Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Algarve

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-08-09

Que o Algarve se torna, no Verão, a região do país com mais visitantes estrangeiros e portugueses por metro quadrado já não é novidade para ninguém. E é bom que assim seja, a fim de que as indústrias e serviços que vivem do turismo se possam manter. Sempre houve uma diferença – já histórica – entre o barlavento e o sotavento. No primeiro, abundam as grandes construções, os grandes empreendimentos, os grandes edifícios que, ao longo dos tempos, foram descaracterizando a paisagem tipicamente algarvia. Quarteira e Albufeira são disto um exemplo inigualável. Já no sotavento, encontram-se lugares, vilas e aldeias ainda com casas caiadas, térreas, de chaminés recortadas e com os terraços prontos para secar fruta ou para se apanhar um bom banho de sol. O lado Este – de Faro a Vila Real de Santo António – é o Algarve mais rústico, genuíno, virgem. Para o interior, estende-se o barrocal, o Algarve das serras, mais arborizado e sem o atractivo das praias, mas igualmente castiço. Uma das aldeias perdidas no meio destas serras é Alte, que, nos tempos salazarísticos, disputou com a aldeia de Monsanto o epíteto de “aldeia mais portuguesa de Portugal”. Perdeu, mas a povoação continua a receber visitantes com a singeleza e hospitalidade que sempre foi seu atributo. No chamado “Algarve das praias” muito mudou. O “vírus” do progresso (se assim se lhe quiser chamar) espalhou-se a toda a costa sul do país. Este “progresso” de que falo traduz-se em sinais exteriores de cosmopolitismo e modernidade: edifícios altos que cortam a vista e formam uma barreira à beira-mar, aldeamentos turísticos ultra-sofisticados, bares e restaurantes onde só se ouve falar inglês, espanhol, alemão, francês... A propósito disto, recordo o que me aconteceu há dias. Estando eu num restaurante numa destas povoações, dirigi-me à empregada (por sinal com um ar nórdico que me deveria ter posto de sobreaviso para o que iria acontecer) e pedi-lhe uma água, ao que ela me respondeu serenamente: “Sorry, but I don’t speak Portuguese”. Fiquei boquiaberta e senti-me estrangeira no meu próprio país. Eu que sou tão dada a idiomas e que adoro ambientes cosmopolitas, vi-me na iminência de ter um ataque de patriotismo primário. Este pequeno episódio tem duas leituras complementares: a primeira diz-nos que se aceita já como algo perfeitamente normal que entremos num estabelecimento em pleno território nacional e sejamos obrigados a falar numa língua estrangeira; da segunda se deduz que deve ser tal a falta de mão-de-obra especializada para o atendimento a estrangeiros (funcionários que falem fluentemente português e inglês, pelo menos) que há necessidade de contratar alguém versado na língua franca contemporânea que é o inglês, mesmo que esse alguém não entenda uma palavra de português. “Algo vai mal no Reino da Dinamarca”, já dizia (mais coisa menos coisa)o admirável Shakespeare. E não se leia nestas minhas palavras qualquer laivo de sentimentos xenófobos. Abomino-os com todas as minhas forças. Definitivamente, o problema não está nos estrangeiros que nos visitam ou que cá vivem. Está em nós mesmos, portugueses. Vejamos, por exemplo, o reverso da medalha deste tão apregoado “progresso”. De Sagres a Vila Real de Santo António há poucas escolas e fracas infra-estruturas de saúde que providenciem apoio à população móvel que se desloca à região e enche os hotéis nesta altura do ano. Se tivermos o azar de ter de ir a um centro de saúde, ficamos sujeitos às “inscrições” que o médico de serviço aceita e se nos atrevermos a esboçar algo parecido com um lamento, somos bombardeados com comentários do género “então quando vier para cá traga um médico particular”. Palavras para quê? Foi apadrinhada há anos pelo então Ministro da Economia Manuel Pinho (o mesmo que ficou para a história pelo tristemente célebre episódio dos “corninhos” em plena sessão parlamentar) a ideia peregrina de chamar “Allgarve” ao Algarve, designação tola e provinciana de um programa de promoção turística que tornaria a região mais familiar ao visitante estrangeiro. Mas o problema não está só no nome: é que o Algarve já há muito que relegou o cidadão português para um plano secundaríssimo. 

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