Açoriano Oriental

Opinião

Maria Conceição Brasil Não à xenofobia e ao racismo

Maria Conceição Brasil
Professora

2010-09-08

Estamos a assistir a um fenómeno que muitos de nós, cidadãos Europeus, não esperávamos: a expulsão da Comunidade Cigana de França. Perante este facto temos de, não só denunciar mas principalmente tomar medidas severas no âmbito da União Europeia e assentes nos Direitos Humanos para travar já o seu alastramento - muito conveniente em tempos de falta de recursos - a outros países. Repare-se que a 26 de Agosto do ano corrente o Arcebispo de Paris, a comissária da Justiça da UE e a Amnistia Internacional condenaram veementemente esta medida tomada levianamente pelo Presidente Francês. Eis algumas das opiniões das figuras públicas que citei no parágrafo anterior: o Arcebispo de Paris afirma que “…certos limites não devem ser rompidos e que a questão foi tratada como um circo durante o Verão.” Num sermão recente, o mesmo criticou a deportação (referindo-se aos ciganos, evidentemente). Por seu lado a comissária da Justiça da UE, Viviane Reding, também criticou a medida usando estas palavras: “- Parte da retórica que tem sido usada é abertamente discriminatória e potencialmente incendiária”. Para a Amnistia Internacional - ONG que monitoriza os Direitos Humanos no mundo - a postura do Governo Francês pode levar a mais discriminação (pedaços de texto retirado de uma página da Internet, sem nome de autor). Hoje, dezenas de membros de etnia cigana manifestaram-se, na Roménia, contra a política francesa de expulsão de membros da comunidade. Repare-se que os “repatriamentos”, ou como lhe queiram chamar, estão a ser feitos em massa. O normal creio que seria fazê-los por razões de criminalidade, ou outras, que pusessem em causa a segurança dos cidadãos residentes em França, naturais ou não. As palavras do Papa Bento XVI proferidas a 22 de Agosto (estou sempre a referir-me ao ano 2010) reprovam as expulsões de ciganos pelas autoridades francesas, no âmbito do reforço da política de segurança do Presidente Nicolas Sarkozy. Também, perante peregrinos franceses, o Papa apelou ao acolhimento dos homens de todas as origens, exortando, também, os pais presentes a educarem os seus filhos na fraternidade universal. Continuando a usar palavras do Santo Padre, cito: “Os textos litúrgicos de hoje reafirmam-nos que todos os homens são chamados à saudação. É também um convite a saber acolher a diversidade humana, tal como Jesus representou os homens de todas as Nações e de todas as Línguas”. Não posso deixar de afirmar aqui, sabendo que corro o risco de não ser compreendida, que a Igreja Católica nem sempre tem actuado da forma mais correcta quanto à aceitação de todos os homens, independentemente das suas origens, crenças ou outras diferenças. Vejo muitos ministros da Igreja actuarem - no que se refere à igualdade entre os homens - de forma incorrecta e nitidamente discriminatória. As palavras do Papa Bento XVI sobre este triste episódio dos ciganos não cabem na vivência de alguns sacerdotes e/ou homens com responsabilidades na Igreja. Continuando a reflexão sobre a expulsão dos ciganos em França, não posso deixar de entregar a quem me lê a frase de Jean Pierre Dubois, presidente da Liga de Direitos Humanos francesa: “A linha vermelha foi ultrapassada”, bem como a principal “palavra de ordem” que se ouviu no último sábado durante a manifestação de Paris que reuniu de doze a quinze mil manifestantes, encabeçada por ciganos romenos que eram seguidos por personalidades políticas, sindicais, associativas ou artísticas: “Não à xenofobia e à política de repressão. Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Oh França, que é feito dos princípios fundamentais do humanismo que aí tiveram berço? Sim, foi aí que nasceram os ideais que hoje legitimamente reclamam os que expulsas do teu território. A continuarem tais repressões, agora com a expulsão dos mendigos, a União Europeia terá que tomar medidas bem pensadas e articuladas com os outros países que dela fazem parte, a fim de parar este momento triste que pode mudar o rumo que a História preconizava para o espaço Europeu.

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