Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Jornalismo e facebook

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-07-19

O Facebook (FB) é um fenómeno que tem despertado reacções muito diversas. Nos extremos, temos aficionados e detractores. Os primeiros destacam as vantagens desta rede social: rapidez de contactos, entretenimento, possibilidade de reencontrar amizades antigas, partilha de gostos, publicitação de eventos, etc. Os críticos apontam-lhe o carácter estritamente virtual como o maior dos defeitos, já que será um mero substituto das verdadeiras relações sociais. Não querendo abordar agora esta querela entre os “a favor” e os “contra”, gostaria de tratar um outro aspecto da questão que me parece também igualmente importante: o da relação entre o jornalismo e as redes sociais. Para os menos familiarizados com o assunto, passo a explicar. Uma vez inscritos no FB, é-nos atribuída uma página na qual podemos publicar o que bem entendermos: o nosso estado de espírito, o que estamos a fazer, fotos, as nossas músicas ou vídeos preferidos, e tudo o mais que a nossa imaginação conseguir alcançar. Podemos também deixar mensagens nas páginas (o “mural”) dos outros. Para além disto, se aderirmos às páginas dos meios de comunicação social (ou de outras instituições), receberemos as notícias que lá forem sendo publicadas. E é-nos permitido, claro está, comentá-las (aliás, quase tudo pode ser comentado por nós no FB). É precisamente esta presença dos jornais, revistas, rádios e canais de televisão no FB que me chamou a atenção. A cada segundo há notícias novas a serem publicadas. É comum sabermos primeiro no FB o que se passa, antes de ouvirmos na rádio ou vermos na televisão. Com a vantagem de não termos de ir procurar. Se nos inscrevermos, tudo o que eles publicam “cai” automaticamente na nossa página. Assim, por exemplo, durante os jogos do Mundial, nem era preciso estar a ver ou a ouvir o jogo: bastava ter o FB ligado e os resultados iam aparecendo em catadupa, com comentários à mistura, evidentemente. A presença dos mass media no FB não substitui de maneira nenhuma o contacto com estes meios. Ela é muito resumida e funciona mais como um teaser, um despertar da curiosidade do público, a fim de que este vá depois procurar o seu desenvolvimento no dito jornal, rádio ou canal de TV. Muitos optam por anunciar a capa do dia ou destacar determinado programa. É uma forma de chamar os consumidores. Há hoje em dia uma tal saturação de informação que o público se vê por vezes perdido no meio de tanta notícia. O curioso é que, ao contrário do que se possa pensar, esta sobrecarga informativa leva-nos a desenvolver uma maior capacidade crítica e selectiva. Isto nota-se nos comentários que os utilizadores fazem às notícias: há contributos de leitores atentos e exigentes, que não se coíbem de criticar o trabalho jornalístico, muitas vezes com razão. Refiro um exemplo: na notícia, há semanas, de duas crianças queimadas por lhes terem sido administrados medicamentos errados num hospital, um jornal diário fazia acompanhar o texto por uma foto de uns pezinhos infantis; uma leitora mais atenta reparou que os ditos pés tinham seis dedos e questionou a dita publicação acerca da coerência entre conteúdo e imagem. Por vezes os leitores questionam a escolha dos títulos, o interesse da notícia e a própria liberdade de expressão dada pelos jornais aos comentadores “facebookianos”. Diga-se, em abono da verdade, que, a par de comentários pertinentes e razoáveis, proliferam também as tolices e os erros de ortografia. É o preço a pagar por um meio tão democrático. Penso que alguns jornais subvalorizam a prestação que têm no FB, esquecendo que por lá andam muitos leitores da versão impressa, que exigem o mesmo rigor jornalístico às publicações online e em papel. O rigor, o cuidado com as imagens, com os títulos e com a selecção das notícias deve ser comum a todos os suportes usados pelos jornalistas. O público não se torna tolo ou acrítico por navegar nestas “redes”. 

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