Opinião
Um homem caminha seguro em cima dos próprios pés. É mais seguro caminhar em cima dos próprios pés, pensamos nós, enquanto escrevemos o princípio da crónica desta semana. Não há muito a explicar senão que a “imagem” que aqui se pretende deixar a quem ler ou passar os olhos é a de um homem a caminhar seguro e em cima dos próprios pés. Não é fácil de ver. Mas vê-se. E por isso merece reparo a beleza que é ver um homem – ou mais do que um – a caminhar seguro (e não em segurança) em cima dos próprios pés… O peso do caminhar seguro. O peso que não é fardo. O fardo que não é um homem. Um homem que é só isto: o pé seguro e o caminhar tranquilo. Nestas linhas tem-se a certeza de que é muito difícil (mesmo arriscado) escrever sobre um homem ou uma mulher (convém introduzi-la agora antes que as defesas dos géneros se abram em leque, convulsivamente). Mas dizia eu, é muito difícil escrever sobre este assunto – sem nomes, sem datas, sem o onde estava, sem se era de algum partido político, se tinha franja ou se cofiava o bigode, se fez dois jardins ou vendeu duas casas, se usa brincos ou prefere anéis, porque (sempre a causal a meter-se no meio das frases e das questiúnculas) é “claro como a água” haverá sempre dois ou três personagens (válido para o feminino) a sentir-se logo ameaçados, acusados, retratados, quiçá ofendidos… Estão pois inseguros do caminho, fraquinhos dos tornozelos, a precisar de comprar sapatos novos… A liberdade de se escrever uma crónica (Sim. Repetição.) é essa mesma. Tanto se pode falar dos pés de um homem que caminha seguro em cima dos próprios tornozelos como de outra coisa qualquer (pastas de dentes incluídas, naturalmente). Aqui neste espaço, que o jornal me oferece amavelmente, escreve-se serenamente e (sempre) tendo por base uma máxima aprendida há muitos anos: “ giga direita, traz segurança aos tornozelos.” A terminar e porque não se quer alongar muito a história dos pés, citamos o excerto da letra de “Heroes del silencio”, que intitula a crónica desta semana, que marca também a volta do “Serenamente” às páginas do Açoriano Oriental depois das belíssimas férias que passou perto de coisas triviais que são fundamentais e de pessoas e recordações fundamentais que são insubstituíveis. Repetindo o fundamental digo, ainda, que dentro de qualquer sapato é importante poder caminhar seguro em cima dos próprios pés. Seja onde for. Até ao pé-coxinho. Até para a semana.
Últimas opiniões de Mariana Matos








