Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Deadly season

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-08-16

Será que daqui a uns anos o Verão vai continuar a ser conhecido como a “sillyseason” (que, em bom português, significa “estação tonta”)? É que a “sillyseason” é aquela em que supostamente nada de verdadeiramente importante acontece. Vai-se a banhos ou para o campo, viaja-se para o estrangeiro ou dentro do país, descansa-se, relaxa-se. Ora, o cenário a que normalmente assistimos na estação mais quente do ano repete-se todos os anos e nem por isso o podemos classificar como “ligeiro” ou “sem importância”. Refiro-me à sucessividade de desgraças em que são prolíferos estes três meses do ano: incêndios, afogamentos e acidentes de viação. Dir-me-ão que são tragédias consentâneas com o calor intenso que normalmente se faz sentir nesta época do ano,bem como com a elevada mobilidade dentro do país. Serão, portanto, relativamente “normais” e esperadas. Porém, o que não é nada normal é o facto de estes incidentes se repetirem sistematicamente ano após ano, sem que haja qualquer sinal de medidas efectivas que contribuam para que eles diminuam. Veja-se o caso dos incêndios. Há décadas – literalmente décadas – que os nossos Verões são sinónimo de florestas a arder, sem que se providenciem atempadamente os meios necessários para este combate desigual. É um inferno de chamas que alastra pelas manchas verdes e ameaça povoações. Neste momento, o balanço já é de várias mortes de bombeiros – esses heróis pouco recompensados que só são lembrados nesta altura – e muitos hectares de terreno e de haveres ardidos. De norte a sul do país, poucos distritos escapam a este flagelo. Mão criminosa ou negligência? Quer uma explicação, quer outra revelam a inépcia do nosso país para lidar com este problema. Para o fogo posto deveria haver legislação mais pesada e vigilância mais apertada que impedisse a impunidade em que vivem os incendiários; os incêndios causados por negligência remetem para a própria formação cívica do cidadão. Há obrigações e condutas que o português deveria interiorizar, desde limpar os terrenos de todo e qualquer material combustível, evitar queimadas que podem sair fora do controle e até banir gestos mais simples como deitar beatas acesas pela janela do carro. A mesma atitude negligente dá azo a afogamentos e a enorme sinistralidade rodoviária. Se fôssemos um povo mais cumpridor de regras, menos impulsivo e mais racional, provavelmente muitos destes desastres seriam evitados. É comum ver gente a aventurar-se em mares e rios perigosos e assistir a manobras altamente arriscadas na estrada, cujo top é ocupado pelas ultrapassagens sem o mínimo de visibilidade. E é isto todos os anos, sem excepção. As notícias do ano passado parecem ser repetidas este ano e assim sucessivamente, tal é a semelhança dos factos. Segundo me parece, esta situação só melhoraria se houvesse mudanças quer a nível individual, quer a nível institucional. Tem de se insistir em campanhas de educação cívica, as quais talvez já não resultem tanto para as gerações mais velhas, mas darão certamente os seus frutos nas mais novas. Isto vem sendo feito nas escolas e hoje é comum ouvir crianças em casa “ensinando” os pais a “comportarem-se”, a terem atitudes de respeito para com os outros e para com o meio ambiente. Já vi, por exemplo, crianças a “obrigar” os pais a fazer reciclagem, simplesmente porque a mensagem lhes foi transmitida na escola pelos professores. Tenho esperança de que aos poucos esta “sillyseason” deixe de ser também uma “deadlyseason”, provavelmente a estação mais mortífera do ano.

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