Opinião
Um dos meus museus preferidos em Lisboa é o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), também conhecido como o Museu das Janelas Verdes, por se situar na rua com o mesmo nome. Curiosamente, não foi um amor à primeira vista. A primeira vez que o visitei, há já muitos anos, não fiquei particularmente fascinada com aquilo que vi. Talvez por ser ainda adolescente, não consegui encontrar grande interesse naquelas obras antigas, muitas delas de arte religiosa, com cheiro a História e aparência de relíquia. Mais tarde, foi o tríptico de Jheronymus Bosch – Tentações de Santo Antão – que lá me levou. Este conjunto de três telas em que Bosch encena os medos e as inquietações da Humanidade é uma peça de renome que faz muita gente visitar este museu. É uma pintura tão pormenorizada – e surrealista avant la lettre – que nos faz encontrar sempre algo de diferente de cada vez que a revisitamos. Para além desta, o MNAA ostenta outros ex-libris igualmente interessantes que chamam muito público: o São Jerónimo de Dürer, os Painéis de Nuno Gonçalves, a Custódia de Belém, os Biombos Namban, entre outros. Mas a colecção permanente vai muito para além destes exemplares e inclui ourivesaria, cerâmica, pintura, escultura, desenho, gravura, tapeçaria e mobiliário – autênticos tesouros de épocas passadas. O espaço, por si só, vale uma visita. O museu está instalado no Palácio Alvor-Pombal, cuja construção remonta aos finais do século XVII e inclui o belo Jardim 9 de Abril, ideal para as quentes tardes de Verão. Para além das salas de exposições e do jardim, o MNAA dispõe ainda de uma biblioteca, especializada em História da Arte, e de uma loja, onde podemos fazer o gosto à nossa vontade de trazer connosco um bocadinho daquilo que vimos, já que não podemos ter os originais. Aqui estão disponíveis, para além das habituais lembranças à venda em lojas deste género, os catálogos das várias exposições que já passaram por estas salas, os quais são sempre valiosos documentos, ricos em informação textual e visual. Este é um museu que, apesar de ter como objecto a arte antiga, está atento aos novos canais de comunicação, nomeadamente os digitais, daí que possamos encontrá-lo no YouTube, no Twitter e no Facebook, para além da página oficial (http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/). Estas vias de comunicação são fundamentais, sobretudo para chegar ao público mais jovem. Mas nem tudo tem corrido bem com este exemplar do património inestimável da Cultura Portuguesa. Houve períodos em que o museu teve de fechar vários dias por semana por não haver verba suficiente para pagar aos funcionários que asseguram a sua manutenção e abertura. Também ao nível da sua coordenação tem havido percalços: o último, mais mediático e polémico, foi a saída de Dalila Rodrigues, em 2007. Felizmente o MNAA encontrou alguns mecenas que têm garantido o funcionamento regular deste espaço. À falta de suficiente apoio estatal, suprem-se assim as falhas que podiam pôr em causa o funcionamento do museu. No ano passado, a monumental exposição “Encompassing the Globe” foi um sucesso estrondoso. Neste momento, uma outra exposição promete chamar muito público: “A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana” (até 12 de Setembro). Esta mostra as quatro enormes e exuberantes tapeçarias mandadas fazer por D. Afonso V com vista à sua afirmação como rei empreendedor da Expansão Ultramarina, nomeadamente na conquista do Norte de África (Arzila e Tânger). No passado domingo, Paula Moura Pinheiro, no programa “Câmara Clara” da RTP 2, fez uma excelente visita guiada ao museu e a esta exposição em particular. Num bom exemplo daquilo que pode e deve ser o serviço público de televisão, o programa mostrou como a cultura pode ser viva e interessante. Fica a sugestão: veja ou reveja em http://camaraclara.rtp.pt/#/arquivo/183. E, se puder, não deixe de visitar esta “jóia da coroa” quando passar por Lisboa.
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