

O nervosismo tomou conta dos 16 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) que na noite de quinta-feira apresentam, como atores, uma peça que retrata a vida da empresa que conhecem como ninguém.

 

"Estou a começar a sentir um apertozinho no estômago", admite à agência Lusa Fabíola Sousa, da direção comercial dos ENVC, onde trabalha desde os 21 anos.

Aos 57 anos, assume que a estreia enquanto atriz, mais logo, era algo que "já não lhe passava pela ideia".

"Tinha vontade, porque gosto muito de cinema e teatro, mas não estava nos meus planos", diz.

Ao longo dos últimos dois meses e meio, 16 trabalhadores ensaiaram, cerca de 25 horas por semana, a peça "Estaleiros", para, em palco, retratar a história da empresa, através de uma autobiografia de cada um.

Segundo o encenador e autor Marco Martins, ao longo de uma hora e meia, "cada pequena história" vai formar "a grande história coletiva" dos estaleiros, revelando mesmo aspetos "menos conhecidos" da empresa que dá nome à peça.

"Somos só 16, mas se fossem precisos dezenas de trabalhadores isso verificar-se-ia. Representa um grande orgulho e amor que temos pela empresa", garante Fabíola, ao reconhecer que "foi um privilégio reconhecer os colegas" ao longo dos ensaios.

A Martinho Cerqueira cabe a tarefa de contar a história de 46 anos de trabalho nos ENVC, como eletricista.

O mais antigo trabalhador da empresa, hoje com 60 anos, assume tratar-se de uma "nova experiencia", com a qual também já não contava.

"Considerando os momentos menos bons que a empresa atravessa, este espetáculo veio no momento exato", diz, admitindo que se sente "mais ou menos à vontade", a poucas horas da estreia, apesar da "muita responsabilidade".

A peça integra o cartaz do Festival do Norte, promovido pela Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal, e será apresentada entre hoje e domingo, pelas 22:00, ao ar livre, junto ao porto de Viana do Castelo, tendo como fundo precisamente os guindastes dos ENVC, devidamente iluminados.

Há dois meses que os ensaios de "Estaleiros" acontecem todos os dias, de segunda a sexta-feira, em horário pós-laboral, mas aos domingos a "dose" é dupla.

"Já fiz teatro amador, mas estou deslumbrado com tudo isto. Passei a conhecer melhor as pessoas com quem trabalho há mais de 20 anos em apenas dois meses", confessa Miguel Cerqueira.

Este torneiro mecânico de 37 anos não esconde o "nervosismo" antes da estreia: "Um Bocadinho. Nunca estive numa frente destas, mas estou confiante que tudo vai correr bem", refere.

Na quinta-feira, foi a vez do decisivo ensaio geral da peça, que, segundo Marcos Martins, pretende ser uma "reflexão sobre o trabalho e a cultura de uma empresa pela qual passaram várias gerações" e que ainda se assume como "polo dinamizador de Viana do Castelo".

Numa coisa todos os 16 atores concordam: a peça serviu para "esquecer" os problemas na empresa, sobretudo sobre o seu futuro.

No espetáculo, além dos 16 trabalhadores, estarão ainda as Cantadeiras do Vale do Neiva e o Rancho Folclórico de Vila Franca do Lima, como elementos representativos da cultura regional, num total superior a 100 pessoas à volta da produção, a maioria amadores.

"Acho que está tudo nervoso, mas seria anormal não estarem. É bonita, esta emoção, mas eles estão muito preparados", assume o encenador, acrescentando tratar-se de um trabalho que "ultrapassou todas as expectativas iniciais".

"Nas últimas semanas nunca olhei para eles e pensei que eram amadores. Estávamos a preparar um espetáculo como se fossem profissionais", garante ainda Marco Martins.

A encenação é partilhada com Nuno Lopes que, igualmente, vê com surpresa o profissionalismo demonstrado pelos atores que descobriram na empresa.

"É incrível a generosidade e entrega deles ao projeto. Será uma honra enorme vê-los, agora, a representar", conta, sem deixar de abordar o atual momento de indefinição sobre o futuro da empresa.

"A peça é sobre Viana e o grande emblema são os estaleiros. Depois deste espetáculo, as pessoas vão perceber que não é justo que esta situação, da empresa, esteja a acontecer a estes trabalhadores. Vai ser muito tocante", garante Nuno Lopes.

 


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