Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Menos setecentas

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-08-30

Mais concretamente são 701. Refiro-me às escolas que vão fechar no início deste novo ano lectivo. Um país com menos 700 estabelecimentos de ensino abertos é impreterivelmente um país mais pobre. E mais desertificado. Independentemente dos argumentos que se esgrimam em defesa de tal medida. É isto que nos fica na cabeça ao ouvirmos a notícia de que o Ministério da Educação decretou, neste ano lectivo que agora começa, o encerramento de todas as escolas que tenham menos de 21 alunos. Em face desta notícia, ficaram-me a ressoar na cabeça factos que são do senso comum, a saber: a) o fecho de escolas provoca a desertificação das localidades, já que os pais das crianças deslocadas tendem, mais tarde ou mais cedo, a instalar-se junto às novas escolas; b) em termos do número de estudantes, haverá uma sobrecarga dos estabelecimentos de ensino que receberem estes alunos “deslocalizados”, o que me parece ser uma evidente contradição se pensarmos em tudo o que tem sido dito nos últimos anos a propósito de um ensino que deve ser mais tutorial, mais personalizado, dando maior atenção a cada caso individual; c) o fecho das escolas gera mais desemprego, já que são postos de trabalho que são extintos, tendo o pessoal de ser transferido para outros centros de ensino e integrado em instituições também elas já no limite de recursos humanos; d) acentuando a crise que já se vive, e sobretudo no caso de localidades remotas, esta “sangria” de gente terá evidentes repercussões económicas, pois menos população implica evidentemente uma menor dinâmica comercial e produtiva. É evidente que, como qualquer medida que se revele polémica, esta teve não só detractores como também apoiantes convictos. Para estes a argumentação passa por alegar que: a) as crianças transferidas passam a ter mais convívio com um maior número de colegas, o que é um contributo para que tenham um desenvolvimento salutar; b) o encerramento das 701 escolas rentabilizará o parque escolar, poupando assim muito dinheiro aos cofres do Estado. Não será decerto somente o desequilíbrio numérico entre argumentos que me fará defender a primeira posição. Afigura-se-me, afinal, fácil encontrar razões contra aqueles que aprovam esta medida “assassina”. Em primeiro lugar, quantidade não é qualidade: levar uma dúzia de meninos e meninas de um ambiente familiar e acolhedor para outro em que se apinham nas aulas, nos recreios, nas filas para o refeitório, não me parece um ganho em qualidade de vida. A massificação leva a fenómenos nocivos que passam muitas vezes despercebidos, precisamente devido ao elevado número de alunos que as escolas hoje comportam. Muitos não passam da condição de “another brick in the wall”... Quanto à rentabilização, é um motivo muito consentâneo com a escala de valores que impera nas sociedades contemporâneas, ditas desenvolvidas. Sobrepõe-se o dinheiro a factores humanísticos e culturais. Se não garante lucro e, pelo contrário, dá prejuízo, deve ser descartado e ponto final. Estamos conversados. Para além de contestar esta “pirâmide” de valores em que o factor económico ocupa o lugar de topo, uma outra dúvida se me coloca perante o critério escolhido. Porquê as escolas que têm 20 alunos? O número é questionável. Qual a razão desta conta tão redonda? É que, numa pequena escola de aldeia, 20 crianças é já bastante. E pode significar a renovação demográfica do lugar, pois mesmo que estes miúdos saiam mais tarde da terra para estudar, há sempre a possibilidade de a ela voltarem, pois nela criaram raízes que deixam marcas bem fundas para o resto da vida. Gosto de Isabel Alçada. É simpática, activa, culta, e dedicou grande parte da sua vida a pôr crianças e jovens a ler mais e melhor. Quando foi nomeada, imediatamente receei pelo seu bom nome. Não acredito que ela tenha aceite pela sede de poder (como acontece noutros casos), daí que eu ache que é preciso ela ter muito espírito de missão para carregar este fardo difícil de suportar. Infelizmente, aquilo a que temos assistido é a um Ministério da Educação desnorteado, que promulga medidas avulsas, pouco eficazes e por vezes até nefastas. Como é o caso desta medida e daquela que acaba com os “chumbos”. Mas desta última falarei na próxima semana.

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