“A preocupação com o bem-estar do espectador é uma constante no Rally da Finlândia”

“A preocupação com o bem-estar do espectador é uma constante no Rally da Finlândia”

 

Rui Jorge Cabral   Motores   19 de Ago de 2019, 09:25

Luís Pacheco, micaelense de 43 anos trabalha como responsável da qualidade na indústria tabaqueira. É um grande adepto de ralis, ao ponto de os ir ver ao estrangeiro. Nos últimos dois anos foi ao Rally da Finlândia e o seu olhar atento revela informações importantes sobre como se organiza um dos melhores ralis do mundo, que podem ser úteis para o Azores Rallye

O que tem de especial o Rally da Finlândia, que já o fez lá ir duas vezes?
Assistir ao vivo ao Rally da Finlândia - o mítico “1000 Lagos” - é o sonho de todos os verdadeiros amantes dos ralis. A etapa finlandesa é, sem dúvida, a mais carismática e prestigiada do WRC. Apelidada de ‘Grande Prémio de Jyväskylä’, é conhecida pelos seus troços em bom piso e muito rápidos, numerosos saltos e lombas cegas. As velocidades médias ultrapassam facilmente os 100 km/h com Ott Tanak, este ano, a cumprir as 23 provas de classificação a uma média de 123 km/h. Ingredientes de sobra para atrair os mais “fanáticos” pelas emoções fortes proporcionadas pelos ralis. Escusado será dizer que o Rally da Finlândia foi, durante muitos anos, um feudo reservado a finlandeses e suecos, até o espanhol Carlos Sainz quebrar a hegemonia em 1990, quando levou o Toyota Celica ST165 à vitória. Stig Blomqvist, Juha Kankkunen (vencedor do Azores Rallye de 2001), Markko Martin (vencedor nos Açores em 2000) e Kris Meeke (vencedor em 2009) são nomes que constam na lista de vencedores do maior evento realizado nos países nórdicos e conhecidos do público açoriano adepto da modalidade.


Qual é a logística de uma deslocação a este rali?
A deslocação a um rali que se desenrola a cerca de 4400 km dos Açores implica sempre um planeamento prévio. Assim que a F.I.A (Federação Internacional do Automóvel) dá a conhecer o calendário para o ano seguinte, é necessário reservar passagens aéreas, alojamento e carro de aluguer. Tudo realizado a partir de casa e através do computador. No caso do alojamento, tenho optado por uma pequena localidade situada a cerca de 25 km a sul da cidade de Jyväskylä (centro nevrálgico da prova) e muito central em relação à maioria das classificativas. A escolha dos troços a assistir e respetivas zonas é uma tarefa morosa e só possível graças às novas tecnologias. Cruzar informação, marcar os trajetos nos mapas digitais e preparar um “plano B” para o caso de uma ou mais especiais canceladas, é essencial, sem esquecer os limites de velocidade muito restritos nas estradas finlandesas. Para os menos destemidos há a possibilidade de optar pela excursão realizada pela organização da prova ou até mesmo requisitar o serviço de helicópteros para uma deslocação mais rápida.


Como descreve os adeptos finlandeses e como eles veem o rali, por comparação com os portugueses?
Com uma cultura muito própria, os finlandeses são pouco ou nada efusivos ao assistir à sua prova. Deslocam-se muito cedo para os troços, a maioria munida de cadeira e rádio, não faltando por vezes um escadote para um melhor campo de visão, enquanto os mais novos não dispensam proteção auditiva e uma pequena bandeira para acenar. Só se fizeram notar ao aplaudir as passagens de Kalle Rovanperä (o finlandês voador da mais recente geração) e Sami Pajari, o novo “protegido” da A.K.K.(Federação Finlandesa de Automobilismo). Uma postura em total contraste com alguns adeptos oriundos do lado do Báltico, do sul e centro da Europa, encarregues de fazer a “festa” com algum (muito) álcool à mistura...


