Açoriano Oriental

Opinião

Ana Cristina Correia Gil Sena revisitado

Ana Cristina Correia Gil
Professora Universitária

2010-03-08

Ao contrário do que se pensa, os poetas não andam no mundo da Lua, não são seres etéreos que dizem coisas que ninguém entende, alheias à realidade. Os poetas brincam com as palavras, criam sentidos inusitados, conjugando inesperadamente vocábulos em combinações cintilantes que nos deixam estupefactos. Chamam assim a atenção para a língua, instrumento que usamos tão instintivamente a ponto de já nem o valorizarmos, nem retirarmos dele o muito que ele nos pode dar. Basta citarmos um verso de Paul Éluard, poeta surrealista francês, para verificarmos até onde pode a liberdade poética levar-nos: “a terra é azul como uma laranja”. Como não ficar perplexo perante tal frase? Como não parar para pensar, para a ler segunda e terceira vez, numa tentativa de lhe retirar algum sentido? Como recusar este desafio à lógica a que estamos habituados? A poesia é isto: o chamar a atenção para as palavras, a sua riqueza, as suas potencialidades, o seu poder ilimitado de nos espantar. Mas há mais a considerar nesta aventura da linguagem que é sempre a boa poesia. Os poetas olham também à sua volta. Vêem o seu vizinho, a sua cidade. Olham para o seu país com um olhar por vezes sarcástico, crítico, pouco misericordioso, pondo a nu vícios e fraquezas com a subtileza de quem faz magia com a língua. É o caso de Jorge de Sena (1919-1978), de quem me lembrei ao ver o novo programa de Miguel Sousa Tavares na SIC, intitulado Sinais de fogo, precisamente o título de um romance inacabado de Sena que acaba de ser reeditado pela Guimarães e que foi passado a filme por Luís Filipe Rocha em 1995. Este romance é um bom exemplo de como a arte da palavra – a literatura – pode ser simultaneamente jogo de linguagem e reflexão sobre a realidade, já que o autor mostra nele as repercussões que teve a Guerra Civil espanhola em Portugal. Sena foi ficcionista, tradutor, crítico, ensaísta, dramaturgo, mas era sobretudo como poeta que se apresentava. Zangado com o regime salazarista, exilou-se no Brasil em 1959, com 40 anos, e acabou os seus dias na Califórnia, Santa Barbara. Só no ano passado Portugal se terá reconciliado com o poeta, com a trasladação dos seus ossos para um cemitério em Lisboa, numa cerimónia que teve toda a pompa e circunstância merecidas pelo poeta. Ora Jorge de Sena é um bom exemplo de um escritor que não se fecha na sua redoma literária, antes procura invectivar incessantemente o país, as suas gentes, as suas elites, os seus governantes, umas vezes de modo violento e áspero, outras através de uma subtileza que convida a ler nas entrelinhas, a perscrutar o sentido escondido, como é o caso do poema Os paraísos artificiais: “Na minha terra, não há terra, há ruas; mesmo as colinas são de prédios altos com renda muito mais alta. Na minha terra, não há árvores nem flores. As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês, e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores. O cântico das aves – não há cânticos, Mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º. E a música do vento é frio nos pardieiros. Na minha terra, porém, não há pardieiros, Que são todos na Pérsia ou na China, ou em países inefáveis. A minha terra não é inefável. A vida da minha terra é que é inefável. Inefável é o que não pode ser dito.” Escrito em 1947, este poema mostra bem um autor que pensa sobre o seu país, se preocupa com ele e se inquieta com o seu destino, demonstrando, como ele próprio afirmou, “um desejo de exprimir o que [entendia] ser a dignidade humana – uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo”. Fica o convite para uma “visita” à obra deste grande autor.

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