Opinião
Esta fuga para a frente que caracteriza o Portugal dos nossos dias, com um discurso “rosadinho” que agrada aos adeptos da teoria do avestruz, acabará mais tarde ou mais cedo como na Grécia: completamente à mercê dos credores. Há cerca de um ano conheci uma árvore que me impressionou, um grande e velho castanheiro, daqueles que dão uns ouriços dos quais saem as castanhas que fazem as delícias dos adeptos de São Martinho, o das “castanhas e vinho”. O exemplar de que falo estava em mísero estado de conservação, doente, sem ouriços, quase sem folhas, suplicando “salvem-me” a quem dele se apiedasse. Teve sorte: quem comprou o terreno onde está implantado o nosso castanheiro foi a TetraPi, daí que o modelar estabelecimento de ensino que lá construíram tenha o nome de Colégio do Castanheiro. Também o Colégio teve sorte, porque quando olhei a árvore pela primeira vez e tive a noção da urgência em intervir, antes que fenecesse de vez, pensei logo em recorrer à minha amiga de infância Fátima Gomes de Meneses, Engª Técnica Agrária e especialista em plantas e maleitas das ditas. A Fátima assustou-se quando viu o estado decadente da árvore, mas pôs as mãos nela de tal forma, aplicando-lhe uma poda de limpeza com curativos de tal sorte que está viçoso, cheio de ouriços verdinhos e folhas resplandecentes. Ninguém imaginará, quando subir a alameda de entrada, que o símbolo do Colégio do Castanheiro esteve quase moribundo, antes da magistral poda da Fátima. A propósito desta espectacular recuperação vegetal e uma vez que estamos a falar do ex-libris de um Colégio que tem todas as condições para ser um exemplo no panorama educacional português, convém recordar aqui alguns estudos que se vêm fazendo pelo menos desde 2001, tendo como objectivo avaliar as escolas públicas e privadas que, do 1º ao 12º anos, preparam para a vida a juventude portuguesa. A primeira avaliação comparativa, baseada nos resultados de exames nacionais e a que se poderia portuguesmente chamar seriação, mas a que toda a gente chama ranking, foi feita pelo jornal “Público” em parceria com a Universidade Católica Portuguesa e foi uma verdadeira pedrada no charco. Preto no branco, ficou clara a supremacia da qualidade do ensino privado sobre as escolas públicas. Embora claramente residual em número, entre as mais de 600 escolas escrutinadas, o ensino privado colocou, em 2004, 8 escolas nos 10 primeiros lugares, tendo apenas 2 públicas – a Escola Secundária Infanta D. Maria de Coimbra (6º) e a Escola de Música Calouste Gulbenkian, de Braga (7º) – nessa dezena de topo. No 1º lugar apareceu um Colégio de Vila Real de Trás-os-Montes e em 2º o Colégio Luso Francês do Porto. A cadeia de televisão SIC também vem, desde 2005, fazendo as suas seriações, sendo curioso verificar que, nos últimos 5 anos, o número de escolas públicas colocadas nos 10 lugares cimeiros, desceu de 3 para 0. Nos 20 primeiros, diminuiu de 7 para 1. Alguma coisa de muito negativo se passa no Ensino Público, para a sua qualidade estar a diminuir deste modo. O facilitismo, corporizado na dificuldade que um professor tem em reprovar um aluno, mesmo que este seja manifestamente mau, é sem dúvida um dos piores males, mas não é, infelizmente, o único. Não admira que quem tenha possibilidades financeiras ponha os seus filhos no ensino privado – e que, por esta via, este tenha os melhores alunos. A jusante deste modelo degradado de Ensino Básico e Secundário, paralisador dos docentes e nivelador por baixo dos alunos, fica o receptor do “produto”: o Ensino Superior. Massificado, resultado de uma explosão incontrolada de instituições que proliferaram como cogumelos por tudo quanto é canto de Portugal, também ele precisa de uma reviravolta que tarda em verificar-se com grave prejuízo para a sua qualidade. Os antigos bacharéis são agora licenciados, tendo-se criado um conjunto de situações caricatas, nomeadamente quando um licenciado A.B. (Antes de Bolonha) com 5 anos de escolaridade universitária obrigatória, se vê com o mesmo título de um D.B. (Depois de Bolonha). Pior: esse A.B. permanece licenciado, mas um D.B. com mais 2 anos fica com um grau de Mestre. Andou-se todos estes anos a preparar as Instituições de Ensino Superior para o Espaço Europeu de Ensino Superior, da mesma forma que se prepararam os países da União Europeia a 15 Estados Membros para os alargamentos a 25 e a 27 Estados: de olhos vendados. A 15, uma verdadeira União era possível; a 27, vai custar muito mais e vai levar muito mais tempo. Com as “bolonhices”, os ganhadores serão sempre as instituições cujo modelo estava mais próximo do de Bolonha, como é o caso dos britânicos. Portugal cometeu ainda um erro suplementar, ao não aproveitar o processo para reformas de fundo e reduzir drasticamente o número excessivo de Instituições de Ensino Superior. Fala-se muito da falta crónica de financiamento no sector, mas onde se esperava que tudo acabasse? O que se fez para eliminar o que manifestamente está a mais? Mariano Gago e José Sócrates, com reconhecida habilidade, têm ludibriado estudantes, docentes e dirigentes do Ensino Superior, mas fugiram sempre ao bico-de-obra de fundo, que é fechar o que está mal, para haver recursos para o que está bem. Mais tarde, alguém vai pagar muito caro. Esta fuga para a frente que caracteriza o Portugal dos nossos dias, com um discurso “rosadinho” que agrada aos adeptos da teoria do avestruz, acabará mais tarde ou mais cedo como na Grécia: completamente à mercê dos credores, porque 90% da dívida grega está nas mãos de estrangeiros. Curiosamente, nem na imprensa especializada portuguesa se lê quanto da dívida nacional é detida por estrangeiros, sejam da União Europeia ou outros. A ideia de que somos “soberanos”, que o que temos e fazemos é decidido por nós próprios, é cada vez mais um mito inatingível, que de modo algum se resolverá aumentando impostos ou comprando submarinos mal comprados. Como se explica que o sector empresarial do Estado tenha acumulado uma dívida de 25000 milhões de euros, representando 15% da riqueza anual produzida pelos portugueses? É preciso uma reflexão profunda sobre o que gastamos, como gastamos e para quê. Não é só uma questão financeira, ou um problema comportamental de quem se habituou a despender o que não tem. Basta ver como as pessoas desconfiam da Lei e da Justiça, da Saúde e da Educação, do Estado e do Governo, para percebermos que tudo está a precisar duma poda de limpeza, à boa maneira do castanheiro que a Fátima tratou.
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