Açoriano Oriental

Opinião

Germano Tavares Casamento comercial

Germano Tavares
Jornalista

2010-09-08

“Valente & Gonçalves , L.da. , proprietários, de vinte anos de idades, desejam corresponder-se com menina de 16 a 20 anos de idade, para fins matrimoniais. Pede-se o envio de fotografia, Resposta a ...” Foi este o anúncio no qual apenas se omitiu a direcção dos seus autores que um periódico de grande expansão inseriu num dos seus números. Na busca de velhos papéis, deparamos com o mesmo, amarelecido para os nossos dias. Uma firma casadoira, ou melhor, dois sócios que desejavam ligar os seus destinos pelo matrimónio e, como se depreende, a situação da sociedade era de próspera amizade; segundo o velho provérbio – de uma cajadada matar dois coelhos – reúnem num anúncio a solução dos seus problemas sentimentais. Inédito, um prodígio de imaginação o que acabamos de relatar, podia denominar-se “casamento comercial”. Que miséria misturar o amor, o futuro lar que se pretende constituir, com o negócio! Nem que um casamento faça parte integrante de uma sociedade! Que dirão um dia os filhos destes cônjuges ao saberem que se realizou o enlace dos seus progenitores? Triste demência da firma que se mostra pouco exigente: tanto lhe faz que a candidata seja baixa ou alta, loura ou morena, tenha olhos pretos ou azuis, possua pés chatos ou tenha bicos de papagaio, seja geniosa ou calma, tenha ou não qualidades morais. Isso não interessa, o principal é que a pretendente remeta foto e tenha entre os dezasseis a vinte anos. O resto será a sociedade que procederá à escolha, talvez sorteando as fotos para garantia do primeiro e segundo lugar. Oxalá não surgem depois divergências entre os sócios quando pessoalmente receberem a “mercadoria... humana” despachada que lhes for expedida e consignada para fundar aquilo que não sabem respeitar: o lar, a futura mãe dos seus filhos. Se os nossos avós ressuscitassem e tivessem a oportunidade de assistir a descalabro destes voltariam apressadamente ao sono eterno. O mundo a acabar? Não! O que está a desaparecer a olhos vistos é o bom senso. A prova são estes homens que confundem o casamento como uma vulgaríssima transacção comercial ou industrial! Que Deus nos acuda! Sua Excelência o Dinheiro Vem de séculos a introdução de Sua Excelência no mundo, talvez antes de Cristo. É histórica a expulsão dos vendilhões do templo, onde faziam o seu negócio, assim como Judas a troco de trinta dinheiros ter vendido o seu Mestre. Decorrem os tempos e continua Sua Excelência a permanecer como Rei supremo e absoluto e a impor-se pela sua força. Graças a ele se construíram e se embelezaram cidades, rasgaram-se avenidas e estradas, electrificaram-se cidades, vilas e aldeias, a navegação lançou os mais modernos e luxuosos transatlânticos, assim como a aviação os mais sofisticados aviões aumentando o seu raio de acção propiciando aos passageiros maior rapidez. A ciência efectua novas descoberta no campo da medicina lançando novos medicamentos. Realizam-se as viagens interplanetárias, o Homem vai à lua, o computador invade o planeta entrando sem barreiras em todo o mundo. A cirurgia alcança o seu maior êxito em todos os campos, fazendo curas que em casos de outrora eram totalmente impossíveis. Transplantam-se órgãos, como pedras de xadrez, devolvendo aos pacientes a cura que dantes era impraticável. Isto tudo e muito mais graças a Sua Excelência: o dinheiro. No inverso Sua Excelência origina os maiores dissabores e as grandes preocupações tornando por vezes o odioso para aqueles que não conseguem aproximar-se de Sua Excelência (uns magros cêntimos) e assim temos os que mal conseguem ganhar o sustento para os familiares, os que desejam comprar uma casa para se abrigarem, os que necessitam de conforto e não podem, e todos os sonhadores de uma vida melhor. Sua Excelência tem feito perder muitas cabeças e alguns que se vendo com muito acabam por gastar mais daquele do que ganham perdendo tudo o que possuíam. É desses que os amigos, se afastam visto que se aproximavam era de Sua Excelência o dinheiro e não da pessoa. Sua Excelência conseguiu obras de grande mérito e em contrapartida origina muitas desavenças arruinando até por vezes alguns lares. Por ele se têm praticado alguns dos mais repugnantes crimes, com o ganancioso de o adquirir, havendo pessoas que não olham a meios para atingir fins. Fazem-se sequestros, matam-se inocentes, sovam-se crianças e adultos, assalta-se em plena rua, criam-se armadilhas para destituir cargos, inventam-se calunias para destroçar cargos tudo por Sua Excelência o Dinheiro. Grande número de pessoas tiveram de emigrar sair da sua terra abalando para uma vida dura e difícil por causa de Sua Excelência o Dinheiro. Por ele se criaram montões de papéis, visto tudo o que se paga é por meio de avisos e recibos, não contando com a papelada que antecede estes pagamentos. É uma pessoa tão importante que todos se curvam tirando-lhe respeitosamente o chapéu ou um aceno exagerado. Os homens passam, assim como o avarento, o egoísta, o ganancioso, o esbanjador, mas Sua Excelência o Dinheiro continuará enquanto existir o mundo, a ser a felicidade de uns e o grande mal de outros. Aventura de um Cão Era um cão vulgar, vadio talvez não, porque ainda trazia ao pescoço os restos do que fora uma coleira, rebentada possivelmente na ânsia de aventura, conhecer novos rumos por ele ignorados. A falta de hábito de caminhar por artérias de grande trânsito e a fraqueza motivada pelo negrume da fome contribuíram para que fosse colhido por um automóvel na artéria citadina. Resistindo ao choque, lá se foi arrastando penosamente, com as patas traseiras paralisadas naquele momento, até ao tapume onde se estava construindo um novo edifício. Os operários, condoídos, atenuaram o sofrimento, improvisando para ele uma cama com sacos de papel para cimento. Conta-se que um dia, ao passar a rede, os funcionários camarários, no cumprimento das suas funções, tentaram levá-lo, mas os operários opuseram-se tenazmente; e assim continuou o animal junto do tapume, até que o mesmo foi tirado, deixando o bicho a descoberto. A sua aventura tornou-se conhecida dos moradores mais próximos daquele local que tomaram a seu cargo a alimentação do animal, levando-lhe comida e água. Do acidente, e sem tratamento, o cão encontrava-se completamente curado, mas não arreda pé do sítio onde o trataram, mostrando nitidamente o seu reconhecimento a todos aqueles que o ajudaram ao longo do período sua doença. É vê-lo abanar a cauda em sinal de alegria, quando alguma das pessoas amigas se acerca. O cão mostra-se grato. Fossem assim algumas pessoas!

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