Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Recordações digitais

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-07-26

Na passagem da máquina de escrever para o computador, sempre me fez confusão como iríamos a partir de então ter acesso à evolução de um autor, algo que nos era permitido quando tínhamos textos manuscritos, dactilografados, emendados, rasurados, acrescentados pela própria mão do autor. Recordo-me sempre de uma aula memorável que tive na Biblioteca Nacional, em Lisboa, em que nós, jovens estudantes de literatura, nos maravilhámos com alguns originais de Fernando Pessoa, pequenos papéis de vários tamanhos, feitios e proveniências, cheios de emendas. Quem nos pôs em contacto com estes tesouros foi a famosa Equipa Pessoa, a trabalhar numa edição crítica do autor da Mensagem. As edições críticas são, por norma, dirigidas a especialistas, pois nelas se publica não só a última versão de uma obra, mas também todas as variantes que o autor foi fazendo a esta ao longo do tempo. Percebe-se, assim, como este tipo de edições são valiosas para quem estuda determinado autor, uma vez que permite reconstituir – tanto quanto é possível fazê-lo – as várias etapas por que o texto foi passando até à versão final. Dito assim, pode parecer maçudo e demasiado especializado. Mas atentemos num exemplo clássico: O crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz. Esta obra teve três versões, com alterações significativas de umas para as outras. Uma destas grandes mudanças tem a ver precisamente com o “crime” do protagonista: numa versão, o narrador sugere que o padre Amaro assassina a criança que é fruto dos seus amores pecaminosos com a jovem Amélia. Já numa versão posterior, Eça suaviza este forte ataque à instituição clerical e rasura este assassinato, substituindo-o por um simples “passar do testemunho”: o bebé é dado a alguém que o irá criar. Aquilo que pode parecer um mero capricho narrativo, tem com certeza muitas implicações que vão para além de uma leitura simplista. Esta alteração na narrativa demonstra muitas coisas, entre elas o facto de Eça de Queiroz, no evoluir da sua obra, ter aligeirado o seu forte espírito crítico em relação a várias instituições. Hoje praticamente todos os autores escrevem no computador. Digitam, apagam, cortam, acrescentam. Nada fica registado destas progressivas alterações, a não ser que os diligentes criadores sejam adeptos das sucessivas impressões para efeitos de correcções manuscritas. Ainda assim, muito se perdeu já certamente da memória de construção de muitos textos. Que futuro terão as edições críticas neste cenário digital? A mesma questão se pode colocar em termos pessoais, no que diz respeito às recordações que cada um de nós vai acumulando ao longo da vida. Muitos de nós ainda têm fotos amareladas no fundo de uma qualquer caixa esquecida lá em casa. Ou cartas envelhecidas, com as letras bem desenhadas pela mão de alguém que nos é querido. E as novas gerações? Terão o quê? Discos rígidos? Pens? DVDs? Já estou a imaginar uma criancinha num futuro não muito longínquo sentada ao pé do papá a vasculhar numa caixa cheia de CDs e afins, todos iguais e todos igualmente bem conservados, sem aquele élan que o amarelado dá às relíquias familiares... Reconheço que o suporte digital de armazenamento de informação veio facilitar-nos muito a vida: poupa espaço, preserva a qualidade dos documentos, facilita a consulta, etc. O pior é quando há algum acidente de percurso que torna este oásis um verdadeiro inferno: um café que cai em cima do portátil, um computador roubado, um vírus assassino e todas aquelas desgraças informáticas em que não queremos nem pensar, sob pena de ficarmos várias noites sem dormir. Na verdade, até nem sou nada pessimista e muito menos saudosista. Reconheço-me completamente dependente dos gadgets que invadiram a nossa vida quotidiana. Mas por vezes não resisto a abrir a caixinha das recordações e nessas alturas dou comigo a conjecturar: como será daqui a uns anos este nosso reencontro com o passado? 

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