Por comparação com o Azores Rallye ou com o Rally de Portugal, onde acha que temos a aprender com a Finlândia e onde acha que eles podem aprender connosco?
No meu “currículo” constam cinco edições do Rally de Portugal - a última em 2017. Comparar as duas provas, inseridas no mesmo campeonato mas com culturas antagónicas, não é um exercício “justo”. A preocupação com o bem-estar do espectador é uma constante na prova finlandesa. Para efeito, são delineados quilómetros de trilhos nas florestas de forma a encaminhar os adeptos nos troços, entrega de mapas para uma melhor localização e existência de parques de estacionamento onde estão definidas zonas para viaturas ligeiras, autocaravanas e motociclos. Tudo de forma rigorosa de maneira a possibilitar a saída em qualquer altura sem dificuldade. O acesso às classificativas e ao parque de assistência dá-se com o recurso ao “Rally Pass” ou adquirindo bilhete para o efeito, tudo controlado por comissários de estrada e seguranças com muitos anos de experiência e denotando uma postura sempre cordial.
Uma nota também para as zonas designadas de “Rally Arenas”. Da responsabilidade dos patrocinadores da prova são dotadas de restaurantes, entretenimentos vários, WC e ecrãs panorâmicos. No parque de assistência, saltam à vista as iniciativas a pensar nos mais novos, quer por parte das equipas oficiais quer pela organização, não faltando uma pequena pista de karting improvisada a pensar nos futuros campeões finlandeses.


Dos muitos pilotos que viu passar no WRC e campeonatos locais, quem ou que carros o impressionaram mais e porquê?
Os atuais “World Rally Cars” estão em um patamar de eficácia a roçar o limite. Motorizações a rondar os 400 cv, 1200 kg de peso e todo o conjunto aerodinâmico são argumentos de peso que garantem andamentos espetaculares nos rapidíssimos troços nórdicos. Ott Tanak é, de momento, o alvo a abater no WRC. O piloto da Toyota revelou-se, tal como no ano passado, muito à vontade na Finlândia faltando apenas à marca nipónica a tripla no pódio, já que na Finlândia estão a correr em casa. Não pontuando para o campeonato finlandês, a prova contou novamente com o Troféu Vetomies - designação para pilotos bravos que não hesitam nas curvas - competição aberta a locais e a forasteiros. A maioria das viaturas são de tração traseira e englobadas no Gr.F, com potentes BMW M3, Toyotas Starlet “vitaminados”, Volvos 240 entre outros. De registar o elevado número de inscritos (100 equipas), os andamentos vivos e o estado irrepreensível de apresentação das viaturas.


Tem histórias engraçadas que tenha presenciado nos troços da Finlândia e que queira aqui partilhar?
Ainda antes do rali, fui surpreendido na “rent-a-car”, no aeroporto de Vantaa, com a necessidade de assinar um documento em que me comprometia a não usar a viatura nos reconhecimentos e/ou na prova propriamente dita... De resto, como em outros ralis, situações caricatas e curiosas são sempre uma constante: desde ver um autocarro puxar um atrelado com a estrutura de uma sauna e um indivíduo a circular na periferia do traçado da Super Especial com um cartaz pendurado ao pescoço, onde se podia ler “Acredite em Deus e não em ralis”. Outros episódios não são propriamente caricatos, mas são reveladores da mentalidade e seriedade do povo “Suomen”. No ano passado, ao sair do troço de “Kakaristo” e a caminho da viatura, uma nota de 5 euros, ao tirar o telemóvel da algibeira, caiu inadvertidamente. Prontamente, dois finlandeses fizeram questão de me alertar para o sucedido. Este ano, tive um episódio semelhante com uma das moças do “merchandising” da Neste, principal patrocinador do evento, a correr parte do parque da assistência para me entregar o troco deixado atrás. A bandeira açoriana despertou, tal como em 2018, a curiosidade de vários adeptos e elementos da organização. Desde a confusão com a bandeira da República de San Marino, passando pela estupefação com a existência de ilhas no meio do Atlântico Norte e a surpresa pela distância a que me encontrava de casa. Apenas um espectador, um fotógrafo amador belga, associou a bandeira ao “nosso” Azores Rallye.


Foi ver o rali, mas foi também turista na Finlândia... Acha que os ralis são, de facto, uma forma de promover o turismo e de chamar pessoas a um território?
A Finlândia não é propriamente um destino turístico. As características da prova nórdica são um chamariz para milhares de forasteiros adeptos da modalidade que emprestam um colorido diferente à zona central da Finlândia durante quatro dias. No meu caso, fiquei “cliente” do evento, da gastronomia rústica e de toda a beleza natural do país. Acredito que os ralis não deixam de ser um fenómeno promotor do turismo de uma região, mas sou cético em relação à ordem de grandeza dos números dados a conhecer pelos estudos de impacto económico de certos ralis.



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