Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Mulheres...

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-03-15

Sempre defendi acerrimamente os direitos das mulheres, mesmo quando era miúda e ainda estava longe de perceber toda a nomenclatura ligada à emancipação feminina. Irritava-me frequentemente com as regras diferentes para meninos e meninas: a menina tem de ajudar a mamã, o menino vai ao futebol com o papá; a menina tem de aprender a cozinhar, o menino aprende a guiar o carro; a menina veste cor-de-rosa, o menino veste azul; a menina tem de ficar em casa ao serão, o menino pode sair à vontade com os amigos e chegar às horas que bem lhe apetecer e por aí adiante. O pior era quando havia algum membro “transviado” que resolvia subverter as regras do seu género: havia meninas que detestavam saias, que queriam subir às árvores, aprender a jogar futebol e havia meninos que gostavam de “loicinhas”, que odiavam todo o tipo de veículos e que só queriam ver bem longe as colecções de cromos do Benfica. Desgosto supremo! Logo estas meninas eram catalogadas como “marias-rapaz” e eles como “demasiado sensíveis” e “efeminados”. É ver o filme BillyElliotde StephenDaldryque conta a história ternurenta de um menino que, na Inglaterra das minas dos anos 80, decide seguir a sua vocação de bailarino e a luta que ele tem de empreender para convencer o meio machista e retrógrado desta decisão. O reverso da medalha é o lado feminino, que sempre tem sido marcado por reivindicações de igualdade infelizmente ainda hoje necessárias. Em pleno século XXI, há milhares de mulheres que sofrem na pele a discriminação sob as mais diversas formas: ora ganhando menos do que os homens que têm as mesmas funções, ora perdendo o emprego por engravidarem, ora vendo-lhes vedado o direito à licença de maternidade, ora sendo preteridas, em concursos profissionais, a favor de homens com menos habilitações que elas, etc, etc, etc. Percebo que toda esta situação e a necessidade de reivindicar igualdade de direitos tenha levado à criação do Dia da Mulher. Percebo, mas não concordo. Dizem-me que é uma maneira de chamar a atenção para a questão. Ainda assim, neste dia só me vem à mente a hipótese de haver um Dia do Homem. É como se o homem fosse a norma e a mulher a excepção – para a qual, então, é preciso criar um dia. Semelhante questão põe-se em relação às quotas: não havendo hipótese de as mulheres entrarem no Parlamento pela via chamada normal, reservam-se-lhes uns lugarzinhos cativos para onde entram directamente, independentemente da sua capacidade para o cargo. Mas haverá alguma mulher que se sinta confortável a desempenhar este papel? Que se sinta bem sendo olhada de viés, como alguém a quem foi feito o favor de entrar simplesmente pelo facto de ser mulher? Como pode alguém nestas condições argumentar perante os seus pares em defesa da sua competência e da excelência do seu curriculum? Para quê então esforçarmo-nos por sermos competentes, criativas, voluntariosas, se no final a quota nos reservará sempre o “cantinho dos coitadinhos”? A mulher, assim como homem, deve afirmar-se acima de tudo como pessoa. Com as qualidades e os defeitos inerentes ao ser humano – e não especialmente atribuídos a ele ou a ela. Essa coisa da “sensibilidade feminina”, por exemplo, deixa muito a desejar. Conheço muitas mulheres que não têm um pingo de tacto e que se comportam socialmente como um elefante numa loja de porcelanas. Assim como tenho o prazer de lidar com homens que têm os sentimentos à flor da pele, ignorando sabiamente o ditado “um homem não chora”, essa pérola da educação machista… Mais importante do que marcar diferenças é o respeito que devemos uns aos outros, essa sim uma regra de ouro em qualquer sociedade desenvolvida.

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