Opinião
Nas minhas passagens por Lisboa, um dos passeios que de que não prescindo é uma ida a Belém, nem que seja só para dar uma espreitadela à Praça do Império – onde o Centro Cultural de Belém (que muito aprecio) não consegue ofuscar a imponência do “nosso” Mosteiro dos Jerónimos – e para saborear um delicioso pastel de Belém. Ora, neste trajecto há sempre um edifício enorme que me chama a atenção pelo seu aspecto pouco português, muito a fazer lembrar os romances de Charles Dickens, verdadeiros “frescos” da Revolução Industrial. Falo do Museu da Electricidade, outrora Central Tejo, antiga produtora de energia eléctrica. Desta vez, porém, foi uma exposição que lá me levou. No âmbito da comemoração dos 100 anos da República Portuguesa, o museu teve a brilhante ideia de fazer uma coisa diferente, construída com base num conceito mais transversal: o “Povo”. Esta é uma exposição temática, riquíssima em iconografia, em documentação textual, visual e audiovisual. Nela cruzamo-nos com representações artísticas do povo feitas pela mão de artistas tão díspares como os poetas Cesário Verde, Almada Negreiros e Pessoa, pintores como Silva Porto e Paula Rego, ou fotógrafos como Fernando Lemos e Eurico Lino do Vale. Comissariada por José Manuel dos Santos, director cultural da Fundação EDP, a mostra procura explorar as várias faces e definições que o povo pode ter, pelo que não se restringe a uma visão meramente marxista da massa popular, embora também marque forte presença o povo trabalhador que luta pela justiça e pela igualdade. Mas o que mais me interessou foi a alteração de perspectiva de que aquela classe a que chamamos “povo” foi sendo objecto nos últimos dois séculos. Com as modificações de que foi alvo a sociedade contemporânea – massificação, globalização e paradoxal acentuar do individualismo, sobrevalorização do consumo – o “povo” passou de massa trabalhadora (e eventualmente explorada) a massa consumidora. É por isso que, no meio de iconografia alusiva às lutas pela liberdade, vemos surgir objectos que nos conduzem a uma perspectivação do povo enquanto sujeito de consumo. Assim se compreende que uma das secções seja ocupada com peças como anúncios antigos a electrodomésticos (aludindo às maravilhas do aspirador e do ferro eléctrico, por exemplo), quando não com os próprios electrodomésticos. É já quase um universo pop, ao jeito de Andy Warhol, em que um frigorífico dos anos 50 pode tornar-se ele próprio objecto de contemplação e pretexto para reflexão. O título dado a uma das salas remete precisamente para esta passagem do povo de trabalhador/lutador para consumidor: “Queres fiado? Toma!” é a expressão tomada de empréstimo das figuras do Zé Povinho, celebrizado por Rafael Bordalo Pinheiro. Numa primeira leitura – a antiga – aquele “Toma!” seria acompanhado de um gesto retratado por este artista, também ele popular: o manguito. Assim, o “Toma!”, numa versão suavizada, seria sinónimo de recusa, de resposta negativa. No entanto, não consegui deixar de ver uma certa ambiguidade na transposição destas frases para os dias de hoje. Ou seja, não estamos nós constantemente a ser assediados precisamente para que nos dêem “fiado”? Para nos endividarmos? Para recorrermos ao crédito, nome moderno do antigo “fiado”? Assim, este “Toma!” deve hoje ser lido à letra, como uma verdadeira “oferta” e não como recusa. Ironias do tempo. Mas há mais, muito mais para ver. O edifício, em si próprio, já vale a visita. O catálogo é muito rico em informação e bastante original: em papel de jornal, sem encadernação, muito de acordo com o espírito da exposição. Se puder, não deixe de ver, até 19 de Setembro. Mas vá cedo, que o encerramento às 18 horas não é consentâneo com horários de turista que passa os dias despreocupado, sem olhar para o relógio.
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